11/12/2015

Budismo


O budismo é uma religião  e filosofia não teísta (não inclui a ideia de uma deidade), que abrange uma variedade de tradições, crenças e práticas baseadas nos ensinamentos de Sidarta Gautama, mais conhecido como Buda "O Iluminado". De acordo com a tradição budista, Gautama viveu e ensinou na parte leste do subcontinente indiano, entre os séculos VI e IV a.C.
Sidarta Gautama é reconhecido pelos seus seguidores como tendo sido um mestre iluminado que compartilhou o seu conhecimento aos seres sencientes de forma a que estes pudessem alcançar o fim do sofrimento (ou Dukkha), alcançando, assim, o Nirvana e escapando daquilo que é visto como um ciclo de sofrimento do renascimento.
Dois  ramos principais do são o Maaiana e o Teravada. O ramo Teravada (literalmente "Ensino dos Sábios") é mais tradicional e encontra-se mais próximo do budismo inicial, tendo-se espalhado principalmente pelas regiões do sudoeste asiático, em países como o Sri Lanka, a Tailândia, o Laos e o Cambodja. Enquanto que o budismo Maaiana (Grande Veículo), sofreu uma maior influência das crenças locais das tradições onde se espalhou, e engloba escolas como o Zen, amidismo e o budismo tibetano. Este ramo influenciou principalmente regiões como o Japão, China e Tibete.
Diversas fontes colocam o número de budistas a nível mundial entre os 230 e os 500 milhões de seguidores, tornando-a assim a quinta maior religião do mundo (por ordem, em primeiro o cristianismo, seguida do Islão, sem religião, hinduísmo e budismo).
As escolas budistas variam sobre a natureza exata do caminho da libertação, a importância e a canonicidade de vários ensinamentos e, principalmente, das práticas. No entanto, as bases das diversas tradições e práticas são as Três Jóias: o Buda (como o seu mestre), o Dharma (ensinamentos baseados nas leis do universo) e a Sangha (a comunidade budista).
Encontrar refúgio espiritual nas três Jóias, ou Três Tesouros, é, em geral, o que distingue um budista de um não budista.
Outras práticas podem incluir a renúncia convencional da vida secular para se tornar um monge ou monja.


Sidarta Gautama

De acordo com a narrativa convencional, Sidarta Gautama nasceu em Lumbini (atualmente Património Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) cerca do ano de 566 a.C e cresceu em Capilvasto, ambas localidades atuais do Nepal.
Logo após o nascimento de Sidarta, um astrólogo visitou o pai de Sidarta, o pai do jovem príncipe, Suddhodana,  que profetizou que Sidarta  que renunciaria ao mundo material para se tornar um homem santo se, por ventura, o jovem visse a vida fora das paredes do palácio.
O rei Suddhodana estava determinado a ver o filho a tornar-se rei, impedido assim que o filho saísse do palácio. Mas, aos 29 anos, apesar dos esforços do pai, Sidarta aventurou-se para além dos muros do palácio por diversas vezes. Numa série de encontros (em locais conhecidos pela cultura budista como "quatro pontos"), o príncipe descobriu o sofrimento das pessoas comuns, ao encontrar um homem velho, um doente, um cadáver e, finalmente, um asceta sadhu, a busca espiritual.
Sidarta estudou com diversos mestres mas ficou insatisfeito com os resultados dos ensinamentos. Chegou a praticar ascese rígida, como jejum prolongado, restrição da respiração, e outras formas de exposição à dor, quase morrendo no processo. Mas, a ocasião em que uma jovem lhe ofereceu comida e Sidarta aceitou, marcou a sua renuncia a este tipo de práticas. Abandonou o ascetismo, passando a concentrar-se na meditação anapanasati, através da qual descobriu aquilo a que os budistas atuais designam de "caminho do meio", um caminho que não passa pela luxúria e pelos prazeres sensuais, mas que também não passa pelas práticas de mortificação do corpo. 

