07/12/2015

Cristianismo

Parte I
Uma nova religião
O aparecimento do cristianismo está diretamente relacionado com a ocupação de Israel pelo Império Romano e pelo que as populações viviam na altura, fosse pelo descontentamento religioso ou civil.
Herodes I ou Herodes, o Grande, nasceu cerca de 73 a.C e morreu, ou a 4 a.C ou 1 a.C. Foi um judeu romano edomita, que governou Israel entre 37 a.C. a  4 a.C. Este governante, conhecido como um louco que matara a família e vários rabinos, com ideias megalómanas, tinha pouco apoio entre povo. Para o que também contribuía o facto de o próprio e a família só se terem convertido ao judaísmo pouco tempo antes.
Herodes e a sua família protegeram a fé judaica sob uma condição: que não houvesse críticas ao Império Romano.
Durante a vida de Jesus haviam duas secções religiosas judaicas que se destacavam:
  • Os Saduceus: geralmente as classes mais altas estavam entre esta facção. Tinham uma grande influência política e o Sumo Sacerdote foi escolhido vários vezes dentro deste grupo. Quando o segundo Templo foi destruído, em 70 d.C., os Saduceus perderam grande parte do seu culto e poder económico. O culto desta facção baseava-se completamente no Pentateuco (cinco primeiros livros da Bíblia) e ao contrário dos Fariseus, não tinham continuado uma tradição oral.
  • Fariseus: Provenientes das classes mais baixas. Consideravam-se os verdadeiros judeus e aplicavam as leis canónicas judaicas no seu dia a dia. Concentravam-se em interpretar as escrituras, viviam de forma muito rigorosa e só aceitavam parte da liderança religiosa dos Saduceus. Os Saduceus exigiam uma separação da Religião e do Estado. Adicionalmente, este grupo sentia que tinha duas missões: a de seguir as leis de Deus o mais fielmente possível e a de espalhar a sua crença do Fim do Mundo e do Juízo Final. Ao mesmo tempo, aguardavam a chegada do Messias, um rei que haveria de libertar Israel do Império Romano.
O Jesus histórico nasceu há cerca de 2.000 anos, com o nome de Joshua Ben Josef. Viajou pelo deserto da Judeia como pregador itinerante. Hoje em dia há poucos factos históricos seguros acerca da vida de Jesus. Na altura só se escrevia acerca de reis ou políticos importantes. Jesus era filho de José, um carpinteiro na Nazaré, uma pequena povoação na Galileia com 200 a 300 habitantes. O nome da mãe era Maria e de acordo com os livros era "virgem" (atualmente, este termo é visto como um símbolo com o objetivo  de exaltar o filho de Deus, do que um fato físico). A data de nascimento de Jesus pode ser datada em cerca de 4 a.C, pois coincide com o reinado de Herodes.
Estes eram tempos economicamente difíceis, em que muitas pessoas temiam pela sua liberdade, devido às dividas (aqueles que não conseguiam pagar as dividas ficavam em risco de se tornarem escravo).
Os quatro Livros (os quatro primeiros Livros do Novo Testamento), contêm a maior parte da informação acerca de Jesus, que chegou até à atualidade. No entanto, são escritos mais de fé do que documentos históricos - relatam a vida e os ensinamentos de Cristo de acordo com a visão pessoal das pessoas que os escreveram. É por isto que devem ser lidos no contexto histórico do Judaísmo do primeiro século. No entanto, podem ser obtidas algumas informações:
  • Jesus é filho de pais judeus, devendo falar o aramaico e nasceu no ano em que Herodes morreu. A sua vila, Nazaré, não tinha qualquer importância política. Jesus foi o primogénito e teve vários irmãos e irmãs.
Pensa-se que Jesus aprendeu a profissão do pai, a carpintaria. Certamente sabia as escrituras judaicas e as exigências dos fariseus.
Durante aquele tempo muitos pregadores viajavam por aquelas terras, fazendo milagres e alimentando a crença do povo na vinda de um Messias - um rei da casa de David que traria tempos melhores e que livraria os judeus da subjugação romana. Jesus, também ele, acreditou na vinda do Reino de Deus. Foi baptizado no rio Jordão pelo pregador itinerante João (um ritual que se acreditava que asseguraria a sobrevivência aquando da chegada do Reino de Deus). Aparentemente, Jesus tornou-se um seguidor de João.
Quando tinha cerca de 30 anos, começou ele mesmo a ensinar, depois de João, que havia chamado a atenção e fora morto.
Os ensinamentos deste novo pregador espalharam-se rapidamente, em parte porque eram diretamente contra os ocupadores romanos e prometiam uma nova esperança para o povo.
Jesus orientou os seus ensinamentos de acordo com o Judaísmo contemporâneo e confirmou que Deus havia falado através de Moisés no Pentateuco, nos primeiros cinco livros da Bíblia. Mas os seus ensinamentos foram mais longe. Jesus apareceu publicamente na área do Lago da Galileia e o seus seguidores cresceram em número.
Contrariamente aos Fariseus, que seguiam as leis de Moisés minuciosamente, Jesus enfatizou a autonomia do pensamento e interpretação das escrituras. Tentou anular a inimaginável obediência à lei hebraica. Percebeu que Deus e a lei judaica estavam sob o perigo de submergirem perante um codex que continha 600 decretos. Então, começou a reinterpretá-lo, em parte para quebrar com a lei, como exemplifica a sua declaração «o Sabat foi feito para o homem, não o homem para o Sabat» Marcos 2:27
Este novo pregador espalhava a imagem de Deus como um Deus que não media os homens pelo seu estatuto, mas pela forma como o homem trata o seu próximo. O mandamento para amar o inimigo é uma das mensagens centrais do Sermão da Montanha. Tinha como objetivo acabar com a persistente, e mesmo cíclica, violência, mas não foi completamente entendida ou seguido por todos.
As pessoas estavam fascinadas pelos ensinamentos deste pregador itinerante, mas ao mesmo tempo viam as suas ideias com criticismo.
Jesus espalhou ideias revolucionárias, ensinando o amor como mandamento. Para ele todos eram iguais desde o rei ao escravo. Mas essa visão do mundo era contrária à sociedade dominante romana, com grandes diferenças entre as classes e apoiada, grandemente, na escravatura. A igualdade defendida por Jesus era um conceito revolucionário que ameaçavam virar ao contrário a ordem estabelecida. Dificilmente se esperava que um mandamento como «Ama o teu próximo como a ti» fosse seguido por um governante que explorava determinadas classes sociais.
Isto tornou-se mais claro no Sermão da Montanha, em que Jesus passou a mensagem da igualdade perante Deus.
Os pobres e os doentes, os pedintes e todos aqueles que pertenciam às classes sociais mais baixas, viram no Reino de Deus, de que Jesus falava, um futuro melhor.
O povo estava ansioso por se ver livre da ocupação romana e dos impostos que estes impunham. Foi então, que muitos acreditaram ver em Jesus, o Messias que há tanto aguardavam, o profetizado filho da Casa de David que os havia de libertar da opressão, pois Deus havia prometido ao Rei David que o governo de Israel havia de ficar para os seus descendentes.
Com este desenvolvimento e com os passos seguintes era quase impossível não ter acontecido o que aconteceu de seguida, a crucificação de Jesus.
