14/12/2015

Guerra da Crimeia

Guerra da Crimeia, que teve início a Outubro de 1853 e fim em Fevereiro de 1856, foi um conflito que se deu entre o Império Russo e uma aliança entre o Império Francês, Império Britânico e o Reino de Sardenha. A guerra foi parte uma contestação entre as maiores potências europeias relativamente aos territórios do Império Otomano, que então se encontrava em declínio.
A maior parte do conflito deu-se na Península da Crimeia, tendo havido, no entanto, pequenas campanhas na Anatólia Oriental, no Caucasus, no Mar Báltico, no Oceano Pacífico e no Mar Branco. 
Na Rússia esta guerra é conhecida também como a Guerra do Oriente e os Britânicos também a denominaram da Guerra Russa, na altura.
A Guerra da Crimeia é conhecida pelos erros logísticos e tácticos durante as campanhas terrestres de ambos os lados (os Aliados tiveram bastante sucesso na sua campanha naval ao eliminar a maior parte dos navios da Marinha Russa no Mar Negro). No entanto, a Guerra da Crimeia é muitas vezes considerada uma das primeiras guerras modernas, pois foram «introduzidas mudanças técnicas que afetaram o futuro do curso das guerras», incluindo a primeira vez que foram usados os caminhos de ferro e o telégrafo.
É igualmente famoso o trabalho de Florence Nightingale e Mary Seacole, a qual foi pioneira na enfermagem moderna enquanto cuidava dos feridos no Império Britânico.
A Guerra da Crimeia foi uma das primeiras guerras a ser documentadas extensivamente devido ao uso de relatórios e fotografias (de destacar os trabalhos do jornalista William Russel do The Times, e do fotógrafo Roger Fenton). Chegaram notícias a todos os países envolvidos em conflito através dos correspondentes de guerra e mantiveram os cidadãos desses países muito melhor informados e actualizados acerca dos eventos do que em qualquer outra guerra. No entanto, em mais lado nenhum o público esteve melhor informado do que na Grâ-Bretanha acerca das realidades da guerra na Crimeia. Consequentemente, a opinião pública desempenhou um papel importante neste conflito, mais do que em qualquer outro anterior.  Para além disso, o uso dos navios a vapor e do telegrafo fez com que as notícias desde a zona de guerra na Crimeia chegavam à Europa Ocidental e a Londres em cinco dias. Após a França ter estendido o telégrafo de Bucareste para Varna, na costa do Mar Negro, durante o Inverno de 1854, as notícias passaram a chegar a Londres em dois dias. Após o que, a Abril de 1855, os Britânicos colocaram um cabo subaquático desde Varna, através do Mar negro, até ao seu porto de fornecimento no sul da costa da península Crimeia, as notícias passaram a chegar a Londres em poucas horas. As notícias quase instantâneas criaram um patriotismo entre a classe média de Inglaterra que fez com que a colisão governamental  Aberdeen fosse abaixo e Lord Palmerston se tornasse Primeiro Ministro.

(site de interesse - Fotos da Guerra da Criméia )


As tensões antes da batalha: A Questão do Oriente

O conflito acerca da autoridade no Mediterrâneo Oriental

A Rússia, como membro da Sacra Aliança, tinha operado como a "Polícia da Europa", mantendo o balanço de poder que havia sido estabelecido com o Tratado de Viena em 1815. A Rússia deu assistência à Áustria nos esforços desta de suprimir a Revolução Húngara de 1848, e esperava que a Europa permitisse que fosse a Rússia a tratar dos problemas com o Império Otomano - «o homem doente da Europa«. Denomino-se a discussão acerca do futuro do Império Otomano como «A Questão do oriente», um termo que continuaria em uso como referência ao Império Otomano até ao início do século XX.

Durante 200 anos, a Rússia expandiu as suas fronteiras ao sul em direcção aos portos da água morna do Mar Negro. Estes portos, devido à temperatura das águas, não congelavam durante o Inverno, o que era essencial para a expansão do comércio e do desenvolvimento da Marinha russa. O que levou levou a um estado de guerra com os Cossacos Ucranianos e mais tarde com os Tártaros. Quando a Rússia conquistou estes grupos e obteve a possessão da Ucrânia, o Império Otomano perdeu a sua zona amortecedora contra as expedições da Rússia e sentiu o conflito diretamente. O conflito com o Império Otomano apresentou igualmente um importante conflito religioso.
Após a derrota de Napoleão em 1815 a Rússia, Áustria, Grâ-Bretanha e Prússia reuniram-se em Viena para o Congresso de Viena. Este congresso durou desde Setembro de 1814 até Maio de 1815 e estabeleceu a Sacra Ordem da Europa - um equilíbrio entre os poderes que iriam perdurar neste continente até à Primeira Guerra Mundial (1914-1918).



