01/12/2015

Erínias

Na mitologia grega, as Erínias (Fúrias ou Dirae, para os romanos), eram as divindades ctónicas para a vingança, semelhantes a Némesis. Enquanto Némesis (deusa da vingança) punia os deuses, as Erínias puniam os mortais. Eram muitas vezes referidas como as "deusas infernais". O juramento encantatório na Ilíada, invoca-as como "aquelas que debaixo da terra punem qualquer um que tenha feito um juramento falso". Burkert sugere que são "uma forma de realização do ato de auto-maldição, contido no voto".
No entanto, uma vez que o castigo final dos crimes é um poder que não corresponde aos homens (por mais horríveis que sejam), estas três irmãs encarregavam-se do castigo dos criminosos, perseguindo-os incansavelmente até mesmo no mundo dos mortos, pois o seu campo de acção não tem limites. As Erínias são convocadas pela maldição lançada por alguém que clama vingança. São deusas justas, porém implacáveis, e não se deixam abrandar por sacrifícios nem suplícios de nenhum tipo. Não levam em conta atenuantes e castigam toda ofensa contra a sociedade e a natureza, como por exemplo, o perjúrio, a violação dos rituais de hospitalidade e, sobretudo, os assassinatos e crimes contra a família.
Alguns autores, defendem que as Erínias são as Fúrias no inferno, Harpias na terra e Dirae no céu.
De acordo com a Teogonia de Hesíodo, quando o Titã Cronos castrou o pai, Urano, e atirou os genitais deste para o mar, as Erínias, assim como as Meliae, surgiram do sangue caído na terra (Gaia) e Afrodite das cristas da espuma do mar. Várias fontes, como Ésquilo, dizem que as Erínias terão uma fonte ainda mais primordial - a partir de Nix ("Noite"), ou a partir da união entre o ar e a mãe terra. Assim como Ésquilo, Virgílio, trabalhando a partir, provavelmente, de uma fonte Alexandriana, reconheceu três: Tisífone (Castigo), Megera (Rancor) e Alecto (Inominável).


As Erínias, deusas encarregadas de castigar os crimes, principalmente os de sangue, são também chamadas de Eumenides (Εὐμενίδες), que em grego significa as bondosas ou as Benevolentes, eufemismo usado para evitar pronunciar o seu verdadeiro nome, por medo de atrair sobre si a cólera destas divindades.
Em Atenas, usava-se como eufemismo a expressão Semnai Theai (σεμναὶ θεαί), ou deusas veneradas.
Embora se suponha serem muitas, mas na peça de Ésquilo, são apenas três, encarregadas da vingança e que habitam, segundo as versões, o Érebo ou o Tártaro, o inframundo, onde descansavam até que sejam reclamadas na terra ou torturavam as almas julgadas por Hades e Perséfone.
  • Alecto, (Ἀληκτώ, a implacável), eternamente encolerizada. Encarrega-se de castigar os delitos morais como a ira, a cólera, a soberba, etc. Tem um papel muito semelhante ao da Deusa Némesis, com diferença de que esta se ocupa do referente aos deuses, enquanto que Alecto tem uma dimensão mais "terrena". Alecto é a Erínia que espalha pestes e maldições. Seguia o infractor sem parar, ameaçando-o com fachos acesos, não o deixando dormir em paz.
  • Megaira, que personifica o rancor, a inveja, a cobiça e o ciúme. Castiga principalmente os delitos contra o matrimónio, em especial a infidelidade. É a Erínia que persegue com a maior persistência, fazendo a vítima fugir eternamente.Terceira das fúrias de Ésquilo, grita ininterruptamente nos ouvidos do criminoso, lembrando-lhe das faltas que cometera.
  • Tisífone, a vingadora dos assassinatos (patricídio, fratricídio, homicídio…). É a Erínia que açoita os culpados e enlouquece-os.

As Erínias, como divindades ctónicas, estão presentes desde as origens do mundo, e apesar de terem poder sobre os deuses, e não estando submetidas à autoridade de Zeus, vivem às margens do Olimpo, graças à rejeição natural que os deuses sentem por elas (e é com pesar que as toleram, pois devem fazê-lo). Por outro lado, os homens têm-lhe pânico, e fogem delas. Esta marginalidade e a sua necessidade de reconhecimento são o que faz com que, segundo Ésquilo, as Erínias acabem por aceitar o veredicto de Atena, passando mesmo por cima da sua inesgotável sede de vingança.
Eram forças primitivas da natureza que actuavam como vingadoras do crime, reclamando com insistência o sangue parental derramado, só se satisfazendo com a morte violenta do homicida.
As Erínias são representadas normalmente como mulheres aladas de aspecto terrível, com olhos que escorrem sangue no lugar de lágrimas e madeixas trançadas de serpentes, estando muitas vezes acompanhadas por muitos destes animais. Aparecem sempre empunhando chicotes e tochas acesas, correndo atrás dos infratores dos preceitos morais.
Na Antiguidade, sacrificavam-lhes carneiros negros, assim como libações de nephalia (νηφάλια), ou hidromel.
Existe na Arcádia um lugar em que se atopam dois santuários consagrados às Erínias. Num deles, onde recebem o nome de Maniai (Μανίαι, as que arrastam todos). Neste lugar, segundo a lenda relatada por Ésquilo na sua tragédia As Eumênides, perseguem a Orestes pela primeira vez, vestidas de negro. Perto dali, e segundo conta Pausânias, apontava-se outro santuário onde o seu culto associava-se ao das Graças, deusas do perdão. Neste santuário purificaram a Orestes, vestidas completamente de branco. Orestes, uma vez curado e perdoado, aplicou um sacrifício expiatório às Maniai.



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«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...