Jesus selou o seu destino quando, provavelmente na idade de trinta anos, decidiu ir a Jerusalém para a celebração da Páscoa. A cidade estava cheia de peregrinos para o festival, dando-lhe a oportunidade de falar para uma grande audiência. Mas os romanos rapidamente tiveram conhecimento do agitador da Galileia e seguiu-se a prisão de Jesus (o sermão de Jesus foi considerado tão perigoso quanto o sermão de João, anos antes).
Diz a lenda de que um dos discípulos de Jesus, Judas, traíu o mestre, entregando-o ao procurador Poncius Pilatos, que ordenou que o profeta fosse crucificado - a punição usual para os rebeldes na altura. Segundo a lei romana, Jesus havia sido condenado apropriadamente.
A tradição diz que a altura da morte de Jesus foi pouco antes da celebração da Páscoa, que morreu na cruz, passadas algumas horas a ter sido colocado lá. O lugar fúnebre exacto não é conhecido, dando origem a muitas especulações, que ainda predominam no século XXI.
Saulo (mais tarde Paulo) de Tarso veio a tornar-se um dos grandes pilares do cristianismo, mas antes disso, era um homem de leis, judeu fariseu, com educação helenística, que, inicialmente perseguiu os cristãos. Nasceu em Tarso, Turquia central. Foi criado em Jerusalém, sob os ensinamentos do equilibrado Gamaliel .
Quando Saulo ia a caminho de Damasco teve uma visão que o fez cair do cavalo. Profundamente impressionado, pediu para ser batizado sob o nome de Paulo ("o pequeno").
Paulo começou como missionário na Ásia Menor e decidiu que os crentes não deveriam ter de se converter ao Judaísmo antes de se tornarem cristãos. Escreveu muitas epístolas, inicialmente direcionadas para as comunidades da Igreja Primitiva. Hoje, estas epístolas, são dos documentos mais antigos que existem da história do Cristianismo. Foi missionário nos países do mediterrâneo, e as comunidades gregas, que anos antes perseguira e que deixara para trás, tornaram-se a sua casa.
Com o tempo, Paulo sentiu que não tinha escolha que não a de rejeitar por completo o codex de Leis Hebraicas, e a razão para tal, foi o novo compromisso que Deus havia feito com a Humanidade. Fez uma nova interpretação da lei: quem obedecesse à lei do amor não estava, necessariamente, ligado ao seccionismo e às tradições das Leis da Tora. De fato, Deus havia convidado todas as pessoas a juntarem-se ao seu novo compromisso, não só os judeus.
A grande influência de Paulo levou a uma quebra na Igreja Primitiva na qual, inicialmente, judeus e cristãos estavam misturados. Esta nova liberdade, vinda de uma fé baseada no amor, alargou o grupo-alvo, que passou a incluir todas as pessoas, para além dos judeus. Este foi o principal pré-requisito para o cristianismo ter podido espalhar-se nas outras civilizações.
O cristianismo tinha agora a sua oportunidade para se libertar das suas origens judaicas e poder provar que podia existir enquanto religião independente. Ainda tinha por base as Escrituras Judaicas, mas os ensinamentos iam, agora, muito mais longe.
Os cristãos primitivos viram em Jesus Cristo o fundador da sua religião. Era o Messias, o Anunciador, que se tinha revelado sob a forma do pregador itinerante Jesus. Seria aquele a quem seguiriam a partir de então.
Paulo continuou o trabalho de missionário até ser executado como mártir, pelo Imperador Nero, no ano de 64.
O centro de poder das classes governantes em Jerusalém tinham, uma vez mais, mudado, e a obediência às Leis de Deus dos fariseus era a ordem do dia.
Mas Paulo tinha feito um bom trabalho. Na Grécia, e em muitas regiões mediterrânicas, pequenas comunidades cristãs, que haviam sido fundadas, continuaram o contato com as comunidades originais em Jerusalém e foram resistentes o suficiente para testemunharem a destruição do Templo. Aproximadamente no ano de 62, Jerusalém foi o palco de uma revolta contra a longa ocupação romana. Os cristãos tiveram de decidir se ajudavam os judeus ou se seguiam a sua lei de amor a acabar com a solidariedade com as comunidades judaicas. Não foi uma decisão fácil de tomar, mas no final, os cristãos decidiram partir, fixando-se a Leste do rio Jordão. A revolta acabou numa catástrofe: o Templo Judeu foi destruído e os romanos proibiram qualquer judeu de voltar a entrar em Jerusalém.
No período a seguir à execução de Jesus, o Sumo Sacerdote saduceu tentou manter o seu estatuto e poder. No entanto, havia um novo discurso na pregação judaica que falava de independência e liberdade, o que causava uma ferida na ordem estabelecida. Para além disso, a população não estava satisfeita com a opressão romana.
Os ensinamentos cristãos caíram, rapidamente, na suspeição de serem subversivos apesar de, no início, serem tolerados. Durante o período de Herodes Antipas, foi feito o primeiro mártir, em 36 d.C., por apedrejamento (o diácono Estevão) - Saulo supervisionou a execução. Este acontecimento ocorreu no início de uma perseguição em larga escala. A princípio, tanto judeus quanto cristãos foram perseguidos de modo igual.
Muitos cristãos espalharam-se pelas regiões em redor da Judeia.
A honra que os romanos começaram a fazer ao imperador, venerando-o como um deus, fazendo sacrifícios tanto aos deuses como a este,  foi diretamente contra os ensinamentos dos cristãos que proibiam qualquer veneração a outro ser humano.
Quando os crentes cristãos começaram a crescer em número, passando a ter uma forma sólida, os romanos marcaram o novo culto como perigoso. No ano de 67 parte de Roma arde, principalmente as zonas onde viviam cristãos. Estes foram culpabilizados pelo fogo e executados na Arena: foram desfeitos por animais, queimados ou crucificados. Embora esta execução massiva tenha sido um evento singular, a perseguição continuou. Muitos cristãos preferiram enfrentar a morte a renunciar à fé, no entanto, o seu número continuou a crescer no século seguinte.
No ano de 313, o Imperador Constantino, introduziu a tolerância generalizada a todas as religiões (a história cristã reconhec-o como o 13º apóstolo devido à promoção da fé feita por si), renovando o edicto religiosos relativo à tolerância de fé, feito dois anos antes.
A partir daí, várias fés coexistiram lado a lado.
Finalmente, no final do século IV, o Cristianismo foi proclamado a Religião Oficial do Império Romano. Este foi o feito historicamente mais importante, pois ligou a política e a religião de uma forma ainda mais forte.
O que começou como uma religião dos pobres, cresceu gradualmente e acabou por se tornar um instrumento de poder, tomando uma forma selvagem pelo uso da população e governantes.
A aliança entre o poder eclesiástico e secular foi tão longe que, na Idade Média, aqueles que tinham dinheiro e influência suficientes, podiam comprar o seu caminho espiritual. Muitos aristocratas asseguraram a vida dos filhos desta forma, o que também trouxe benefícios à vida secular.
Foram feitas guerras em nome da Igreja, matando em nome do amor: só aqueles que tinham professado a fé de Cristo é que podiam entrar no Reino de Deus. A mensagem cristã de amor foi adulterada de tal forma que até as cruzadas foram aceites como compatíveis com a fé cristã e abençoadas pela Igreja.
O ensinamento original de quebrar o ciclo eterno de violência foi completamente ignorado.
A Igreja já tinha completado a sua transformação num poder secular.