Quando tinha 35 anos de idade, Sidarta sentou-se debaixo de uma figueira-dos-pagodes (ficus religiosa), conhecida atualmente como árvore de Bodhi, localizada em Bodh Gaya, na Índia, e prometeu não sair dali enquanto não atingisse a iluminação espiritual.
A lenda diz que Sidarta experimentou a dúvida sobre o sucesso ao ser confrontado por um demónio chamado Mara, que simboliza o mundo das aparências, a tentação, muitas vezes representado por uma cobra  naja. Mara teria oferecido todos os tipos de prazeres e tentações a Sidarta, que implacavelmente repeliu o demónio. Vencido Mara, Sidarta acordou para a Verdade - a Verdade da origem, da cessação e do caminho que levava à cessação do sofrimento - atingindo a Iluminação. Foi desta forma que, por volta dos quarenta anos, Sidarta Gautama se tornou o Buda, o Iluminado. 
Não demorou muito para que atraísse um grupo de seguidores e instituísse uma ordem monástica. Desde então, passou os dias a ensinar o darma, viajando por toda a parte nordeste do subcontinente indiano. Sidarta enfatizou sempre que não era um deus e que a capacidade de se tornar um buda pertencia ao ser humano. Faleceu aos oitenta anos de idade, em 483 a.C., em Kushingar, na Índia.
Os académicos contradizem-se em relação às afirmações sobre a história e vida do Buda. A maioria aceita que viveu, ensinou e fundou uma ordem monástica, mas não aceita de forma consistente os detalhes da biografia deste. Seguindo o escritor Michael Carrithers, no livro O Buda, o esboço da vida tem de ser verdadeiro: o nascimento, a maturidade, a renúncia, a busca, o despertar e a libertação, o ensino e a morte.
Ao escrever uma biografia sobre Buda, Karen Armstrong afirmou: "É obviamente difícil, portanto, escrever uma biografia de Buda, atendendo aos critérios modernos, porque temos muito pouca informação que pode ser considerada histórica... mas podemos estar razoavelmente confiantes, pois Sidarta Gautama realmente existiu e os seus discípulos preservam a sua memória, a sua vida e os seus ensinamentos."

Conceitos budistas

A Vida e o Mundo
Carma: lei de causa e efeito
No budismo, o Carma é a força de samsara (fluxo incessante de renascimentos através dos mundos) sobre alguém. As boas ações e/ou ações más geram "sementes" na mente, que virão a aflorar nesta vida ou num renascimento subsequente. O sila é um conceito importante do budismo, geralmente traduzido como "virtude", "boa conduta", "moral" e "preceito", com o objetivo de cultivar as ações positivas.
O Carma, na filosofia budista, refere-se especificamente a essas ações (do corpo, da fala e da mente) que nascem da intenção mental e que geram consequências e/ou resultados. Cada vez que uma pessoa age, existe alguma qualidade de intenção na sua mente e, muitas vezes, essa intenção não é demonstrada pelo seu exterior, mas está no seu interior e determinará os efeitos dela decorrentes.
No budismo Teravada, não pode haver salvação divina ou perdão de um carma, uma vez que é um processo puramente impessoal que faz parte do Universo. No entanto, outras escolas, como a Maaiana, têm uma visão diferente. Por exemplo, os textos dos sutras (como o Sutra do Lótus, o Sutra de Angulimala e o Sutra do Nirvana) afirmam que, recitando, ou simplesmente ouvindo os seus textos, as pessoas podem expurgar grandes carmas negativos.

