03/12/2015

Faetonte


Faetonte era o filho de Apolo e da ninfa Clímene. Um dia um companheiro de escola riu-se da ideia de ele ser filho do deus. Faetonte, irado e envergonhado, foi falar com a mãe. "Se o meu nascimento é realmente celestial, dá-me, mãe, alguma prova disso e estabelece o meu direito a essa honra". Clímene, dirigindo as mãos ao céu, disse: "Chamo o Sol que olha sobre nós como testemunha de que o que te disse é verdade. Se falo falsamente que esta seja a última vez que vejo a sua luz. Mas não requer muito trabalho para que tu mesmo vás e inquiras da tua condição; a terra de onde o Sol se ergue fica junto à nossa. Vai e pergunta-lhe se ele te assume como filho." Faetonte ouviu deliciado. Viajou até à India, que fica diretamente nas regiões do sol nascente, e, cheio de esperança e orgulho, aproximou-se do ponto de onde o pai começa o seu curso.
O palácio do Sol erguia-se no alto sobre colunas, cintilante de ouro e pedras precisosas, os tetos formados de marfim polido e as portas de prata. A feitura ultrapassava o material, pois, sobre as paredes, Vulcano representara a terra, o mar e os céus com os seus habitantes. No mar havia ninfas, algumas divertindo-se nas ondas, outras cavalgando nas costas de peixes, outras ainda sentavam-se nas rochas e secavam os cabelos verde-mar. As faces não eram iguais nem desiguais, mas como devem ser as faces de irmãs. A terra tinha as suas cidades e florestas, rios e divindades rústicas. Sobre tudo isto desenhava-se a imagem do céu glorioso e nas portas de prata os doze signos do zodíaco, seis de cada lado.

O filho de clímene avançou pelo íngreme caminho ascendente e entrou nas salas do seu disputado pai. Aproximou-se da presença paternal mas parou a uma certa distância, pois a luz era mais do que ele podia suportar. Febo, adornado em vestes púrpuras, sentava-se num trono resplandescente como diamante. À sua direita e à sua esquerda estavam o Dia, o Mês e o Ano e, a intervalos regulares, as Horas. A Primavera apresentava-se com a cabeça  coberta de flores; o Verão com a roupa posta de lado e uma grinalda de espigas de grão maduro; o Outono com os pés manchados de sumo de uva; o Inverno gelado com os cabelos enrijecidos pela geada branca. Rodeado deste séquito, o Sol, com os olhos que tudo vêem, olhou o jovem deslumbrado com a novidade e o esplendor da cena e inquiriu do propósito daquela missão. O jovem retorquiu: "Ó luz do mundo sem limites, Febo, meu pai - se me permites usar esse nome -, dá-me alguma prova, peço-te, pela qual eu possa ser conhecido como teu." Parou e o pai, pondo de lado os raios que brilhavam a toda a voltada cabeça, pediu-lhe que se aproximasse e, abraçando-o, disse: "Meu filho, não mereces ser repudiado, eu confirmo o que a tua mãe te disse. Para pôr um fim às tuas dúvidas, pede o que quiseres e o dom será teu. Chamo como testemunha aquele terrível lago que nunca vi mas sobre o qual nós deuses juramos nos mais solenes compromissos." Faetonte de imediato pediu que lhe fosse permitido conduzir por um dia o carro do sol. O pai arrependeu-se da sua promessa; três ou quatro vezes abanou a radiante cabeça em aviso. "Falei precipitadamente", disse ele, "este é o único pedido que preferia negar. Peço-te que o retires. Não é um dom seguro, nem um, meu Faetonte, adequado à tua juventude e força. A tua condição é de mortal e pedes o que está para além do poder de um mortal. Na tua ignorância aspiras fazer aquilo que nem os deuses eles mesmos podem fazer. Ninguém senão eu pode guiar o flamejante carro do dia. Nem mesmo Júpiter, cujo terrível braço direito arremessa os raios. A primeira parte do caminho é íngreme a tal ponto que os cavalos, mesmo frescos pela manhã, mal a conseguem subri; a parte média é no alto dos céus, de onde eu mesmo mal posso olhar, sem me afligir, a