Parte II
O Cristianismo é declarado a Religião do Estado



 
 No fim da Idade Clássica, o Imperador Constantino declarou o cristianismo como a religião oficial do Estado. Convocou três concílios, juntando os bispos de forma a poderem decidir sobre os dogmas a tomar.
No entanto, os bispos nem sempre concordavam entre si. A questão sobre a natureza divina de Jesus já tinha começado a causar algumas fracturas que iniciaram uma separação dentro da própria Igreja. Ainda assim crescia.
A princípio deu-se ênfase  na conversão  das populações das cidades, feito de forma individual. Após esta primeira fase, a Igreja voltou a sua atenção para os arredores da cidades. Foram criadas regiões administrativas, chamadas dioceses (províncias em grego). na maior parte dos casos as classes mais baixas adotaram a fé dos seus senhores.
Os bispos com maior influência foram chamados de Patriarcas nas terras orientais e papas em Roma (derivado do latim "pater" -pai)
Os bispos romanos estavam principalmente interessados em proliferar e expandir a sua influência, para o que converteram muitos membros das classes governantes, o que fez com que se expandissem, a curto prazo, por todo o Império Romano.
Os patriarcas do Oriente viram a expansão do Império Romano como uma forma de passarem a ter mais liberdade de tomarem as suas próprias decisões.
As querelas entre o ocidente e o oriente acabaram abruptamente, quando em 312, Constantino venceu ao exército de Maxêncio, ganhando o controlo absoluto do Império Romano. No ano a seguir legalizou o Cristianismo, igualando-o às outras religiões. Desde logo começaram a construir-se igrejas.
Constantino esperava que o Cristianismo o ajudasse a estabilizar o Império Romano, à pouco conquistado, e começou a organizar as igrejas cristãs debaixo de um poder central. No entanto, na altura, os diferentes ensinamentos já se haviam separados, não podendo ser colocados debaixo do mesmo poder.
De forma a tentar impedir que se criasse um fosso no Cristianismo, o Imperador convocou um Concílio, em 325, para o qual chamou todos os 1800 bispos para que se entendessem e unificassem a fé. Só compareceram 300 Bispos, naquele que foi o Primeiro Concílio de Nicéia.
Um dos assuntos mais controversos do Concílio foi a natureza de Jesus: era ele um ser feito por Deus, ou divino e eterno? No final formulou-se o conceito de Trindade, hoje conhecido. Também se chegou a um acordo acerca das datas e festividades a celebrar. Mas a Igreja continuou dividida, apesar de todos os bispos presentes terem assinado o Tratado de Nicéia.
Os desacordos entre os bispos bizantinos e os romanos acerca do celibato, dos rituais e dogmas continuaram por resolver o que levou à separação da Igreja Grega, a oriente, da Igreja Romana a ocidente.
Passaram a haver dois centros religiosos, os Católicos em Roma e os Ortodoxos em Constantinopla (atual Istambul).
No Império Bizantino, ou Império Romano do Oriente, o monarca continuou a ser o chefe da Igreja até ao século XV, influenciando tanto o poder eclesiástico quanto o secular. Mas até mesmo dentro da Igreja Ortodoxa houve divisões, uma das quais viria a formar a Igreja Ortodoxa Cóptica, no Egito.
Em 1453 os muçulmanos conquistaram Constantinopla o que levou à conversão de grande parte da população ao islamismo. Consequentemente, os missionários ortodoxos viraram-se para o norte e leste europeu, criando a escrita cirílica, para as línguas eslavas. Foi muito mais fácil espalhar uma doutrina bíblica de salvação usando uma escrita que representasse essa linguagem.
O centro político e religioso mudou-se para Kiev e daí para Moscovo, onde, no século IX, o Cristianismo passou a religião oficial do Estado Russo. Desde o momento em que todas as terras ortodoxas caíram sob o poder muçulmano, com excepção da Rússia, os bispos de Moscovo  adotaram o título de patriarcas.
O papado romano, também aumentou o seu poder. Os Bispos de Roma tomaram conta de todos os territórios a ocidente, com os seus missionários a irem até às terras mais longínquas do Norte da Europa. As Ilhas Britânicas trouxeram um grande número de novos seguidores e vastas terras, muitas vezes doadas pelos proprietários. Em pouco tempo o papado estava forte o suficiente para ter soberanos sob o seu controlo.
Nos finais do século XIII o Papa Bonifácio VIII até tentou subjugar o mundo secular sob o poder da Igreja. Isto quase que levou a um domínio do poder Eclesiástico, mas estava a começar a emergir um forte sentido de nacionalidade em vários países nessa altura e, a Guerra dos Cem anos, que começou cerca do ano de 1337, levou mesmo a uma fractura no papado.
O papel dos cavaleiros, assim como as formas iniciais de vida da classe média, começaram a desenvolver-se no século XI. As velhas formas de estrutura feudal, a pouco e pouco foram decaindo e a filosofia escolástica lançou as bases de uma maneira de pensar baseada na razão.
O papa Gregório VII (1073-1085) não só exigiu reformas, como deixou claro que o clero deveria cumprir as suas funções com cuidado. Lutou obstinadamente contra o casamento de clérigos (chegou mesmo a pedir às massas que fizessem um boicote a qualquer padre que fosse casado). Até esta altura não só era usual os padres serem casados, como terem filhos. Agora, os filhos dos padres eram colocados num estatuto degradativo de escravatura, sendo considerados propriedade da Igreja, enquanto que as mulheres dos padres foram reduzidas a concubinas.
Gregório prosseguiu com os seus objetivos de forma radical e, inicialmente, encontrou muita resistência, especialmente da parte dos padres. Mas passado algum tempo, as populações começaram a apoiar as reformas do papa.