Renascimento
O renascimento refere-se a um processo pelo qual os seres passam por uma sucessão de vidas como uma das muitas formas possíveis de senciência. Contudo, o budismo, natural da Índia, rejeita conceitos de "autoestima" permanente ou "mente imutável", eterna, como é designada no cristianismo  e até mesmo no hinduísmo, pois, no budismo, existe a doutrina do anatha, sobre a inexistência de um "eu" permanente e imutável.
De acordo com o budismo, o renascimento em existências subsequentes deve ser antes entendido como uma continuação dinâmica, um processo constante de mudança - "originação dependente" - determinado pelas leis de causa e efeito (carma), em vez da noção de um ser encarnado ou transmigrado de uma existência para outra.
Cada renascimento ocorre dentro de um dos seis reinos, de acordo com os reinos de desejos, que podem variar segundo as diversas escolas:
  1. seres dos infernos: aqueles que vivem num dos muitos infernos;
  2. preta: o reino de seres que padecem de necessidades sem alívio, sofrimento, remorsos, fome, sede, nudez, miséria, sintomas de doença, entre outros;
  3. animais: um espaço de divisão com os humanos, mas considerado como outra vida;
  4. seres humanos: um dos reinos de renascimento, em que é possível atingir o nirvana;
  5. semideuses: variavelmente traduzido como "divindades humildes", titãs e antideuses; não são reconhecidos pelas escolas Teravada e Maaiana, que os consideram como devas de nível mais baixo;
  6. deva: comparado ao paraíso.
O renascimento nalguns dos céus mais elevados, conhecido como o mundo de Suddhavasa (moradas puras), pode ser alcançado apenas por pessoas com enorme realização espiritual, conhecidas como não regressistas. Já o renascimento no reino sem forma pode ser alcançado apenas por aqueles que podem meditar sobre o arapajhanas, o maior objeto de meditação.
De acordo com o budismo praticado no leste asiático e o budismo tibetano, existe um estado intermédio (o bardo) entre uma vida e a próxima. A posição Teravada ortodoxa rejeita este conceito, no entanto existem passagens no Samyutta Nikaya do Cânone Páli (coleção de textos na qual se baseia a tradição Teravada) que parecem apoiar o facto de o Buda ter ensinado que existe um estado intermediário entre a vida atual e a próxima.

O ciclo de samsara
O samsara é o ciclo das existências nas quais reinam o sofrimento e a frustração engendrados pela ignorância e pelos conflitos emocionais resultantes. O samsara compreende os três mundos superiores (deva, espiritual e seres humanos) e os três inferiores (seres ignorantes, inferiores e animais), julgados não por um valor, mas em função da intensidade do sofrimento.
A maioria dos budistas acredita no samsara. Este, por sua vez, é regido pelas leis do carma: a boa conduta produzirá bom carma e a má alma produzirá mau carma. Tal como os hindus, os budistas interpretam o samsara não esclarecido como um estado de sofrimento. Só é possível a libertação do samsara, se for atingido o estado total de aceitação, visto que nós sofremos por desejarmos coisas passageiras, e alcançarmos o nirvana ou salvação.

Sofrimento: causas e soluções
As Quatro Nobre Verdades
De acordo com o Cânone Páli, As Quatro Nobre Verdades foram os primeiros ensinamentos deixados pelo Buda depois de atingir o nirvana. Algumas vezes, são consideradas como a essência dos ensinamentos do Buda e são apresentadas na forma de um diagnóstico médico:
  1. A vida como a conhecemos é finalmente levada ao sofrimento e/ou mal-estar (dukkha), de uma forma ou de outra;
  2. O sofrimento é causado pelo desejo (Trishna). Isto é, o sofrimento é, muitas vezes, expressado como um engano agarrado a um certo sentimento de existência, à individualidade, ou para coisas ou fenómenos que são considerados causadores da felicidade ou infelicidade.
  3. O sofrimento acaba quando termina o desejo. Tal é conseguido através da eliminação da ilusão (maya), alcançando assim o estado de libertação do iluminado (bodhi);
  4. Finalmente, este estado é conquistado através dos caminhos ensinados pelo Buda. 
Este método é descrito por alguns académicos ocidentais e ensinado como uma introdução ao budismo por alguns professores contemporâneos do Maaiana, como por exemplo o 14º Dalai Lama, Tenzin Gyatso.
De acordo com outras interpretações de mestres budistas e eruditos, e recentemente reconhecidas por alguns estudiosos ocidentais não budistas, as "verdades" não representam meras declarações e/ou indicações, entretanto, estas podem ser agrupadas em dois grupos:
  1. O sofrimento e as causas do sofrimento;
  2. A cessação do sofrimento e os caminhos para a libertação.
A Enciclopédia Macmillan de Budismo simplifica As Quatro Nobre Verdades:
  1. "A Verdade Nobre Que Está a Sofrer"
  2. "A Verdade Nobre Que é o Surgimento do Sofrimento"
  3. "A Verdade Nobre Que é o Fim do Sofrimento"
  4. "A Verdade Nobre Que Produz o Caminho para o Fim do Sofrimento".
A compreensão tradicional do Teravada sobre as Quatro Nobre Verdades é que estas são um ensino avançado para aqueles que estão "prontos". 