extensão de terra  e de mar por baixo de mim. A última parte da estrada desce rapidamente e requer a condução mais cuidadosa. Tétis, que aguarda para me receber, muitas vezes treme com medo de que eu me precipite no abismo. Junte-se a isto o facto de o céu girar todo o tempo levando as estrelas consigo. Tenho de me manter permanentemente vigilante não vá aquele movimento, que varre tudo o resto com ele, arrastar-me também para fora do meu caminho. Supondo que eu te emprestava o carro, que farias tu? Serias capaz de manter o teu curso enquanto a esfera girava à tua volta? Talvez penses que há florestas e cidades, as moradas dos deuses, palácios e templos no caminho. Pelo contrário, o caminho é através de monstros assustadores. Tens de passar pelos cornos do Touro, em frente do Arqueiro, junto à boca do Leão e onde o Escorpião estende os seus braços numa direção e o Caranguejo noutra. Nem será fácil guiares aqueles cavalos com os peitos cheios de fogo que expiram pelas narinas e pela boca. 
Eu próprio mal os consigo governar, quando são rebeldes e resistem às rédeas. Tem cuidado, meu filho, não vá eu conceder um dom fatal; revoga o teu pedido enquanto é tempo. Pedes-me uma prova em como vieste do meu sangue? Dou-te uma prova nos meus receios por ti. Olha para a minha face - quem me dera pudesses olhar no meu coração, verias aí toda a ansiedade de um pai. Por fim", continuou ele, "olha o mundo à tua volta e escolhe seja o que for que a terra ou o mar contenham de mais precioso - pede-o e não temas uma recusa. Só isto te rogo não mo peças. Não é a honra mas a destruição que procuras. Porque te penduras no meu pescoço e ainda me instigas? Tê-lo-ás se persistires - o juramento foi feito e deverá ser mantido - mas peço-te que escolhas mais sensatamente."
Terminou; o jovem porém rejeitou todas as admoestações e manteve o seu pedido. Assim, tendo resistido tanto quando podia, Febo por fim conduziu-o até onde estava o alto carro.
Era de ouro, um dom de Vulcano; de ouro o eixo, a lança e as rodas, os raios de prata. Ao longo do assento, filas de crisólitos e diamantes que refletiam a toda a volta o esplendor do Sol. Enquanto o ousado jovem olhava deslumbrado, a recente Aurora abria de par em par as arroxeadas portas do oriente e mostrava um caminho coberto de rosas. As estrelas retiraram-se às ordens da Estrela da Manhã, que por fim também se retirou. O pai, ao ver o começo do rubor na terra e a Lua a preparar-se para se retirar, ordenou às Horas que aparelhassem os cavalos. Obedecendo, guiaram os cavalos dos altos estábulos, saciados de ambrósia, e colocaram as rédeas. Então o pai banhou a face do filho com um poderoso unguento e tornou-o capaz de suportar o brilho da chama. Colocou os raios na sua cabeça e, com um suspiro premonitório, disse: "Se, meu filho, escutares ao menos nisto o meu conselho, poupa o chicote e segura bem firme as rédeas. Os cavalos vão suficientemente depressa por eles mesmos; o trabalho consiste em segurá-los. Não deves tomar o caminho recto diretamente entre os cinco círculos mas vira à esquerda. Mantém-te nos limites da zona média, evitando tanto o norte quanto o sul. Verás as marcas das rodas e elas servir-te-ao de guia. E, de modo a que a terra e os céus recebam o que lhes é devido de calor, não vás demasiado baixo ou lançarás fogo à terra; o caminho do meio é o melhor e o mais seguro. Agora deixo-te com a tua sorte, que eu espero providencie melhor para ti do que tu mesmo o fizeste. A noite sai pelos portões do oeste e não nos podemos demorar mais. Toma as rédeas, se por fim te faltar a coragem, beneficia do meu conselho, fica onde estás em segurança e aceita que eu alumie e aqueça a terra". O ágil jovem saltou para o carro, erecto agarrou as rédeas com prazer, derramando gratidão sobre o relutante pai.