Sob o poder do Czar Alexandre I, a Rússia conseguiu ter um papel importante nas decisões em Viena e na criação de um novo equilíbrio dos poderes na Europa. Com o seu enorme exército foi a principal base de suporte, pela qual a ordem seria mantida. De facto durante o governo do Czar Nicolau I, que sucedeu ao irmão depois da morte repentina e inesperada de Alexandre I, a 19 de Novembro de 1825, a Rússia viria a ser denominada de "a polícia da Europa". 
Nicolau I abominou tanto os revolucionários quanto a sua avó, Catarina a Grande, estendendo-se igualmente aos movimentos nacionalistas. Durante a década de 1820, um dos movimentos nacionalistas que causou mais preocupações ao Czar Nicolau I foi o crescente impulso pela independência da Grécia, que desejava ver-se livre do Império Otomano. Por um lado o Czar queria encorajar o movimento de independência da Grécia, afinal eram cristãos Ortodoxos do Leste, e a Rússia procurou sempre proteger e dar apoio a todos os Cristãos Ortodoxos do Leste que se encontrassem debaixo do poder do Império Otomano. No entanto o movimento de independência grego era atrativo para os apoiantes românticos, como o poeta britânico Lord Byron.
A agitação por uma Grécia independente levou a outra guerra entre os Impérios Russos e Otomanos. Esta guerra tem sido denominada de a Guerra Russa-Turca de 1828-1829. A Russia atravessou o Rio Danúbio até à província de Dobruka em Junho de 1828. O exército russo composto por 92.000 homens estabeleceram-se em três fortalezas na Bulgária: Shumla, Varna e Silestria. Varna caiu nas mãos dos russos a 29 de Setembro de 1828. No entanto, o cerco de Shumla mostrou ser mais problemático. apesar de o número dos russos exceder em 40.000 homens dentro da fortaleza, mas com a aproximação do Inverno os russos foram obrigados a retirarem-se de Shumla de volta através do Danúbio. Na Primavera seguinte, os russos colocaram cerco novamente a Silestria. Entretanto 40.000 tropas otomanas atacaram Varna. Os russos, no entanto, defenderam-se naquela que seria a Batalha de Kulevicha a 30 de Maio de 1829.
Ficou para a história o facto de os russos terem perdido metade das suas tropas nas campanhas do Danúbio devido a cólera e outras doenças, devido aos cuidados médicos extremamente precários.
A Guerra Russo-Turca acabou a 14 de Setembro de 1829, com o Tratado de Adrianópolis. Neste Tratado o Império Otomano garantiu a independência da Grécia e voltou a garantir a a autonomia da Sérvia (a qual tinha sido prometida na Convenção de Akkerman em 1826). Os Otomanos também reconheceram a Georgia como pertencendo à Rússia, o direito da Rússia de exigir indemnizações elevadas aos Turcos Otomanos, e ainda o direito à Rússia de ocupar a Moldávia e Wallachia até as indemnizações estarem pagas. Para além disso, foi reconhecido o direito à Rússia de navegar até à foz do Danúbio. Os estreitos dos Dardanelos, que anteriormente eram posse dos otomanos, foram abertos a todas as embarcações. O Tratado de Adrianopólis chocou as opiniões internacionais e começaram a surgir pressões àquilo que parecia 250 anos de expansão russa sem fim à vista.
Dessa forma os termos do Tratado de Adrianopólis foram revistos e modificados pelo Tratado de Hünker Iskelesi, assinado pelos Impérios Russo e Otomano a 8 de Julho de 1833. Mas ainda neste tratado a Russia expandia o seu território. As nações europeias começaram a recear que houvesse um srtigo secreto no tratado que fechasse o estreito de Dardanelos às embarcações não russas.