 Outro ponto de controvérsia foi a investidura dos leigos, isto é, a nomeação de não clérigos a bispos. Gregório VII proibiu esta situação em 1075, o que de imediato atraiu a ira do Germâncico Saliano, Henrique IV, o que fez com que o papa o excomungasse.
Henrique IV faz então a sua famosa peregrinação de penitência a Canossa, em Itália e foi permitido voltar à Igreja. Mas o papa não ficou muito impressionado e deu o seu apoio a um rival deste, Rodolfo da Suábia.
Depois de travar várias guerras civis, Henrique IV voltou a Itália, depôs Gregório VII e fez-se coroar como o Santo Imperador Romano Germânico, pelo sucessor de Gregório, Clemente III. Durante algum tempo a Igreja não voltou a ter poder na escolha dos bispos.
O papa e o rei continuaram com as querelas acerca dos tão cobiçados cargos que prometiam a salvação na morte e rendimentos avultados na vida.
A Controversa Investidura acerca da nomeação dos clérigos foi, finalmente, resolvida em 1122 pela Concordata de Worms. A partir de então o Imperador Henrique IV renunciou ao direito de conferir o anel e o báculo, os símbolos eclesiásticos de um bispo e, permitiu que a Igreja tivesse liberdade de decidir nos assuntos da investidura.
Em troca, a Igreja assegurou a presença de um representante Imperial na nomeação dos bispos e doa abades, o que ainda dava algum controlo ao Imperador acerca do assunto.
Apesar deste acordo acabar com a disputa espiritual, e as funções do imperador e do papa ficaram separadas para sempre.
As primeiras cruzadas tiveram início depois de o líder islâmico al-Hakim destruir o Santo Sepulcro em Jerusalém, local de morte e enterro de Jesus, em 1009.
O plano era a reconquista da Palestina, libertar a Terra Santa do Controlo dos muçulmanos e converter os pagãos.
Durante o papado de Urbano (1088-1099) os crentes foram novamente para a guerra. Conseguiram conquistar Jerusalém em 1099, para a perderem 100 anos depois.
A quarta cruzada (1202-1204) foi contra a própria Constantinopla.
O pretexto de uma Missão Santa deu à Igreja uma arma contra todo o mundo que não estava debaixo do poder de Roma, especialmente contra o Império Bizantino. Durante duzentos anos foram lançadas seis grandes, e muitas pequenas, cruzadas. Alteraram o mapa político e levaram ao estabelecimento do estado das Cruzadas no Médio Oriente, mas também custaram a vida a muitos civis (foram dizimadas populações de cidades inteiras). Por fim, a ideia das cruzadas teve um último efeito: caracterizou os muçulmanos como infiéis a quem a morte era bem vinda. Esta ideia do Papão passou a outras religiões e, as primeiras vítimas da propaganda dos Cruzados foram os Judeus que viviam na área do rio Reno, na Alemanha.
Um século depois as Cruzadas foram lançadas contra os próprios cristãos!
A Inquisição, também, nasceu das Cruzadas.
Parece que a destruição do Santo Sepulcro foi usado pelo Cristianismo como uma desculpa, durante séculos, para a intolerância contra membros de outras religiões e apóstatas.
Milhões morreram pela espada em nome de Deus.
Para além dos motivos religiosos, as Cruzadas foram muito importantes por razões económicas e políticas. No entanto, fizeram muito barulho e tiveram pouco sucesso.
Foi ainda  no início da Idade Média que o fanatismo religioso culminou na Inquisição, a qual já se expressava na perseguição aos heréticos. Não havia uma linha clara entre heresia, não crença e crença em bruxaria e feitiçaria.
Vagas noções de patos com o diabo ou de bruxas a voarem em vassouras a caminho dos seus Sabats, causaram histerismo publico que resultou em inúmeras vítimas.
Mulheres acusadas de bruxaria admitiram, muitas vezes, atos que nunca fizeram a fim de evitarem ser torturadas, como o de untarem o corpo com óleo especial para conseguirem voar ou de rogarem pragas às vacas dos vizinhos para que não dessem leite. De acordo com a lei romana, usar feitiçaria para cometer este tipo de ato era crime.
O trabalho de base para a caça às bruxas foi o Malleus Maleficarum, escrito pelo monge dominicano Heinrich Institoris e publicado em Estrasburgo no ano de 1487. Este Martelo das Bruxas foi usado na Europa Central durante o século XVII e traduzido para vários idiomas.
Eram feitos testes para provar se o acusado era culpado ou não. Um era o teste da água, no qual os pés e as mãos do acusado eram amarrados e atirado para um local com água suficientemente profunda (um rio, um lago, etc). Se se afogasse é porque era inocente, caso contrário era culpado e queimado.
Julgamentos divinos deste tipo eram normais na época, embora a coação, com o tempo, passasse a ser um poder secular.