O Nobre Caminho Óctuplo
O Nobre Caminho Óctuplo - A Quarta Nobre Verdade do Buda - é o caminho para o fim do sofrimento (dukkha).

Divisão    ItenDescrição
Sabedoria
Visão correta
Ver a realidade tal como ela é, e não como parece ser.

Intenção correta
Intenção de renúncia, libertação e inofensividade.
Conduta Ética
Fala correta
Falar de forma verdadeira e não agressiva.

Ação correta
Agir de forma não agressiva.

Viver corretamente
Viver de forma não agressiva.
Concentração
Esforço correto
Esforçar-se para melhorar.

Atenção correta
Estar atento para ver as coisas com a consciência clara; estar consciente da realidade presente dentro de si mesmo sem qualquer desejo ou aversão.

Concentração correta
Correta meditação e concentração.

O Caminho do Meio
Um principio orientador importante da prática budista é o Caminho do Meio, que se diz ter sido descoberto pelo Buda, antes da sua iluminação. O Caminho do Meio tem várias definições:
  1. a prática de não extremismo: um caminho de moderação e distância entre a autoindulgência e a morte;
  2. o meio-termo entre determinadas visões metafísicas;
  3. uma explicação do nirvana (perfeita iluminação), um estado no qual fica claro que todas as dualidades aparentes do mundo são ilusórias;
  4. outros termos para o sunyata, a última natureza de todos os fenómenos (escola Maaiana).
A forma como as coisas são
Os estudiosos budistas têm produzido uma quantidade notável de teorias intelectuais, filosóficas e conceitos de visão do mundo (por exemplo: filosofia budista, abhidharma e a realidade do budismo). Algumas escolas do budismo desencorajam os estudos doutrinários, enquanto que outras consideram-nos como essenciais, pelo menos para algumas pessoas nalgumas fases do budismo.
Nos primeiros ensinamentos budistas, o conceito de libertação - nirvana - (de certa forma compartilhado por todas as escolas budistas), está intimamente ligado com a correta compreensão de como a mente lida com o stress.
Ao obter-se conhecimento sobre o apego, é gerado um sentimento de desapego e dá-se a libertação do sofrimento (dukkha) e do ciclo de renascimento (samsara). Para que se dê este efeito, Buda recomendou ver as coisas através das três marcas de existência - Impermanência, sofrimento e não eu:
  • Anicca é uma das três marcas de existência. O termo exprime o conceito budista de que todas as coisas são compostas (ou fenómenos condicionados), caracterizadas por serem inconstantes, instáveis e impermanentes. Isto é, tudo o que pode ser experimentado através dos sentidos é composto por "peças" e a sua existência depende de condições externas. Tudo se encontra num fluxo constante e, assim, as condições e coisas em si estão constantemente a vir a ser e a deixar de ser. Como nada dura, não há nenhuma natureza inerente ou fixada em qualquer objecto ou experiência. Segundo a doutrina da impermanência, a vida humana incorpora este fluxo no processo de envelhecimento, no ciclo de renascimento e em qualquer existência de perda. A doutrina também afirma que, pelo facto de as coisas serem impermanentes, o apego a elas é inútil e leva ao sofrimento (dukkha).
  • Dukkha ou sofrimento é um dos conceitos centrais do budismo. A palavra pode ser traduzida de diversas maneiras, incluindo sofrimento, dor, insatisfação, tristeza, angústia, ansiedade, desconforto, stress, por exemplo. Apesar disso, dukkha é traduzido, muitas vezes, como "sofrimento", em que o seu significado filosófico é mais semelhante a "inquietação", como na condição de ser perturbado. Devido a isso, algumas literaturas preferem não traduzir o verbete, com o objetivo de englobar numa palavra todos os significados.
  • Anatta, ou anatman, refere-se à noção da inexistência de um "eu". Após, uma análise cuidadosa, verifica-se que nenhum fenómeno é realmente "eu" ou "meu". Na realidade, são conceitos criados pela mente. O nikayas, no anatta, não é entendido como uma afirmação metafísica, mas como uma aproximação para ganhar sofrimento. Buda rejeitou ambos os conceitos, defendendo que ambos ligam ao sofrimento.