Entretanto s cavalos enchem o ar com relinchos e respirações fogosas e batem os cascos impacientemente. As traves são retiradas e a planície ilimitada do universo estende-se aberta diante deles. Irrompem em frente, perfuram as nuvens que se lhes opõem e ultrapassam as brisas matinais que sopram do mesmo ponto do oriente. Os corcéis cedo se apercebem que a carga que transportam é mais leve do que a habitual; e como um navio sem lastro é atirado de um lado para o outro no mar, assim o carro, privado do seu peso, é arremessado impetuosamente como se vazio. Precipitam-se em frente e abandonam a estrada percorrida. Faetonte alarmado não sabe como, nem, se o soubesse, tinha poder para o fazer. Então, pela primeira vez, as duas Ursas foram queimadas pelo calor e teriam preferido, se fosse possível, mergulhar nas águas; a Serpente que se enrola à volta do Pólo Norte, tórpida e inofensiva, aqueceu-se e com o calor sentiu reviver a sua ira. O Boeiro, dizem, fugiu, apesar de embaraçado pelo arado e de não habituado ao movimento rápido.
Quando o infeliz Faetonte olhou para baixo e viu a terra espalhada na sua vasta extensão, empalideceu e os joelhos tremeram de terror. Apesar do brilho à volta dele a vista ficou nublada. Desejou que nunca tivesse tocado nos cavalos do seu pai, nunca tivesse sabido da sua ascendência, nunca tivesse prevalecido na sua petição. É levado como uma nave que foge diante de uma tempestade, quando o piloto nada mais pode fazer do que recorrer às suas orações. Que poderá ele fazer? Muito do caminho celestial foi deixado para trás, mas muito mais está ainda por vir. Volta o olhar em todas as direções, ora para o ponto donde partiu, para para as regiões do sol poente que não está destinado a atingir. Perde o autodomínio e não sabe o que fazer - se dar rédea curta aos cavalos ou se os deixar à rédea solta; esquece mesmo os seus nomes. Vê com terror as formas monstruosas espalhadas sobre a superfície do céu. Aqui o Escorpião estende os seus dois grandes braços, a cauda curva, as pinças estiradas sobre dois signos do zodíaco. Quando o rapaz o viu, no seu odor fétido de veneno, ameaçando com as suas garras, a coragem faltou-lhe e as rédeas cairam-lhe das mãos. Os cavalos, ao sentirem-nas soltas nas costas, atiraram-se em frente sem restrição, ora lançando o carro por zonas sem caminhos em direção a regiões desconhecidas do alto céu, entre as estrelas, ora descendo quase à terra. A lua viu com espanto o carro do seu irmão percorrer abaixo dela. As nuvens começam a fumegar e os cumes das montanhas incendeiam-se; os campos estão ressequidos com calor, as plantas murcham, as folhas e os ramos das árvores queimam-se, a colheita inflama-se. As montanhas vestidas de floresta ardem, Atos, e Tauros, e Tmolo e Oeta; Ida, antes célebre pelas fontes, agora todo seco; a montanha das musas, Helicona, e Hemo; Etna com fogo por dentro e por fora, o Parnaso, com os seus dois picos, e Ródope forçado enfim a separar-se da sua coroa nevada. O clima frio não serviu de proteção à Cítia, o Cáucaso a arder, o Ossa e o Pindo e, maior que ambos, o Olimpo; os Alpes lá no ar e os Apeninos coroados de nuvem.