Parte III

Ordens e Confissões
Todas as ordens cristãs baseiam-se em três pilares: pobreza, castidade e obediência. Mas para além disto, todas as ordens têm as suas próprias regras. As ordens dos monges e das freiras dedicam-se principalmente à contemplação, meditação e oração, ou então podem tomar um papel mais ativo na sociedade, cuidando dos doentes ou com trabalho pastoral. Os membros da maioria das ordens usa roupa que os distingue, o hábito.
Uma das primeiras ordens foi a comunidade do italiano Benedito de Núrsia (480-547), mais tarde conhecida como a Ordem dos Beneditinos. Esta Ordem tem regras muito rígidas relativas ao horário de trabalho e de oração e foram os Beneditinos que introduziram a famosa frase: Ora et Labora - "Ora e trabalha." ainda usada pelos monges na atualidade.
Foram fundados muitos outros mosteiros a partir do século XI, como o dos Franciscanos (uma ordem medicante), os Cartuxos e os Cisternianos (ambas ordens hermitas.
Nos séculos seguintes, os mosteiros tornaram-se os guardiões da tradição da escrita cristã: eles preservaram nas suas bibliotecas numerosos manuscritos e cópias da Bíblia e textos religiosos. Na Alemanha, por exemplo, este monopólio só foi rompido por Martinho Lutero e com a invenção da imprensa no século XV.
Os Jesuítas são uma Ordem Católica relativamente recente, fundada na era moderna, em 1534 e reconhecida pelo papa poucos anos depois.
Tal como os Jesuítas a Ordem de São João consideraram a educação como parte integral da sua missão e ambos fundaram um vasto número de escolas superiores e Universidades. Ainda hoje, há novas Ordens Cristãs a serem fundadas. Por exemplo, em 1950, a Madre Teresa fundou os Missionários da Caridade, uma ordem de freiras que cuida de órfãos, leprosos e doentes terminais.

Tomás Aquino (1225-1274) e William de Ocham (1285-1349) foram fortes propulsores do escolaticismo, que se desenvolveu desde o século IX ao século XIII e só perdeu força perante o Humanismo, que nasceu do Renascimento italiano e chamou a atenção para o estudo dos autores clássicos e, em certas áreas, não se refreou de criticar o ensino cristão.
Nasce por toda a Europa o desejo de uma reforma moral e religiosa da Igreja.
As disputas dentro da Igreja forçaram o papa a deixar Roma em 1309. Vários anos depois um novo papa foi proclamado em Roma, mas o anterior teve de se mudar para Avignon, em França, o qual insistiu que era ele quem tinha o direito de liderar a Igreja Católica.
No século XIV a Itália assistiu ao aparecimento do Renascimento, focado na vida secular. Um século depois o monge agostinho Martinho Lutero denunciou os abusos da Igreja Católica.
Lutero foi ordenado padre quando ainda era jovem, em 1507, e nomeado como professor da Interpretação Biblíca em Wittenberg, poucos anos depois. Para ele, o principal dever de um cristão era o de tentar fazer o Bem, uma vez que todos os seres humanos tinham capacidade de o fazer.
A Igreja e os seus dignitários há muito que haviam alargado os seus poderes para além daqueles mencionados na Bíblia e o seu caminho pouco tinha a ver com os ensinamentos do Cristianismo original. Lutero criticou a prática da venda de indulgências, a remissão da punição pelos pecados em troca de um pagamento monetário, muito porque a Igreja ao fazê-lo estava a retirar o poder de Deus de perdoar. Proferiu três sermões contra as indulgências em 1516 e 1517.
Segundo a tradição, a 31 de outubro de 1517 foram afixadas as 95 Teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, com um convite aberto ao debate sobre elas. As teses condenavam o que Lutero acreditava ser a avareza e o paganismo na Igreja, como um abuso, e pediam um debate teológico sobre o que as Indulgências significavam. Para todos os efeitos, contudo, nelas Lutero não questionava diretamente a autoridade do Papa para conceder as tais indulgências.
Com a ajuda da imprensa, as teses de Lutero espalharam-se rapidamente. Como muitos dos seus argumentos foram bem fundamentados e muitas pessoas concordavam com ele, resultou daí uma separação entre os Protestantes e os Católicos dentro da Igreja.
Lutero não reagiu quando Roma exigiu que ele se retratasse, invés, queimou publicamente a bula papal que o excomungava. Para ele, o Vaticano e o papado não eram divinos, mas feitos humanos, logo, sem autoridade divina.
Em 1521, Lutero foi, primeiramente, excomungado e depois considerado um fora-da-lei (uma punição secular que impedia uma pessoa de ter qualquer proteção legal).
Mas Lutero teve sorte. Nos anos seguintes conseguiu permanecer em Wartburg sob a proteção do eleitor Frederico, o Sábio. Trabalhou como um erudito da língua alemã, escreveu muitos tratados teológicos e traduziu o Novo Testamento para alemão. Isto deu a muito mais pessoas - aquelas que não sabiam ler latim - acesso à Bíblia.
Quando Martinho Lutero morreu deixou uma nova Igreja centrada na palavra de Deus, e claramente diferente da Igreja Católica. A Igreja Católica reagiu com a Contrareforma, mudando as suas práticas e reformulando-se no Concílio de Trento (1545-1563).
A assinatura da Paz de Augsburg em 1555 trouxe a paz entre o Santo Império de Roma e os príncipes do Império Protestante. Os luteranos deixaram de ser heréticos, tendo reconhecimento oficial de Roma. No entanto, a fé da maioria das pessoas que viviam no final da Idade Média estava ligada à dos seus senhores.
A Guerra dos Trinta Anos foi lançada no século XVII (1618-1648), causada tanto por motivos seculares quanto religiosos, teve consequências devastadoras por toda a Europa.