As causas imediatas da Guerra da Crimeia

A cadeia de eventos que se seguiu em que a França e a Grâ-Bretanha  declararam guerra à Rússia a 27 e 28 de Março de 1854 pode ser traçada ao coup d'état de 2 de Dezembro de 1851, em França. Napoleão III sabia que para restaurar a grandeza de França, ele podia contar com o apoio da esquerda em França, que se lembrariam de Napoleão I. No entanto, relativamente ao poder direitista católico francês, Napoleão sabia que ainda tinha de conquistar o seu apoio. Luís Napoleão conhecia o facto de já há muito que a Igreja Católica da França vinha a clamar por uma cruzada contra a "heresia ortodoxa". Napoleão também sabia que o Marquês Charles de La Valette era um católico zeloso e membro líder do "partido clérigo", o qual estava bastante preocupado com a politica francesa relativamente à proteção dos Locais Santos na Palestina. Assim, a designação de Luís Napoleão de La Valette em Maio de 1851 como o seu embaixador no Império Otomano, era uma certeza de que levaria a uma luta com a Rússia sobre os direitos dos Ortodoxos e Católicos sobre as Terras Santas. Esta designação iria fazer com que Napoleão ganhasse o apoio dos Católicos em França. Esta acção teve como objectivo o reconhecimento de França como a "autoridade soberana" sobre a população Cristã. A Rússia contestou esta tentativa de alteração na "autoridade. Apontando a dois Tratados, de 1757 e o de  1774, o Tratado de Küçük Kaynarca, os Otomanos anularam a decisão anterior, renunciando ao Tratado com a França e insistiram no facto de a Rússia ser a protectora dos Cristãos Ortodoxos no Império Otomano.
Napoleão III respondeu com uma demonstração de força, ao mandar o navio de linha Charlemagne para o Mar Negro. Esta acção foi uma violação à Convenção de Londres sobre os Estreitos. No entanto, os otomanos sabiam que o Charlemagne navegava a uma velocidade de 8,5 nós e que podia derrotar os navios russos e otomanos, tecnicamente atrasados. Para além disso, a demonstração de força da França representava um perigo real quando combinada com uma diplomacia agressiva e dinheiro, o que levou o Sultão Abdülmecid a aceitar um novo tratado, em que confirmava que a França e a Igreja Católica Romana como a autoridade Cristã suprema com controlo sobre os lugares santos dos Católicos Romanos e sobre as possessão das chaves da Igreja da Natividade, previamente nas mãos da Igreja Grega Ortodoxa.
O Czar Nicolau I colocou então os 4 e 5 Corpos de Exército ao longo do rio Danúbio, e colocou o Conde Karl Nesselrode, o seu ministro dos negócios estrangeiros em conversa com os otomanos. Nesselrode confidenciou a Sir George Hamilton Seymor, o embaixador britânico em São Petersburgo:
[A disputa sobre os locais santos] assumiram um novo carácter - os actos de injustiça contra a Igreja Grega que tinham sido desejados prevenir foram cometidos e consequentemente agora o objectivo era somente o de encontrar um remédio para estes erros. O sucesso das negociações francesas em Constantinopla só podiam ser descritas como intrigas e violência - violência que era suposto ser a ultima ratio dos reis, sendo, tinha sido visto, os meios pelos quais o presente governante da França tinha o hábito de empregar nas primeiras circunstancias.
O conflito surgiu sobre o caso dos locais santos, Nicolau I e o seu ministro dos Negócios Estrangeiros Karl Nesselrode começaram uma diplomacia ofensiva, em que esperavam conseguir prevenir que tanto a Grâ-Bretanha como a França interferissem em qualquer conflito armado entre a Rússia e os Otomanos, assim como prevenir a sua aliança.
Nicolau começou a cortejar os britânicos através de conversações com o embaixador britânico Seymor em Janeiro e Fevereiro de 1853. Nicolau insistiu que não desejava o alarmento do Império Russo, mas que tinha uma obrigação para com as comunidades cristãs do Império Otomano. O Czar despachou em seguida um diplomata, o príncipe Menshikov, numa missão especial até so Porto Sublime Otomano em Fevereiro de 1853. Pelos tratados anteriores o sultão estava obrigado "a proteger a religião cristã (ortodoxa do leste) e as suas igrejas". Menshikov tentou negociar um novo sened, uma convenção formal com o poder de um tratado internacional, sob o qual os otomanos iriam permitir à Rússia os mesmos direitos de intervenção nos assuntos da religião ortodoxa, como tinham permitido à França relativamente à igreja católica e aos seus clérigos. Este tratado iria permitir à Rússia controlar a hierarquia da Igreja Ortodoxa. Menshikov chegou a Istambul a 16 de Fevereiro de 1853 num navio de guerra a vapor Gromovnik . Uma vez em Constantinopla desrespeitou o protocolo no Porte. No seu primeiro encontro com o Sultão, ele insultou os turcos ao aparecer com roupas civis invés do usual e tradicional uniforme militar para o seu comité de boas vindas. Depois começou a condenar as concepções efectuadas pelos Otomanos à França. Menshikov começou, igualmente, a exigir a renovação dos funcionários Otomanos com funções numa hierarquia mais elevada - principalmente o Primeiro Ministro Otomano Fuad Efendi.
Desde a partida de do embaixador Britânico Stratford Canning em Janeiro de 1853 para o Império Otomano, a embaixada britânica tinha sido governada em Constantinopla por Hugh Rose, encarregado dos assuntos para os britânicos. Ao usar os seus imensos recursos junto com o Império Otomano, Rose soube do movimento das tropas russas ao longo da fronteira do Danúbio e começou a ficar preocupado acerca da extensão da missão de Menshikov em Porte. A 8 de Março de 1853, Rose, usando a sua autoridade como representante dos britânicos junto dos otomanos, ordenou ao vice-almirante Sir James Whitley Deans Dundas, estacionado na ilha de Malta, que levasse o esquadrão de navios de guerra para Urla, Izmir, na costa iónica da Turquia. No entanto, Sir James Dundas, recusou-se a deixar Malta e ressentiu-se contra Rose por este acreditar que ele poderia interferir nos assuntos do Almirante. As ações de Rose foram canceladas numa semana. A Frota Francesa partiu de Toulon a 22 de Março de 1853 e dirigiu-se para o Bósforo. Tinha como intenção prevenir qualquer ataque a Constantinopla, na zona oeste do Bósforo. Para além de que só os franceses enviaram uma força naval para apoiar os otomanos.


