03/12/2015

Hino a Dioniso


Hino homérico a Dioniso (Hino VII)

De Dionísio, o glorioso rebento da augusta Sémele,
Lembrarei, como à ourela do mar infecundo surgiu,
Sobre um cabo saliente, na forma de um jovem varão
Inda imberbe, os seus belos e negros cabelos flutuando,
E portanto nos ombros robustos um pálio de cor 
Purpurina. Eis que logo num bem cobertado navio
Salteadores tirrenos surgiram do mar cor de vinho
Por madrasta fortuna impelido, e, ao verem-no, pronto
Entre si consentiram, e logo prendê-lo avançaram,
E em seguida ao navio levaram-no, as mentes alegres
Confiavam-no filho de reis precedentes de Zeus,
E em cadeias possantes atá-lo quiseram por força.
Todavia as cadeias o não seguravam, e os elos
De seus pés e mãos se soltavam, enquanto, sentado
Com seus olhos noturnos se ria. O piloto, entendendo,
Conclamou logo os seus companheiros e disse o seguinte:
“Infelizes, que deus poderoso domar e prender
Pretendeis? Mesmo o nosso navio o não pode levar,
Pois sem dúvida é Zeus, ou Apolo das flechas de prata
Ou talvez Poseidon, já que aos homens mortais não parece,
Mas aos deuses que habitam na ampla morada do Olimpo.
Apressai-vos! Deixemo-lo em terra, na praia sombria,
Desde já nem co’as mãos o toquei, p’ra que não, irritado,
Fortes ventos excite e abundantes terríveis borrascas”.
Assim disse, e o cruel capitão retrucou-lhe o seguinte:
“Infeliz, olha o vento e o velame da nave desferra,
Tendo as mãos colhido, que deste os demais cuidarão
Pois espero que chegue ao Egito, ou que a Chipre ele chegue,
Ou ao país hiperbóreo, ou além; e que ao fim da jornada
Seus amigos no diga e nos conte seus todos haveres,
Seus irmãos, pois é certo que um deus aqui no-lo entregou”
Disse, e o mastro fincou e o velame largou do navio,
E no bojo da vela sopraram os ventos. Em torno,
Dispuseram as armas. Mas logo surgiram prodígios…
Vinho doce e adorante, primeiro, jorrava da nave
E fluía flagrante e sonoro exalando um perfume
Imortal! Grande horror assaltou os marujos ao verem.
De repente, no topo do mastro alastrou-se uma vinha
Carregada de cachos, crescendo por todos os lados,

E do mastro ao redor enroscou-se uma hera noturna,
Toda em flores virente onde frutos ridentes pendiam;
As cavilhas cingiam coroas. Tal vendo, os marujos
Ao piloto premiam que a nau para a terra ligeiro
Dirigisse. Mas, dentro, em leão se tornou Dionísio
Que terrível por sobre um convés grandes urros lançava.
Já uma ursa felpuda no meio criou, prodigioso,
Que se alçou furibunda. O leão, no mais alto da ponte,
Fulminantes olhares lançava. P’ra popa fugiram
E ao redor do piloto, que espírito calmo mantinha,
Se agruparam turbados. Mas súbito o leão atacou
O cabeça. Os demais, vendo aquilo, ao mal fado escapando,
Todos juntos se às águas do mar atiraram divino
E viraram golfinhos. Doeu-se porém do piloto,
E o reteve. Fazendo-o feliz, o seguinte lhe disse:
“Nada temas, Hecátor, que ao meu coração és querido.
Sou Dionísio multíssono, aquele que foi concebido
Por Sémele cadmeia depois de por Zeus ser amada”.
Salvé filho de olhos formosos, Sémele. É impossível,
Esquecendo de ti, se compor um cantar harmonioso.

Tradução de Jair Gramacho [GRAMACHO (trad.) Hinos Homéricos. Brasília: Editora da Universidade de Brasília.2003]


Hino Homérico XXVI: a Dioniso

De cabelos hederosos Dioniso mui clamoroso começo a cantar,
De Zeus e Sêmele mui gloriosa o esplêndido filho,
a ele nutriam ninfas de belos cabelos, do pai soberano
acolhendo-o em seus seios e solícitas criaram-no
nas grutas do Nisa:  ele crescia por paterna vontade
em olente antro, contabilizado entre os imortais
Mas depois que as Deusas o nutriram multi-hineado
aí então ele vagava por arbóreos vales
coberto de hera e louro; junto seguiam 
as ninfas, ele lidera: frêmito toma a inefável selva.
Também assim, tu, salve, ó multicacheado Dioniso
dá-nos com alegria às estações ir uma vez 
e das estações vir outra vez por muitos anos.



Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...