Originação (Inter)Dependente

A doutrina de pratitya-samutpada é a principal contribuição budista à metafísica. Comum a todas as escolas de Budismo, tanto as do veículo Maaiana como as de Teravada, afirma que todos os fenómenos são o resultado da existência mutuamente dependente. É comum ser traduzida de diversas formas, como "orientação dependente", "génese condicionada", "codependente decorrentes" ou "emergência".
O conceito mais conhecido e aplicado do pratitya-samutpada é o regime dos Doze Nidanas, que explicam detalhadamente a continuação do ciclo do sofrimento e renascimento. Os Doze Nidanas descrevem a relação entre as características subsequêntes, cada uma dando origem ao nível seguinte:
  1. Avidya: ignorância (espiritual);
  2. Samskaras: formações;
  3. Vijnana: consciência;
  4. Namarupa: nome e forma (refere-se à mente e ao corpo);
  5. Sadayatana: as bases dos sentidos  (olhos, nariz, ouvidos, língua, corpo e mente)
  6. Sparsa: contato (traduzido igualmente como "impressão" ou "estímulo" por objeto)
  7. Vedana: sensação, traduzida como algo "desagradável", "agradável" ou "neutro";
  8. Irsna: sede, mas no budismo refere-se ao desejo;
  9. Upadana: apego ou apreensão;
  10. Bhava: ser (existência) ou tornar-se (no Theravada tem dois significados: o carma, que produz uma nova existência, e a existência em si)
  11. Jati: nascimento (entendido como ponto de partida);
  12. Jaramarana: velhice e morte, também traduzida como tristeza, lamentação, dor e miséria.

Sunyata
O budismo Maaiana foi fundado a partir das teorias de Nagarjuna, provavelmente o estudioso mais influente dentro das tradições da escola budista. A principal contribuição do filósofo budista foi a exposição sistemática do conceito de sunyata, ou "vazio".
Este conceito reúne as outras doutrinas budistas principais, especialmente a anatta e a pratitya-samutpada (orientação dependente), para refutar a metafísica da Sarvastivada e Sautrantika  (não extintas da escola Maaiana). 
Para Nagarjuna, não são apenas os seres sencientes que estão vazios de atman; todos os fenómenos (dharmas) são isentos de svabhava (literalmente "própria natureza" ou "auto-natureza") e, portanto, sem qualquer essência fundamental, pois são vazios de ser independentes.
Os pensamentos de Nagarjuna são conhecidos como Madhyamaka. Alguns dos escritos atribuídos a Nagarjuna fazem referência explicita aos textos de Maaiana, mas a sua filosofia foi colocada entre "parênteses" pela ágama. Pode ter chegado à posição que defendia por um desejo de alcançar uma exagese coerente da doutrina de Buda, tal como Canon. Sob o ponto de vista de Nagarjuna, Buda não era apenas um precursor, mas o próprio fundador do sistema Madhyamaka.
Os ensinamentos sarvastivada, que foram criticados por Nagarjuna, foram reescritos por estudiosos como Vasubandhu e Asanga e foram, posteriormente, adaptados para a prática do Yoga. Enquanto que a escola Madhyamaka declarou que defender a existência ou inexistência de qualquer coisa, em última análise, era inadequado, no entanto alguns defensores do Yogacara afirmam que só a mente é real (doutrina conhecida como consciência). Mas nem todos os centros de Yogacara partilham desta visão.
A distinção entre o budismo e outras escolas filosóficas é uma questão de epistemologia. Apesar de todas as escolas de Lógica indianas oferecerem várias sentenças válidas para o conhecimento (pramana), o budismo, por sua vez, reconhece menos sentenças do que as outras. Por exemplo, as escolas indianas aceitam a percepção e a inferência, contrariamente a algumas escolas budistas.
De acordo com as escrituras, Buda permaneceu sempre em silêncio quando questionado sobre várias questões metafísicas, conhecidas como "Questões avyakata". Estas questões são perguntas como por exemplo, se o universo é eterno ou não (ou se é infinito ou não), se há unidade ou separação do corpo e do atman, a inexistência completa de uma pessoa depois do nirvana, etc. Uma explicação para este silêncio é de que tais questões atrapalham a atividade prática para o bodhi, trazendo o perigo de substituir a experiência de libertação através da compreensão conceitual da doutrina ou pela fé religiosa.