Primeiras hostilidades

A Fevereiro de 1853, o governo do Primeiro Ministro britânico Lord Aberdeen voltou a eleger Stratford Canning para a embaixada britânica no Império Otomano. (tinha-se demitido da embaixada em Janeiro, tendo sido substituído pelo Coronel Hugh Rose como emissário no Império Otomano). Mais uma vez Lord Stratford navegou para Constantinopla, tendo chegado a 5 de Abril de 1853. Aí, ele conseguiu convencer o Sultão a rejeitar a proposta de Tratado dos russos, que comprometia a independência dos turcos. o líder da oposição na Câmara dos Comuns Britânica, Benjamin Disraeli, culpou  Aberdeen e Stratford de tomarem ações que tornavam a guerra inevitável, começando assim o processo que levaria à demissão do governo de Aberdeen em Janeiro de 1855 por causa da guerra.
Depois de saber do insucesso da diplomacia de Menshikov em Junho de 1853, o Czar enviou os seus exércitos sob o comando do Marshal de Campo Ivan Paskevich e do general Mikhail Gorchakov, através do rio Prut até aos principados otomanos, do Danubio, de Moldávioa e Valáquia controlados pelos russsos. Dos 80.000 soldados que atravessaram o rio Prut em 1853, menos de matade viria a sobreviver, sendo que a maioria das baixas viria a ser causada mais por doença do que por combate - o o serviço médico no Exército Russo era inexistente ou quase inexistente. A Russia tinha obtido junto do Império Otomano o reconhecimento do Czar como guardião especiaql dos cistãos ortodoxos destas duas províncias. Agora a Russia usava a incapacidade do Sultão em resolver o problema da proteção dos crsitãos nos locais da Terra Santa como pretexto para a ocupação da Russia destas províncias do Danúbio. Nicolau acreditava que as potências europeias, especialmente a Áustria, não iriam apresentar fortes objecções à anexação de algumas províncias otomanas, especialmente devido ao facto de a Rússia ter apoiado os esforços austriacos em suprimir a Revolução Hungara em 1849.
Quando a 2 de Julho de 1853 o Czar enviou as suas tropas para os principados, os britânicos tinham a esperança de manter o Império Otomano como contraforte contra a expansão russa ao Dardanelos, a qual se juntou a outra frota, enviada pela França.
Ao mesmo tempo, no entanto, as potências europeias ansiavam por um compromisso diplomático. Os representantes das Grandes Potências - Grâ-Bretanha, França, Áustria e Prússia - encontraram-se em Viena, onde criaram uma proposta que esperavam ser aceite tanto pelos rusos como pelos otomanos. Os termos de paz concluídos pelas quatro potências foram entregues aos russos em S. Petersburgo pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros austríaco, o conde Karl Vo Buol, a 5 de Dezembro de 1853. Nicolau I aceitou a proposta, no entanto Abdülmecid I rejeitou-a, sentindo que a forma de escrita do documento deixava em aberto muitas possibilidades. Os britânicos, franceses e austríacos uniram-se na intenção de fazer emendas ao documento, mas a corte de S. Petersburgo ignorou as suas sugestões.
Apesar do abandono da Grâ-Bretanha e da França das negociações, tanto a Áustria como a Prússia não acreditaram que a rejeição das emendas fosse razão para deixar de tentar a via diplomática. Apesar disso, o Sultão declarou formalmente guerra à Rússia a 23 de Outubro de 1853 e iniciaram os ataques, com os seus exércitos a atacarem os exércitos russos, perto do Danúbio, no final desse mesmo mês. A Russia e os Otomanos reuniram grandes forças em duas frentes principais, no Caucaso e no Danúbio. O lider otomano Omar Pasha conseguiu algumas vitórias na frente do Danúbio. No Caucasso, os otomanos só conseguiram manter a posição devido ao apoio dos muçulmanos chechenos, liderados por Imam Shamil.
Nicholas respondeu ao ataque enviando navios de guerra, os quais na Batalha de Sinop, a 30 de Novembro de 1853, destruiu o esquadrão de patrulha otomano enquanto estes se encontravam ancorados no porto de Sinop, no norte da Anatólia.
A destruição dos navios de guerra otomanos deu aos britânicos e franceses a casus belli para declarar guerra contra a Rússia ao lado do Império Otomano.
A 28 de Março de 1854, após a Rússia ter ignorado um ultimato Anglo- Francês para se retirar dos principados do Danúbio, a Grã-Bretanha e França fizeram uma declaração formal de guerra.