Faetonte viu então o mundo em fogo e sentiu o calor insuportável. O ar que respirava era como o ar de uma fornalha cheio de cinzas quentes e o fumo escuro como breu. Lançou-se em frente sem saber para onde. Acredita-se que o povo da Etiópia ficou então negro pelo sangue ter sido tão subitamente forçado a vir à superfície, e o deserto da Líbia secou e assim permaneceu até aos nossos dias. As ninfas das fontes, com os cabelos desgrenhados, choraram as suas águas e nem os rios estavam seguros por baixo das margens. Tánais fumegava, assim como o Caíque, o Xanto e o Meandro, o babilónico Eufrates e o Ganges, o Tejo de areias douradas e o Caístro aonde acorrem os cisnes. O Nilo fugiu e escondeu a cabeça no deserto, onde ainda se mantém escondida. As sete bocas por onde as suas águas entravam no mar eram agora sete canais secos. A terra abriu fendas e através das rachas a luz penetrou no Tártaro e assustou o rei das sombras e a sua rainha. O mar encolheu. Onde antes era água havia agora uma planície seca. As montanhas que ficam no fundo do mar levantaram a cabeça e tornaram-se ilhas. Os peixes procuraram as zonas mais profundas e os golfinhos não mais se atreveram a vir brincar à superfície. Mesmo Nereu e a sua filha Dóris, com as Nereides suas filhas, procuraram as cavernas mais profundas como refúgio. Três vezes tentou Neptuno levantar a sua cabeça acima da superfície, três vezes foi repelido pelo calor. A Terra, rodeada como estava pelas águas, mas com a cabeça e os ombros nus, protegendo a face com a mão, olhou para o céu e com voz rouca chamou Júpiter.
"Ó senhor dos deuses, se eu mereço este tratamento e se é tua vontade que eu pereça pelo fogo, porque retens os teus raios? Possa eu ao menos cair pelas tuas mãos. É esta a recompensa da minha fertilidade, do meu serviço obediente? Foi para isto que eu proporcionei erva para o gado, frutos para os homens e incenso para os altares? Mas se eu sou indigna de consideração, que fez o meu irmão Oceano para merecer tal destino? Se nenhum de nós pode despertar a tua compaixão, pensa, peço-te, no teu próprio céu, vê como fumegam os dois pólos que sustêm o teu palácio que cairá se eles forem destruídos. Atlas desfalece e mal sustém a sua carga. Se o mar, a terra e o céu perecerem cairemos no antigo Caos. Salva da chama devoradora o que ainda resta de nós. Pensa na nossa libertação neste momento de horror."
Assim falou a Terra e dominada pelo calor e pela sede mais não pôde dizer. Júpiter omnipotente, chamando como testemunhas todos os deuses, incluindo aquele que tinha emprestado o carro, e mostrando-lhe como tudo estava perdido a não ser que algum remédio fosse de imediato aplicado, subiu à torre alta de onde difunde as nuvens sobre a terra e arremessa os raios bifurcados. Mas nessa altura não se encontrava nenhuma nuvem que se pudesse interpor sobre a terra, nem nenhum chuveiro que não estivesse exausto. Ele trovejou e brandindo um raio relâmpago na sua mão direita lançou-o contra o condutor, atingindo-o no seu posto e apagando-o da existência! Faetonte, com o cabelo em fogo, caiu de cabeça como estrela cadente que marca os céus com o seu brilho e Erídano, o grande rio, recebeu-o e refrescou o corpo incandescente.
As Náiades italianas ergueram-lhe um túmulo e nele inscreveram estas palavras:
Aqui jaz o nobre Faetonte
Que o trovão de Júpiter fulminou
Se o carro de Febo não pode dominar,
Grandiosa foi porém a sua aparição.
As suas irmãs, as Helíades, ao lamentarem o seu destino, foram transformadas em choupos nas margens do rio e as suas lágrimas, que continuaram a correr, tornaram-se ambar ao caírem na corrente.

Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...