Origens

O budismo surgiu no nordeste da Índia, entre os séculos V e IV a. C. Este período corresponde a uma fase de alterações sociais, políticas e económicas na região. A antiga religiosidade bramânica, centrada no sacríficio dos animais, era questionada por vários grupos religiosos, que geralmente orbitavam em redor de um mestre.
Um destes mestres, foi Sidarta Gautama, o Buda, cuja vida é situada pela maioria dos académicos ocidentais e indianos, entre 563-483 a.C., embora os académicos japoneses considerem como mais prováveis as datas entre 448 a 368 a.C.. Sidarta nasceu na povoação de Kapilavastu, que se pensa ser a aldeia indiana de Piprahwa, situada perto da fronteira indo-nepalesa. Pertencia à casta guerreira (ksatriya).
Várias lendas são unânimes a afirmarem que Sidarta viveu ricamente, tendo o pai deste esforçado-se por evitar que o filho entrasse em contato com os apectos desagradáveis da vida. Quando tinha cerca de 29 anos, o jovem Sidarta decidiu abandonar este tipo de vida, renunciando a todos os bens materiais e adoptando a vida de um renunciante. Praticou ioga (numa forma que não é a mesma que é seguida atualmente no ocidente) e diversas práticas sacéticas extremas, mas acabou por abandoná-las, por concluir que não obtinha resultados. Segundo a tradição, ao final de uma meditação sentado debaixo de uma figueira, descobriu a solução para a libertação do ciclo das existências e das mortes que o atormentava.
Pouco depois, decidiu retomar a sua vida de errante. Chegou a um bosque, perto de Benares, onde pronunciou um discurso diante de cinco jovens, que convencidos dos ensinamentos de Gautama, tornaram-se os primeiros discípulos de Buda, e juntos, formaram com o mestre a primeira comunidade monástica (sangha). Buda dedicou, então, o resto da sua vida a pregar a sua doutrina através de um método oral, não tendo deixado quaisquer escritos.

Cosmologia

A cosmologia budista considera que o Universo é composto por vários sistemas mundiais, sendo que cada um desses possui um ciclo de nascimento, desenvolvimento e declínio que dura milhares de milhões de anos.
No sistema mundial existem seis reinos, que por sua vez incluem vários níveis, num total de trinta e um.
O reino dos infernos situa-se na parte inferior. O inferno budista não é um lugar de permanência eterna, nem o renascimento nesse local é o resultado de um castigo divino: os seres que habitam o inferno libertam-se dele assim que o mau carma que os conduziu ali se esgota. 
Acima dos reinos dos infernos, à esquerda, encontra-se o reino animal, o único dos vários reinos perceptível aos humanos e onde vivem as várias espécies. Acima do reino dos infernos, à direita, encontra-se o mundo dos espíritos ávidos ou fantasmas (preta). Os seres que nele vivem sentem constantemente sede ou fome, sem nunca terem estas necessidades saciadas. 
O reino seguinte é o dos Asura (termo traduzido como "Titãs" ou dos antideuses). Os habitantes nasceram neste reino em resultado de ações positivas realizadas com um sentimento de inveja e competição e vivem em guerra constante com os deuses.
O quinto reino, é o dos seres humanos. É considerado como um reino de renascimento desejável, mas ao mesmo tempo difícil. A vida enquanto humano é vista como uma via intermédia na cosmologia budista, sendo caracterizada pela alternância entre alegrias e sofrimentos, o que, de acordo com a perspectiva budista, favorece a tomada de consciência sobre a condição cármica.
O último reino é o dos deuses (deva) e é composto por vários níveis ou residências. Nos níveis mais próximos do reino humano, vivem seres que, devido à prática de boas ações, levam uma vida harmoniosa. Os níveis situados entre o vigésimo terceiro e o vigésimo terceiro e o vigésimo sétimo  são denominados como "Residências Puras", sendo habitadas por seres que se encontram perto de atingir a iluminação e não voltarão a renascer como humanos.

