03/12/2015

Eco e Narciso


«Eco era uma bela ninfa, amante de bosques e colinas, onde se dedicava aos desportos da floresta. Era uma favorita de Diana e seguia-a na caça. Mas Eco tinha um defeito; adorava falar e em tagarelice ou argumentação tinha sempre a última palavra. Um dia em que Juno procurava o marido, receosa de que este se divertisse entre as ninfas, Eco conseguiu pela sua conversa deter a deusa até que as ninfas escapassem. Quando Juno o descobriu, sentenciou Eco com as seguintes palavras: "Perderás o uso dessa língua com que me enganaste, excepto para o uso de que tanto gostas - retorquir. Ainda terás a última palavra, mas nenhum poder para falar em primeiro lugar.»
Esta ninfa viu Narciso, um belíssimo jovem, quando perseguia a caça na montanha. Amou-o e seguiu-lhe os passos. Oh! Como ela desejou dirigir-se-lhe com palavras suaves, obtê-lo para conversar! Mas não estava no seu poder. Esperou impacientemente que ele falasse primeiro, com a resposta pronta. Um dia o jovem, tendo-se separado dos companheiros, gritou alto: «Quem está aqui?». Eco respondeu "Aqui." Narciso olhou à sua volta mas não vendo ninguém chamou: "Vem." Eco respondeu: "Vem." Como ninguém vinha, Narciso chamou de novo: "Porque me evitas?" Eco fez a mesma pergunta. Juntemo-nos os dois, disse o jovem. Com todo o coração a donzela respondeu com as mesmas palavras e apressou-se para o lugar, pronta a lançar os braços os braços à volta do pescoço dele. Dando um pulo atrás, exclamou: "Tira as mãos! Preferia morrer a que me possuísses!" "Me possuísses", disse ela, mas foi tudo em vão. Ele abandonou-a e ela foi esconder a sua vergonha nos confins da floresta. Desde então tem vivido em grutas  e penhascos de montanhas. A sua forma definhou com a dor até que toda a carne desapareceu. Os ossos transformaram-se em rochas, nada restou dela para além da sua voz. Com esta, ainda está pronta para responder a qualquer um que a chame e mantém o velho hábito de dizer a última palavra.
A crueldade de Narciso neste caso não foi exemplo único. Evitava todas as outras ninfas como o tinha feito com a pobre Eco. Um dia uma rapariga, que sem efeito o tinha tentado atrair, proferiu o voto de que alguma vez ele pudesse sentir o que era amar sem ser retribuído. A deusa vingativa ouviu e concedeu o desejo.
Havia uma fonte muito clara de água prateada, para onde os pastores nunca levavam os seus rebanhos, nunca frequentada pelas cabras dos montes nem por nenhuma besta da floresta. Nenhumas folhas caídas ou ramos a desfiguravam, a erva crescia fresca à sua volta e as rochas abrigavam-na do sol. Aí chegou um dia o jovem fatigado da caça, quente e sequioso. Abaixou-se para beber e viu a sua imagem reflectida na água; pensou tratar-se de algum belo espírito das águas vivendo na fonte. Olhou com admiração aqueles olhos brilhantes, aqueles caracóis enrolados como os de Baco ou de Apolo, as maças do rosto arredondadas, o pescoço de marfim, os lábios apartados e o brilho de vigor e exercício em todo o corpo. Apaixonou-se de si mesmo. Aproximou os lábios para o beijar, mergulhou os braços para abraçar o objecto amado. Fugiu ao ser tocado mas regressou pouco depois e renovou o fascínio. Narciso não se conseguia separar dele; esqueceu o alimento e o descanso, pairando nas bordas da fonte fixado na sua própria imagem. Falou com o suposto espírito: "Porque me evitas, belo jovem? Certamente que a minha face não é tal que te repele. as ninfas amam-me e tu mesmo não me olhas com indiferença. Quando estendo os meus braços fazes o mesmo; sorris-me e acenas-me quando te aceno." As lágrimas caíam na água e perturbavam a imagem. Ao vê-la partir, exclamou: "Fica, peço-te! Deixa que ao menos te olhe já que te não posso tocar." Com propósitos deste tipo alimentava a chama que o consumia até que por fim perdeu a cor, o vigor e a beleza que antes tanto tinham encantado a ninfa Eco. Ela manteve-se, contudo, perto dele e quando ele gritava - "Ai de mim! Ai de mim!" - ele respondia-lhe com as mesmas palavras. definhou e morreu e quando a sua sombra passou o Estige, debruçou-se sobre o barco para obter uma imagem de si mesmo nas águas. As ninfas choraram-no, sobretudo as das águas, e quando bateram o peito Eco também bateu o dela. Prepararam uma pira funerária e teriam queimado o corpo mas em nenhum lugar o encontraram; em seu lugar uma flor, púrpura por dentro e rodeada de folhas brancas, preserva a memória de Narciso.»

A Idade da Fábula, Thomas Bulfinch, Editora Vega, 1ª edição 1999

Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...