A tradução da Bíblia do latim para o alemão por Lutero, não foi a primeira no
seu género. Outros antes dele já tinham falhado porque tinham tentado colocar a perspetiva da versão latina. 
Lutero fez as coisas de forma diferente, o que fez da sua tradução um sucesso. Era um pregador muito talentoso que sabia como convencer a congregação com a sua linguagem clara e direta. Lutero provou que era possível exprimir todos os pensamentos, sentimentos e emoções através do idioma alemão, que até ao século XVI tinha sido a linguagem do povo. Também tornou o conteúdo da Bíblia acessível ao povo. Foi só nessa altura que, provavelmente, muitos entenderam pela primeira vez o que era a Bíblia. Lutero não traduziu palavra por palavra, em vez disso tentou explicar os conteúdos da Bíblia, tal como os entendia. Lutero usou uma linguagem poderosa, popular e entendível pela generalidade, com muita imaginação, uma linguagem que as pessoas comuns conseguiam entender. A sua tradução da Bíblia forçou o desenvolvimento da linguagem alemã - o Alto Alemão, que passou a ser usado nos países de idioma alemão, a par com os dialetos locais. Esta é a razão porque os historiadores vêem a tradução da Bíblia por Lutero como um marco na língua alemã. Lutero inventou muitas expressões e termos ainda usados. A sua tradução tornou-se um catalisador para muitos outros eruditos ao longo da Europa, em seguir o seu exemplo e traduzir a Bíblia nos seus próprios idiomas, tonando-a assim acessível aos povos das várias nações.
O sucesso terrestre como uma confirmação de uma vida honrada - este pensamento, desenvolvido sobre as fundações do Humanismo, foi central para a comunidade Calvinista, um grupo religioso que se separou do Protestantismo.
O médico francês Humanista John Calvin (1509-1564) desenvolveu uma doutrina de dupla predestinação. O único propósito da humanidade está predestinada a pertencer aos escolhidos a quem é garantido o sucesso terrestre, enquanto os outros são tratados com a danação terrestre. Segundo a crença Calvinista ninguém consegue alterar o que já está predestinado; a partir desta premissa Calvin refutou toda a influência dos meios mágicos para sempre.
Os indivíduos foram atirados para um estado de isolamento ao qual só podem escapar através do trabalho. O sucesso como um sinal visível de ter sido escolhido por Deus levou a um novo dilema, do qual nenhuma consolação humana podia libertá-los. Foram forçados a trabalhar se temiam pela sua salvação - o que presenteou os empresários com trabalhadores cheios de vontade.
O socialista Max Weber (1864-1920) viu este tipo de vida Calvinista como uma das bases po capitalismo. Para além disso, o trabalho deveria ser levado como um benefício do indivíduo para a sociedade, que era uma forma de praticar o amor de Cristo, tal como Martinho Lutero já havia apontado. Ao mesmo tempo, ajudou a criar efetivamente pontes entre as fés religiosas e colocou a economia capitalista em ascensão com um modesto estilo de vida puritanista, por um lado, e uma vida orientada para o alcance do sucesso, por outro. De acordo com Weber, estas duas direções ajudaram a formar o moderno «homem económico, enquanto o sucesso económico, a saúde e até a diferença na distribuição dos bens no mundo, poderia ser explicado como uma determinação de Deus».
Quando o papa Clemente VII (1523-1543) recusou aceitar o divórcio do rei inglês Henrique VIII, este respondeu, sem demoras, com a criação da Igreja Estatal Anglicana.
Henrique VIII rompeu com Roma e fez com que o parlamento o confirmasse como líder supremo da Igreja de Inglaterra.
A Igreja Anglicana tem características das Igrejas Católica e Calvinista. Sobreviveu ao atentado de Maria Tudor (rainha de Inglaterra entre 1553-1558) de reintroduzir o Catolicismo. Em 1600, a rainha Isabel I, determinou definitivamente que a Igreja Inglesa seria a Anglicana e completamente independente de Roma.
Desde então, a Igreja Anglicana tem conservado grande parte das suas crenças e práticas religiosas, incluindo o lugar do bispo, embora este não tenha autoridade para determinar diretivas noutras dioceses que não a sua.
Há, no entanto, quatro Instrumentos da Verdade (comunhão): O Arcebispo de Canterbury, a Conferência de Lambeth (uma assembleia de bispos anglicanos), o Conselho Consultivo Anglicano e as Reuniões Primárias dos arcebispos e bispos seniores.
Com o Império Britânico, o anglicanismo espalhou-se pelo mundo. Hoje, é membro do Concelho Mundial das Igrejas.
Ao contrário da Igreja Romana Católica, a liturgia tem sido guardada no vernáculo, desde o tempo da Reforma, e assim, entendido por toda a gente. Mas tal como a Igreja Católica, a Igreja Anglicana tem ordens para homens e ordens para mulheres.
Com o aparecimento da Era Industrial, uma nova abordagem, mais crítica e científica, começou a dominar o pensamento: as explicações da ciência ganharam terreno através das experiências e do empirismo e, gradualmente, substituíram as explicações teológicas dos fenómenos naturais. A vida deixou de ser um mistério; estava lá para ser descoberta.
Esta abordagem influenciou a própria teologia.
Filósofos como Friedrich Schleirmacher (1768-1834) e Soren Kierkegaard (1813-1855) tentaram conciliar a ciência e a teologia. Mas a perda da relevância do Cristianismo não podia ser parada.
Logo em 1805, Ernst Moritz Arndt escreveu que «ser uma nação é a religião do nosso tempo», resumindo assim o espírito do século XIX.
A Igreja Católica reagiu criando as assembleias dos fiéis, uma tradição que havia sido introduzida nos primeiros séculos para promover o espírito de comunidade entre os fiéis.

Parte V

Vários aspectos da religião
A Bíblia
A Bíblia é uma coleção de livros onde Deus se revela. Embora tenha sido escrita por homens é considerada a Palavra de Deus e tem uma importância central na fé cristã.
A Bíblia Cristã está dividida em duas partes:
  1. O Velho Testamento, que inclui os cinco Livros de Moisés, o Livro dos Profetas e os salmos. Na sua generalidade o conteúdo do Velho Testamento coincide com a Tora Judaica, embora a ordem das diversas secções varie entre si.
  2. O Novo Testamento consiste nos quatro Livros da Revelação (Marcos, Mateus, Lucas e João). Foram escritos cerca de 50 a 70 d.C, onde contam a vida de Cristo. O Novo Testamento também inclui os Actos dos Apóstolos, cartas ou "epístolas" (incluindo as de Paulo) e a revelação de João (o Apocalipse), uma descrição dos últimos dias.
Houve outros Livros, os Apócrifos, que não foram aceites no cânone da Bíblia. Muitas vezes oferecem informação adicional que ajudam a compreender a criação da Bíblia.
Os textos bíblicos originais foram escritos em três línguas, o hebraico, o aramaico e o grego helenístico. Tinha de se saber estes idiomas para conseguir lê-la.
Durante o século III e o século I a.C. os judeus helénicos da Alexandria começaram a traduzir a Tora para o grego, de forma a torná-la acessível a mais gente. O resultado foi o chamado Septuagint (latim, setenta). O Septuagint não é uma tradução unificada e o texto foi alterado para se tornar compreensível aos leitores gregos.
Uma versão latina da Bíblia, a Vulgata, foi traduzida diretamente da versão original hebraica do século IV d.C. Na Europa Ocidental a Vulgata tomou o lugar ao Septuagint rapidamente e foi considerada a única tradução da bíblia válida. Embora, mais tarde, a Reforma tenha sido um verdadeiro catalisador da Bíblia, em vários vernáculos: o alemão de Luther (1521), o inglês de Tyndale (1526-1535), a bíblia do rei James (1611), embora tenha havido versões anteriores como a bíblia de Wycliffe (1380-1390), uma versão húngara de meados do século XIV e uma edição espanhola de 1478.