Tentativa de Paz

O Czar Nicolau  achava que devido ao apoio da Rússia à Áustria na supressão da Revolução Húngara de 1848, a Áustria iria ficar do seu lado, ou pelo menos, manter-se neutra. No entanto, a Áustria sentia-se ameaçada pelas tropas russas. Quando a Grã-Bretanha e França exigiram que a Rússia retirasse as suas tropas dos principados, a Áustria apoiou-os, e apesar de não ter declarado logo guerra, recusou-se a garantir a sua neutralidade.
A Rússia, então, retirou as suas tropas dos principados danubianos, os quais foram ocupados pelos austríacos até ao fim da guerra. Este acto retirou as razões originais para a guerra, mas tanto os ingleses quanto os franceses continuaram com as hostilidades. Determinados  a resolverem a Questão do Leste ao colocarem um fim às ameaças da Rússia ao Império Otomano, os aliados propuseram determinadas condições para a resolução da paz, incluindo:
  • A Rússia tinha de desistir do protectorado sobre os Principados Danubianos;
  • Estaria proibida de proclamar quaisquer direitos de interferência nos assuntos otomanos sobre o pretexto da Igreja Ortodoxa;
  • A Convenção dos Estreitos de 1841 deveria ser revista;
  • Deveria ser dado acesso ao rio Danúbio a todas as nações.
Quando o Czar recusou os termos da revisão, a Guerra da Crimeia começou.

Desenvolvimento - Batalhas

  • Campanha do Danúbio
A campanha do Danúbio teve inicio quando os russos ocuparam os Principados do Danúbio da Moldávia e Valáquia em Maio de 1853, levando as suas forças até ao banco norte do rio Danúbio. Em resposta o Império Otomano também moveu as suas tropas subindo o rio. Isto provocou um braço de ferro em Vidin a oeste de Silistra.
Este movimento das tropas otomanas também preocupavam os austríacos, que por sua vez, responderam levando as suas tropas até à Transilvânia. No entanto, logo os austríacos começaram a perceber, tal como os britânicos, que era melhor ter um Império Otomano intacto que servisse de baluarte contra os russos. Assim, através da diplomacia, os austríacos conseguiram manter a sua neutralidade, apesar das insistências russas para se juntarem a eles na guerra.
Seguindo o ultimato otomano em Setembro de 1853, as forças do general otomano Omar Pasha atravessaram o Danúbio em Vidin e capturaram Kalafatin em Outubro de 1853.  Ao mesmo tempo, a leste, os otomanos atravessaram o Danúbio em Silistra e atacaram os russos em Oltenitza. O resultado foi a Batalha de Oltenitza, o primeiro encontro ao qual se seguiria a declaração de guerra. Os russos contra-atacaram mas foram vencidos novamente. a 31 de Dezembro de 1853 as forças otomanas em Kalafat confrontaram as forças russas em Chatetea ou Cetate, uma pequena vila a nove milhas de Kalafat. No entanto, a maior parte da luta mais feroz deu-se em e ao ao redor de Chatatea até ao momento em que os russos foram forçados a deixar a vila. Apesar do revés em Chatatea, a 28 de Janeiro de 1854 as forças russas estabeleceram um cerco a Kalafat. O cerco manteve-se até Maio desse mesmo ano quando os russos levantaram o cerco.
Os otomanos viriam a vencer os russos, igualmente, na batalha de Caracal.
Na Primavera de 1854 os russos fizeram novo avanço, atravessando o Danúbio até à província turca de Bulgária. Depressa vieram a ocupar todo o distrito de Dobruja. Em Abril de 1854, os russos tinham chegado às linhas do Muro de Trajano onde foram finalmente parados. No centro as forças russas atravessaram o Danúbio e montaram cerco a Silistra, de 14 de Abril a 23 de Junho de 1854. A ocidente, os russos foram dissuadidos de atacar Vidin devido à presença das forças austríacas que tinham intensificado as forças até 280.000 homens. A 28 de Maio  de 1854 foi assinado o Protocolo de Viena pela Áustria e Rússia. um dos objetivos do avanço russo tinha sido o de encorajar os Cristãos Ortodoxos Sérvios e Búlgaros de viverem sob o governo Otomano para se revoltarem. No entanto, assim que as tropas russas atravessaram de facto o rio Prut até à Valáquia, os cristãos ortodoxos continuaram a não mostrar nenhum interesse em revoltarem-se contra os turcos. o czar Nicolau I estava igualmente preocupado  com o facto de a Áustria poder entrar em guerra contra a Rússia e atacar as forças russas no flanco ocidental. E de facto, depois de ter tentado mediar um acordo de paz entre a Rússia e a Turquia a Austria atacou os russos nos principados, o que ameçou as linhas de mantimentos russas. Isto forçou os russos a levantar o cerco de Silistra a 23 de Junho de 1854, começando assim a abandonar os principados.
Em Junho de 1854 a força expedicionária dos Aliados chegaram a Varna, mas sem fazer grandes avanços a partir daí. Em Julho de 1854 os turcos sob o comando de Omar Pasha atravessaram o Danubio até à Valáquia e a 7 de Julho derrotaram os russos na vila de Giurgevo, conquistando-a. A captura de Giurgevo pelos turcos veio rapidamente a ameaçar Bucareste, na Roménia, sendo que foi igualmente capturada pelos turcos. A 26 de Julho de 1854 o czar Nicolau I ordenou a retirada das tropas russas dos Principados. Igualmente, nos fins de Julho de 1854, seguindo a retirada russa, os franceses prepararam uma expedição contra as forças russas em Dobruja, mas sem sucesso.
Por essa altura a retirada russa estava completa, com excepção das torres fortificadas no norte de Dobruja. Não houve muito mais movimentos nesta frente após o outono de 1854, e em setembro vários navios das forças aliadas seguiram de Dardanelos até  ao Mar Negro para invadir a Península da Crimeia.