Escrituras

Buda não deixou nada escrito. De acordo com a tradição budista, no próprio ano em que Buda faleceu, ter-se-á realizado um concílio na cidade de Rajaghara, onde discípulos do buda recitaram os ensinamentos perante uma assembleia de monges que os transmitiram de forma oral aos seus discípulos. No entanto, a historicidade desse concílio é alvo de debate - para alguns, este relato não passa de uma forma de legitimação posterior da autenticidade das escrituras.
Só por volta do século I, é que os ensinamentos do Buda começaram a ser escritos. Um dos primeiros lugares onde se começou a escrever foi no Sri Lanka, onde se constituiu o denominado Cânone Páli. O Cânone Páli é considerado pela tradição Theravada como contendo os textos que se aproximam mais dos ensinamentos de Buda. Não existe no budismo um livro sagrado como a Bíblia ou o Alcorão, que seja igual para todos os crentes. Para além deste Cânone, existem outros cânones budistas, como o chinês e o tibetano.
O cânone budista divide-se em três grandes grupos de textos, denominado "Triplo Cesto de Flores":
  • Sutra Pitaka - agrupa os discursos do Buda tais como teriam sido recitados por Ananda no primeiro concílio. Divide-se, por sua vez em vários subgrupos:
  1. Vinaya Pitaka - reúne o conjunto de regras que os monges budistas devem seguir e cuja transgressão é alvo de uma penitência. Contém textos que mostram como surgiu determinada regra monástica e fórmulas rituais usadas; por exemplo, na ordenação. Estas regras teriam sido relatadas no primeiro concílio por Upali;
  2. Abhidharma Pitaka: trata do aspecto filosófico e psicológico contido nos ensinamentos do Buda, incluindo listas de termos técnicos.
Quando se deu a ascensão do budismo Maaiana, esta tradição afirmou que o Buda ensinou outras formas doutrinas que permaneceram ocultas até que o mundo estivesse preparado para as receber. Desta forma, a tradição Maaiana inclui outros textos que não se encontram no Teravada.

Difusão do budismo

Índia
A partir do seu local de nascimento no nordeste indiano, o budismo espalhou-se para outras partes do norte e para o centro da Índia. Durante o reinado do imperador máuria Asoka, que se converteu ao budismo e que governou uma área semelhante à da Índia contemporânea (com exceção do sul), o budismo consolidou-se. Após ter conquistado a região de Calinga, Asoka decidiu que a partir de então governaria com base nos preceitos budistas. O imperador ordenou a construção de hospedarias para os viajantes e que fosse proporcionado tratamento médico não só aos humanos, mas também aos animais. O rei também aboliu a tortura e provavelmente a pena de morte. A caça, desporto tradicional dos reis, foi substituída pela peregrinação a locais budistas. Apesar de ter favorecido o budismo, Asoka mostrou-se igualmente tolerante para com o hinduísmo e jainismo.
Asoka quis igualmente divulgar o budismo pelo mundo, como revelam os seus éditos. Segundo estes, foram enviados emissários com destino à Síria, Egito e Macedónia (embora não se saiba se chegaram aos seus destinos) e para o oriente, para uma terra de nome (Suvarnabhumi (Terra do Ouro) que não se conseguiu identificar com segurança.
O Império Máuria chegou ao fim em finais do século II a.C. A Índia foi então dominada pelas dinastias locais dos Sunga (185-173 a.C.) e dos Kanvas (c.73-25 a.C.), que perseguiram o budismo, embora este conseguisse prevalecer. Perto do início da era atual, o noroeste da Índia foi invadido pelos citas, que acabariam por formar o Império Kushana. Um dos mais importantes reis desta dinastia Kanishka (c. 127-147) foi um grande proselitista do budismo.
Durante a época da dinastia Gupta (320-540), os monarcas favoreceram o budismo (assim como o hinduísmo). Em meados do século VI, os Hunos Brancos, oriundos da Ásia Central, invadiram o noroeste da Índia, destruindo inúmeros mosteiros budistas. A partir da década de 750, a dinastia Pala passou a governar o nordeste da Índia (até ao século XII), apoiando os grandes centros monásticos budistas, entre os quais o de Nalanda. No entanto, a partir do século XII, o budismo entra num declínio devido a diversos fatores. Entre estes encontrava-se o revivalismo hindu e pelas invasões muçulmanas dos séculos XII e XIII.
Já no século XX, embora o budismo tenha passado por uma verdadeira renovação a parir de 1959, ano em que o Dalai Lama escolhe o exílio, este encontra-se com uma presença fraca na Índia.