O pecado original
É importante entender que o conceito do pecado original para os Cristãos representa o ato de distanciamento entre a Humanidade e Deus (uma desobediência é um pecado que provém da livre escolha do mal).
De livre vontade a Humanidade violou os mandamentos de Deus e como resultado, a natureza humana caiu num estado de confusão. A partir deste momento a Humanidade deixou de viver no estado de Graça do Criador, passando para um de escolha entre o Bem e o Mal (com a mancha do pecado de Adão e Eva, que passa de geração em geração).
A Igreja Católica encontra a solução para a redenção da Humanidade, e reconciliação com Deus, na Crucificação de Jesus.
Para Luther a Humanidade está enfraquecida desde o primeiro momento e vive num estado de pecado. Vive separada de Deus e precisa da Sua Graça, ou da Sua piedade, para obter a Salvação.
Agostinho de Hipona (354-430), um dos grandes professores da Igreja, argumentou que sem o pecado original, a Humanidade seria incapaz de distinguir o Bem e o Mal.
Desta mesma forma, de acordo com o filósofo Immanuel Kant (1724-1804) a "queda" foi um momento decisivo no caminho para a maturidade, ou para a assumpção de responsabilização pelo ato de cada um. A serpente tirou a Humanidade de um estado de imaturidade para uma vida de esperança e medo, de decisão e erro.

O Sermão da Montanha
Há dúvidas de que Jesus tenha realmente feito um sermão perante algumas centenas de pessoas, numa colina perto de Jerusalém, como dito em dois Livros. Contrariamente, os teólogos defendem que o texto representa um resumo das ideias que Jesus pregava.
O Sermão da Montanha traz o essencial das ideias da mensagem religiosa de Jesus e desde o princípio do Cristianismo estes mandamentos extraordinários e sem paralelo têm impressionado as pessoas com a sua formulação sucinta e paradoxa, com o seu radicalismo e natureza não comprometedora.
As chamadas beatitudes estão feitas como estipulações morais. Completa a devoção a Deus e busca do Seu Reino são as obrigações do crente que não quer ser julgado.
O Sermão da Montanha avisa as pessoas a não se deixarem levar por palavras vazias, mas a suportar a dor.

O Apocalipse
O simbolismo imagético do Apocalipse conclui o Novo Testamento.
O único Livro profético da Bíblia - o Livro da Revelação - descreve o Dia do Julgamento em que os cristãos têm aguardado desde a ascensão de Jesus aos Céus (ao Reino de Deus). Os primeiros cristãos esperavam a iminência deste Reino com expectativa. Partilhando este sentimento, João escreveu na ilha grega de Patmos, o Livro do Apocalipse, no século I d.C.
Os escolásticos bíblicos pensam que foi escrito na tentativa de confortar os primeiros cristãos durante a perseguição pelos romanos.
Segundo este Livro, Deus irá ser terrível com aqueles que não são crentes. Os anjos irão castigar os seguidores do mal (os romanos).
De acordo com a profecia de João, Deus irá destruir tudo, para reconstruir um novo mundo.
A Revelação, segundo João, deveria ser entendida menos como uma descrição de um evento ainda a decorrer, mas mais como o retorno de Deus num futuro.

Os sacramentos
A Igreja Católica reconhece sete sacramentos, o batismo, o crisma ou confirmação, a Eucaristia, a reconciliação ou penitência, a unção dos enfermos, a ordem e o matrimónio.
Os Protestantes Anglicanos, por seu lado, só reconhecem como sacramento o que vem diretamente de Jesus e representa um sinal Seu.
os Protestantes reconhecem só dois sacramentos, o batismo e a eucaristia. Os outros são considerados rituais.

A Missa
A missa, ou celebração da eucaristia é a principal celebração religiosa da Igreja Católica e da Igreja Ortodoxa. Para estas igrejas, a missa é o cumprimento do mandamento de Cristo de fazer o que Ele mesmo fez na Última Ceia e é o sacramento em que se recebe o Corpo e o Sangue de Cristo sob a forma de pão e vinho, atualizando o supremo sacrifício de Cristo na cruz (o Mistério Pascal) e tornando assim possível a salvação.

O Domingo
O domingo é a versão cristã do Sabath judaico, o sétimo dia da semana. Este é um dia estabelecido para a oração e trabalho de Deus. Nalguns países é legislado o não trabalho neste dia e é estritamente obedecido. No entanto, as restrições laborais têm forçado o decaimento, ou mesmo abolição, destas restrições.

O Credo dos Apóstolos
Contém os elementos mais importantes da fé e é recitado alto pela congregação durante os serviços religiosos na maioria das igrejas.
Embora o Credo seja, na sua generalidade, reconhecido por todas as Igrejas, os Ortodoxos recitam o Credo de Nicéia que só varia do Credo dos Apóstolos em algumas omissões e adições.

A Santíssima Trindade
O cristianismo unifica o monoteísmo com as ideias de «um Deus em três formas»:
  • Deus o Pai;
  • Deus o filho;
  • Deus o Espírito Santo
Historicamente este conceito trouxe alguns problemas, porque as duas ideias parecem contradizer-se. Este assunto foi tratado no Concílio de Nicéia (312): apesar da Trindade ser mencionada em muitas orações, as interpretações dos termos são diferentes (uma interpretação vê o Pai e o Filho como duas imagens ou formas de Deus - isto significa que Jesus é equivalente a Deus. Outra, subordina Jesus ao Pai). O Concílio não conseguiu chegar a nenhuma conclusão, e o debate inicial acerca da posição relativa do Pai e do Filho rapidamente se expandiu para uma discussão acerca da natureza do Espírito Santo.
Só após o século V, com Agostinho, é que foi possível estabelecer-se uma doutrina da Trindade e a sua Santidade ao recorrer-se à ideia da encarnação e descrevendo o Pai, o Filho e o Espírito Santo como três expressões de Deus.