Teatros de Guerra - Mar Negro
As operações navais da guerra da Crimeia começaram com a expedição, no verão de 1853, das frotas francesas e britânicas para a região do Mar Negro, em apoio aos otomanos e de forma a dissuadir a invasão russa. Em junho de 1853, ambas as frotas estavam estacionadas na baía de Besikas, no exterior de Dardanelos. Com a ocupação russa dos Principados Danubianos em outubro, seguiram para o Bósforo e em novembro entraram no Mar Negro.
Durante este período a frota russa do Mar Negro encontrava-se em guerra contra os otomanos, entre Istambul e os portos no Cáucaso, enquanto que a frota otomana procurava proteger a sua linha de abastecimento. O confronto deu-se a 30 de Novembro de 1853 quando uma frota russa atacou a força otomana em Sinop, destruindo-a. Não houve muito mais ação naval até Março de 1854  quando no seguimento da declaração de guerra a fragata britânica Furious foi destruída fora do porto de Odessa. Em resposta a frota britânica bombardeou o porto, causando muitos danos à cidade.
Em Junho as frotas transportaram as forças expedicionárias aliadas até Varna, de forma a auxiliar as operações otomanas no Danúbio; em setembro as frotas voltaram a fazer o transporte das tropas, mas desta vez para a Crimeia. Durante este tempo os russos preferiram não entrar em confronto com os aliados, preferindo uma estratégia de manter uma frota estacionária, mas sem a acionar. Esta estratégia falhou quando Sevastopol, o principal porto e onde a maioria das tropas se encontravam, passou a estar sob cerco. As forças russas ficaram extremamente reduzidas e durante o resto da campanha o Mar Negro manteve-se sob o controlo das frotas aliadas, assegurando que as várias frentes eram abastecidas.

