02/12/2015

Deméter

«Esta manhã, bem no coração do Olimpo, ouvem-se os soluços de uma mãe: é a deusa Deméter que chora o seu filho, e não há dor mais profunda... Já há muito tempo que a infelicidades abateu sobre esta generosa divindade, que transmitiu aos homens a arte de cultivar a terra, de fertilizar o solo para que as colheitas sejam mais abundantes e que os ensinou a fazer o pão de que se alimentam todos os dias...
Filha de Cronos e de Reia, a bela Deméter, ainda muito jovem, foi seduzida por Zeus, seu irmão; desse amor nasceu Coré, a sua filha bem amada. Mas tanta felicidade durou pouco tempo... Outro dos irmãos de Deméter, Poseidon, o fogoso senhor dos mares, tal como Zeus capaz de fazer tremer a Terra, ardia de desejo por ela. Um dia, quando a deusa se encontrava na Arcádia, Poseidon tentou violá-la; para conseguir fugir, Deméter metamorfoseou-se num jumento, mas imediatamente o seu assaltante tomou a forma de um cavalo. O garanhão conseguiu os seus intentos. Desta união nasceu o poldro selvagem Oríon.
Desesperada e envergonhada, Deméter resolveu então retirar-se para longe das tribulações do Olimpo e decidiu instalar-se no fundo de uma gruta isolada. O seu exílio teve imediatamente consequências terríveis: os solos tornaram-se estéreis, as colheitas insuficientes, as plantas deixaram de crescer e a fome começou a assolar a Humanidade. E ninguém sabia onde se escondia a deusa... No entanto, um dia, durante uma caçada, o deus Pã descobriu onde ela habitava. Partiu de imediato a avisar Zeus, que enviou as Moiras, três deusas encarregadas de velar pelos destinos dos homens, a fim de convencer Deméter a retornar as suas funções.
Ora, a deusa, apesar de ter abandonado a Terra, jamais, do fundo do seu refúgio, deixara de velar pela sua filha. No entanto, Deméter ignorava que o último dos seus irmãos - o mais feio e o mais repelente - cobiçava a sua filha: Hades, o deus dos Infernos, do império dos mortos, queria desposá-la, tão tocado ficara pela sua beleza luminosa. Já há muito tempo que espiava a jovem, olhando-a de forma concupiscente na raras ocasiões em que ela se deixava ver.

Um belo dia, Deméter autorizou Coré a descer à Terra, pois a filha suplicara-lhe que a deixasse passear com Ciana, a sua mais fiel amiga. Maravilhada com os narcisos que atapetavam as encostas de uma colina, Coré e Ciana puseram-se a colher alguns para fazer coroas de flores, enquanto à sua volta voavam cigarras e libelinhas... Escondido atrás de uma velha oliveira, Hades seguia com atenção todos os gestos de Coré... Subitamente, Ciana avistou uma magnifica borboleta e correu para apanhá-la, deixando a amiga sozinha...
A ocasião era boa demais para ser desperdiçada: obedecendo apenas ao seu instinto, o deus lançou-se ao objeto dos seus desejos e, apoderou-se dela, levou-a, no seu carro puxado por corcéis de tom azul-escuro, para o seu reino, o inacessível domínio da morte, da noite e do frio...
Ao saber do rapto da filha - embora ignorasse quem era o raptor -, Deméter  foi tomada por uma dor sem igual. Escutando apenas o seu coração de mãe, lançou-se a percorrer a Terra em todos os sentidos, de dia e de noite, procurando, questionando, mas sempre em vão. Implorou a ajuda do grande Zeus, sem qualquer êxito. Voltou-se para Hélios, o Sol, que não a elucidou.
Totalmente devotada à sua missão, esqueceu-se das ceifas e, uma vez mais, a terra tornou-se estéril. Reinava a desolação por todo o lado, nunca se tinha visto semelhante desgraça!
No seu reino dos Infernos, Hades decidiu que aquela que raptara devia mudar de nome: uma vez que se tinha tornado sua esposa, já não poderia chamar-se Coré, a Jovem. Dali em diante, todos a chamariam Perséfone. Curiosamente, a bela jovem não parecia lamentar a sua sorte. É certo que Hades não era muito sedutor, mas tinha feito dela uma rainha e tratava-a com consideração. Portanto, ela tolerava o seu amor e, a pouco e pouco, habituara-se àquele estranho império que tanto assustava os homens. Ali iam e vinham sombras descarnadas e miseráveis, ali se encontravam todos aqueles que a Morte tinha ceifado. Ali, Hades impusera uma nova regra, que ninguém podia infringir: Perséfone nunca poderia ter conhecimento do desgosto da sua mãe, que percorria o Mundo sem descanso.
Aqui e ali, sobre a Terra, ara grande aflição dos homens, viam-na a passar para cá e para lá, gritando e chorando, presa do mais profundo desespero. Um dia, umas ninfas compadecidas decidiram-lhe revelar-lhe quem fora o autor do rapto, a que tinham assistido escondidas. Ao ouvir o nome de Hades, a dor de Deméter tornou-se ainda mais intensa... Sem esperar, voltou a procurar Zeus, implorando-lhe uma vez mais o seu auxílio. Não era Zeus todo-poderoso? Não se sentia compadecido com tal drama? A sua própria filha partilhava o leito do deus dos Infernos... E a Terra definhava, impedindo que os homens homenageassem os deuses com as suas generosas oferendas.
Comovido com a dor da irmã e a miséria dos homens, Zeus decidiu intervir. No entanto, tratava-se de uma escolha impossível... O amor maternal de Deméter? O amor conjugal de Hades? E Perséfone, o que desejava ela? Do fundo dos Infernos ao alto do Olimpo, e também na Terra, todos aguardavam a decisão do grande deus, que era conhecido ela sua sabedoria e sentido de justiça...
Consciente de que a produção da terra não podia depender apenas do humor dos deuses, convencido da legitimidade dos pedidos de Deméter e de Hades, Zeus decidiu então o seguinte: Perséfone viveria tanto junto da sua mãe como junto do seu esposo. Todos os anos o tempo dos homens e da Natureza seria dividida em dois grandes períodos. Durante o primeiro, Deméter ficaria só, enquanto Perséfone residiria nos Infernos: a vegetação descansaria e as sementes dormiriam no solo. No segundo período, quando mãe e filha se encontravam no Olimpo, as plantas desabrochariam e as árvores dariam fruto. E para que tudo isso fosse menos custoso para os homens, o deus anunciou que o inverno e o verão seriam precedidos por duas estações de transição: a primavera e o Outono, tempos de espera, de esperança e de doçura. Desde então, todos os anos, cumprindo a vontade de Zeus, a roda do Tempo renova a vida: ao frio sucede o calor, depois da sombra vem a luz.»

Fabulosos Mitos e Lendas de Todo o Mundo, Selecções Reader's Digest, 2010


   

Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...