Maria, a Mãe Santa
De acordo com a Bíblia, a virgem Maria (em hebreu Mirjam) concebeu Jesus após ter sido informada por um anjo de que ela iria carregar uma criança. à época, Maria estava noiva do futuro marido, José e vivia em Nazaré, na Galileia.
O Novo Testamento, especialmente o Livro de Lucas, faz diversas referências a Maria, e de acordo com ele, esta teve várias crianças após Jesus.
Maria também é chamada de Mãe de Deus e de Santa Virgem.
A veneração a Maria incorpora tanto noções de uma «Mãe Santa», como de um símbolo de fertilidade e da renovação da vida.
Para os católicos, Maria é venerada como Santa, sendo a patrona da Igreja. A sua importância é ilustrada pelos inúmeros dias dedicados a ela.
A Igreja Protestante honra Maria como Mãe de Jesus, mas não a trata como uma figura santa.

O Misticismo Cristão
O termo misticismo refere-se à forma como as pessoas tentam chegar à realidade mais elevada, através de experiências divinas.
Todas as grandes religiões do mundo têm criado escolas de misticismo no discurso das suas experiências teológicas.
Devido ao fato de as experiências místicas não serem algo que todas as pessoas conseguem compreender, este tipo de escolas escolas têm estado sempre envoltas numa aura de secretismo e mistério. Enquanto que o objetivo de uma escola de ioga é a pessoa esquecer-se do seu «eu», para chegar a um entendimento mais profundo, no misticismo cristão o crente tem de ganhar consciência de si mesmo e procurar um diálogo com o divino.
Cristo é visto como o grande professor pelos místicos cristãos, que começam por se focar não na Sua morte na cruz, mas na Sua vida. Vêem Jesus como tendo sido iniciado ou consagrado nos segredos da vida e possuidor da experiência direta com o mistério.
Os místicos raramente falam das próprias experiências: alguém que experimentou um estado transcendental não pode, muitas vezes, encontrar as palavras para expressar-se. O místico é procurado na perfeição assim como na libertação com os laços  terrenos, com o fim de superar a fissura deste mundo com o outro. No entanto, os cristãos acreditam que tal só pode ser conseguido com a ajuda de Deus. Os místicos cristãos chamam a esta transcendência de unio mystica.

O Filho de Deus e os Místicos
Jesus é o «Deus que se tornou homem» e a partir daí incorpora um dos grandes mistérios da cristandade.
Algumas escolas vêem Jesus apenas como um professor exemplar que tinha incorporado de tal forma os conhecimentos místicos que foi visto como Filho de Deus.Com a sua morte na cruz, Jesus, simbolicamente, tomou para si a culpa da Humanidade, libertando, a partir daí, a Humanidade do pecado original, obtendo assim uma renovação do compromisso que Deus havia feito anteriormente com Moisés.
A vida depois da morte abre toda uma nova perspectiva para os humanos, ao darem a esperança de que a vida não acaba após a morte.

A vida depois da morte
O objetivo da vida de um cristão é o de viver sem pecados e, como recompensa, passará a vida eterna com Deus, após a morte. Isto é suposto acontecer no Céu, um local sem preocupações, onde os anjos louvam a Deus e os homens que haviam sido condenados a viver com livre arbítrio desde a queda do estado de graça no Jardim do Éden, finalmente, têm o merecido descanso.
A partir do momento em que a Humanidade caiu da Graça, tem vivido com o fardo do pecado original (a capacidade humana de se virar contra Deus), o qual tem passado de geração em geração.
Após a morte, os cristãos caem num género de sono, enquanto aguardam o Dia do Julgamento, altura em que Deus separará o justo do pecador.

Purgatório e Inferno
De acordo com o entendimento cristão, o Purgatório é um local de purificação, de limpeza. Aqui a alma tem uma oportunidade final de se purificar de qualquer pecado e preparar-se para o Céu.
Os fogos do Purgatório não devem ser, no entanto, confundidos com os do Inferno. Segundo a imaginação medieval, o Purgatório é uma cratera feita por Lúcifer quando ele caiu do Paraíso.
No Purgatório os pecadores arrependem-se dos seus erros e são atormentados por demónios e outros espíritos. A presença de Deus já se sente ali, mas as almas sentem-se indignas, tendo de purificar-se através da tristeza e do sofrimento.
O Inferno, por outro lado, é um local de sofrimento profundo. Está dividido em várias áreas onde os pecadores são castigados severamente pelos pecados que cometeram durante a vida.

Parte VI

O Vaticano
O Vaticano, a sede da Igreja Católica, é um pequeno e independente Estado dentro de Roma, a capital de Itália.
O nome Vaticano provém de Mons Vaticanus, o local de um antigo anfiteatro onde os cristãos eram massacrados, durante o Império Romano.
Diz-se que o apóstolo Pedro também foi queimado naquele local e, a Basílica de S. Pedro tem o nome do apóstolo como homenagem.
Quando Roma começou a emergir como o centro do cristianismo ocidental no século XIV, a Igreja quis sublinhar esta supremacia através da arquitetura. Assim, durante os dois séculos seguintes a Basílica de S. Pedro e o Palácio dos Apóstolos foram construídos no local onde S. Pedro se encontrava enterrado.
Atualmente o Vaticano tem cerca de 900 habitantes. Os idiomas principais são o italiano e o latim, embora sejam faladas outras línguas.
O chefe do Vaticano é o Papa, que é eleito por um conjunto de cardinais.
O papa Benedito XVI foi eleito em 2005. Tem o poder judicial, legislativo e executivo.
O papa é considerado o descendente direto de S. Pedro. A Guarda Suiça, uma guarda com treino especial, protege o papa e o Vaticano

Notas

  • A Era Comum - Foi aplicado um novo calendário, pela primeira vez, no século VI, pelo monge romano Dionysius Exiguus. Começa com o nascimento de Cristo (tal como o monge o entendia, falhou por alguns anos) e este dia marca o ponto principal para a cultura cristã.
  • O político romano Cícero (106-43 a.C.) argumentou que a crucificação era o método de morte mais cruel de todos e os cidadãos romanos foram, a partir daí, isentos dele. O condenado até era obrigado a carregar a sua própria cruz.
  • Escolásticos - tratou-se de um movimento que tentou reconciliar a fé e a razão relativamente a diversos assuntos, desenvolvido nos finais do século XI. Teve as suas raízes no racionalismo de Aristóteles (384-322 a.C.), que defendeu que o entendimento das coisas era possível só com o uso da razão. Os escolásticos determinaram a ciência e a filosofia da Idade Média.






Fontes
World Religions,Franjo Terhart e Janina Schulze, Parragon Books, Uk; 2007




Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...