  • Campanha da Criméia
Nos finais de Julho de 1854 os russos evacuaram a Valáquia e Moldávia. Com a evacuação dos Principados Danubianos a causa imediata da guerra tinha um final e esta poderia ter acabado. No entanto, a febre de guerra encontrava-se espalhada entre os públicos britânicos e franceses, grande parte devido à imprensa de ambos os países, de tal forma que os políticos viram-se incapazes de propor o fim da guerra neste ponto. De facto o Governo Peelite de George Hamilton-Gordon, 4º conde de Aberdeen perdeu, a 30 de Janeiro de 1855 o voto de confiança, pois encontrava-se relutante em assinar um plano com o objetivo de estender a guerra.
Assim, as forças aliadas deslocaram-se de Varna, na costa da província turca Bulgária, desembarcando na Crimeia, com a intenção de sitiarem a cidade de Sevastopol, lar da frota do czar no Mar Negro. Aos olhos dos britânicos e franceses a frota russa era uma ameaça ao Mediterrâneo.
A campanha na Crimeia teve início em Setembro de 1854 com o desembarque das forças aliadas na baía de calamita, na costa ocidental da Península da Crimeia. No entanto, de forma a proteger o flanco esquerdo das tropas aliadas de ser atacado, os aliados inicialmente deslocaram-se até às costas norte e oeste da península de forma a ocuparem a cidade de Eupatoria. Após a travessia do rio Alma a 30 de setembro de 1854, os aliados moveram-se com o objectivo de investirem contra Sevastopol. O exército russo retirou-se para o interior. Em 25 de outubro de 1854 foi repelido um assalto russo à base de abastecimento na Balaclava.
A Batalha de Baclava tem lugar na história devido à bravura das unidades das forças britânicas. O regimento de Infantaria 93, das Terras Altas (93rd Highlanders) permaneceram firmes apesar dos ataques repetidos de uma força russa em muito maior número. Isto fez com que ficassem conhecidos na história como A Fina Linha Vermelha (Thin Red Line). A segunda unidade britânica a ser imortalizada na Batalha de Balaclava foi a Brigada de Cavalaria Ligeira sob o comando do Conde de Cardigan. Uma ordem extremamente ambígua mandou a brigada na quase suicida Carga da Brigada Ligeira até ao Vale Sul do campo de batalha da Balaclava.
Nos montes no Vale Sul estavam cheios de artilharia russa que bombardeavam constantemente a Brigada Ligeira. Dos originais de cerca de 700 homens que constituíam a força da Brigada Ligeira, 278 foram mortos ou feridos. A Brigada Ligeira foi imortalizada no famoso poema de Alfred Lord Tennyson, a Carga da Brigada Ligeira.
A incapacidade dos britânicos e franceses de dar seguimento à Batalha de Baclava levou a outra e muito mais sangrenta batalha - a Batalha de Inkerman. A 5 de Novembro de 1854, a tentativa dos russos de levantarem o cerco em Sevastopol com um ataque  contra os aliados perto  perto da cidade de Inkerman cujo resultado foi uma vitória dos aliados.
Em Fevereiro de 1855 os russos atacaram a base dos aliados em Eupatoria, onde o exército otomano estava estacionado e ameaçava a rota de abastecimento dos russos. Os russos foram vencidos e isto levou auma mudança no comando. O rumo que a guerra estava a tomar influenciou a saúde do Czar Nicolau. Com a sua saúde em estado fragilizado, o Czar apanhou uma constipação em Fevereiro de 1855. A 8 de Fevereiro a constipação desenvolveu-se numa gripe. As notícias da derrota em Eupatoria chegaram ao Czar, que se encontrava em S. Petersburgo, a 16 de Fevereiro de 1855 deprimindo-o ainda mais. A condição do Czar piorou e apanhou pneumonia. Morreu a 18 de Fevereiro de 1855.
No lado aliado a ênfase no cerco em Sevastopol mudou para o lado direito das linhas, contra a fortificação no Monte Malakoff. Após várias semanas de lutas dos franceses pelo controle Mamelon, começadas em Março, não levaram a grandes mudanças, e Mamelon continuou sob poder russo.

Em Agosto os russos fizeram um novo ataque à Base de Baclava. O resultado foi a batalha de Tchernaya, com uma derrota para os russos, que sofreram fortes perdas. O assalto final deu-se em Setembro. A 5 de Setembro outro bombardeamento francês (o sexto) foi seguido por um assalto francês a 8 de Setembro resultando na captura de Malakoff pelos franceses e o colapso das defesas russas. Entretanto, os britânicos capturaram o Great Redan, a sul da cidade de Sevastopol. A cidade caiu a 9 de setembro de 1855, após um ano de cerco.
Em Abril de 1855, os aliados iniciaram um novo bombardeamento, levando a uma luta de artilharia com os russos, mas sem o seguimento de um assalto terrestre. A 24 de Maio de 1855 sessenta navios contendo tropas constituídas por 7.000 franceses, 5.000 turcos e 3.000 britânicos, começaram um assalto na cidade de Kersh, a este de Sevastopol numa tentativa de abrir outra frente na península da 
Crimeia, e cortar a fonte de abastecimentos dos russos. Os aliados desembarcaram as forças em Kersh. Embora o desembarque tenha sido um sucesso, as forças fizeram pouco sucesso a partir daí. Em Junho um terceiro bombardeamento foi seguido por um ataque bem sucedido em Mamelon, mas um assalto em Malakoff acabou numa derrota com pesadas baixas. Durante este tempo o comandante da guarnição, o Almirante Nakhimov, sofreu um ferimento fatal, ao ser atingido na cabeça, e morreu a 30 de Junho de 1855.
Neste ponto ambos os lados estavam exaustos e não houve mais movimentos militares na Criméia antes do começo do Inverno.
  • Capanha de Azov
Na primavera de 1855, os comandantes da força aliada Francesa-britânica decidiram enviar um esquadrão naval anglo-francês até ao mar Azov de forma a enfraquecer as comunicações e abastecimentos russos, ao sitiarem Sevastopol. a 12 de maio de 1855 os navios de guerra anglo-franceses entraram no Estreito de Kersh  e destruíram a bateria costal da baía Kamishevaya. A 21 de Maio de 1855 as canhoeiras e os navios armados atacaram o porto de Taganrog. A vasta quantidade de alimentos, especialmente pão, trigo, cevada e centeio que foram acumuladas na cidade depois da irrupção da guerra foi impedida de ser exportada.
O governador de Tanganrog, Yegor Tolstoy e o tenente-general Ivan Krasnov recusaram o ultimato, responderam que «Os russos nunca entregam as suas cidades.» O esquadrão anglo francês bombardeou Taganrog por seis horas e meia e desembarcaram 300 tropas perto da Velha Escadaria na baixa da cidade de Taganrog, mas foram repelidos pelos cossacos de Don e por um corpo de voluntários.
Em Julho de 1855 o esquadrão aliado tentou ir até Rostov em Don, passando Tangarov, entrando no Rio Don através do rio Mius.
A 12 de Julho de 1855 o HMS Jasper ancorou perto de Taganrog. Os cossacos capturaram o navio com todo o seu armamento e explodiram-no. A terceira tentativa de cerco deu-se de 19 a 31 de Agosto de 1855, mas a cidade já se encontrava fortificada e o esquadrão não se conseguiu aproximar o suficiente de forma a manobrar as operações. A frota aliada deixou o golfo de Taganrog a 2 de Setembro de 1855, com operações militares menores ao longo da costa do Mar de Azov até ao final do outono de 1855.


Fim da Guerra

A insatisfação com a condução da guerra estava a crescer entre o público britânico e noutros países. No Sábado 21 de Janeiro de 1855, deu-se um motim Bola de Neve na Praça de Trafalgar, perto do Campo de S. Martinho, no qual 1.500 pessoas se juntaram em protesto contra a guerra, atirando com bolas de neve contra os autocarros, táxis e peões com bolas de neve. Quando a polícia interviu, as bolas de neve passaram a ser atiradas diretamente contra eles. O motim foi finalmente disperso pelas tropas e polícia com cacetetes. A insatisfação do público com a guerra aumentou com as notícias dos fiascos como a Carga da Brigada Ligeira na Batalha de Baclava, levando ao questionamento no Parlamento acerca da guerra. Na quinta-feira, 1 de fevereiro de 1855, Edward Law, conde de Ellenbrought, um membro Tory do parlamento, forçaram a Coligação Aberden a um recenseamento de todos os soldados, cavalaria e marinheiros que foram enviados para a Crimeia e determinaram o número de baixas que o exército britânico havia sofrido na Crimeia. De seguida, outros dois membros Tory MPs, o conde de March e Charles Philip Yorke, conde de Hardwicke, levantaram questões acerca da guerra e particularmente da Batalha de Baclava. Lord Aberdeen, um Peelite, estava à frente de um governo de Coligação (Whig-Peelite), com os Conservados Protecionistas em oposição. Os Peelites, que tecnicamente ainda eram conservadores, tinham estado do lado dos Whigs nas questões da liberdade religiosa e do mercado livre e especialmente na recusa das protecionistas Leis do Milho, cuja revogação tinha prejudicado os interesses tradicionais dos fundiários representados pelo partido Tory, mas com um beneficio dos sectores urbanos da manufaturação, comercial e financeiros.
Outra tentativa de questionar o envolvimento britânico na guerra deu-se a 29 de Janeiro de 1855, na foma de um projeto-lei da autoria do radical MP John Arthur Roebuck, pedindo uma investigação parlamentar relativa à condução da guerra.
O projeto passou no parlamento com 305 votos a favor e 148 contra. Aberdeen preferiu ver a votação neste projeto como «um voto de não-confiança» na Coligação governamental. Aberdeen apresentou a demissão como primeiro ministro a 30 de Janeiro de 1855, e depois dos lideres oficiais dos partidos Lord Derby e Lord John Russell terem recusado o pedido da Rainha Vitória de formar um novo governo, o veterano ministro dos negócios estrangeiros Lord Palmerston formou um governo Whig com o apoio do Irlandês MP. Roebuck veio a tornar-se o presidente do comité selecionado para conduzir a investigação.
As negociações de paz tiveram início em 1856 com Alexander II, filho e sucessor de Nicolau I, através do Congresso de Paris, que resultou na assinatura do Tratado de Paris a 30 de Março de 1856. No Tratado tanto o Czar como o Sultão concordaram em não estabelecer nenhuma frota ou equipamento militar na costa do Mar Negro. As clausulas do Mar Negro vieram a revelar-se uma grandes desvantagem para a Rússia, pois diminuiu muito a ameaça naval que impunha ao Império Otomano. Os protectorados russos da Moldávia e Valáquia adquiridos durante a guerra retornaram ao Império Otomano. Para além disso, todas as grandes potências comprometeram-se a respeitar a independência e integridade territorial do Império Otomano.



Fonte: wikipédia



Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...