Sri Lanka e Sudeste da Ásia
A tradição cingalesa atribui a introdução do budismo no Sri Lanka ao monge Mahinda, filho de Asoka, que teria chegado à ilha em meados do século III a.C. acompanhado por outros missionários. Este grupo terá convertido o rei Devanamplya Tissa ao budismo, assim como grande parte da nobreza local. O rei ordenou a construção do Mahavihara ("Grande Mosteiro" em pali) na então capital do Sri Lanka, Anuradhapura., passando a tornar-se o grande centro do budismo Teravada nos séculos seguintes.
Foi no Sri Lanka que, por volta do ano 80 a.C. se redigiu o Cânone Pali, a coletânea mais antiga de textos que refletem os ensinamentos do Buda. No século V, chegou à ilha o monge Buddhaghosa que foi responsável por organizar e editar os primeiros comentários feitos ao Cânone, traduzindo-os para o pali.
Na Tailândia, o budismo lançou raízes no século VII nos reinos de Dvaravati (no sul, na região de Banguecoque) e de Haripunjaya (no norte, na região de Lamphun), ambos reinos da etnia Mon. No século XII, o povo Tai, que chegou ao território  vindo do sudoeste da China, adotou o budismo Teravada como a sua religião.
A presença do budismo na península Malaia está atestada desde o século IV, assim como nas ilhas de Java e Sumatra. Nestas regiões, verificou-se um sincretismo entre o budismo Maaiana e o xivaísmo, ainda hoje presente em locais como a ilha de Bali. Entre o século VII e o IX, a dinastia budista dos Xalendra governou partes da Indonésia e a península Malaia, tendo sido responsável pela construção de Borobudur, uma enorme estupa (hoje, a maior do hemisfério sul). O islamismo chegou à Indonésia no século XIV, através dos mercadores, acabando por substituir o budismo como religião dominante. Atualmente, o budismo é praticado principalmente pela comunidade chinesa da região.

China
A tradição atribui a introdução do budismo na China ao imperador Ming de Han (25-220 d.C.), o segundo maior imperador da dinastia Han do leste. Este imperador teve um sonho no qual viu um ser voador dourado, interpretado pelos seus conselheiros como uma visão de Buda. O imperador enviou emissários a outros países, a oeste da China, para obter informações sobre a doutrina de Buda.
As escrituras budistas teriam sido levadas até à china, nas costas de cavalos brancos, por Dharmaraksa e Kasyapa Matang, dois grandes monges indianos. O imperador ordenou, então, a construção do primeiro templo budista da China, o mosteiro Baima, na atual cidade de Luoyang, na província de Henan. Os monges levaram para a China, 42 sutras, contendo 600.000 palavras em sânscrito.
Mas o budismo só se espalhou na China nos séculos V e VI com o apoio das dinastias Wei e Tang. Durante este período, estabeleceram-se, na China, escolas budistas de origem indiana ao mesmo tempo que se desenvolveram escolas próprias chinesas.

Coreia e Japão
O budismo chegou à Coreia no século IV. Nesta altura, a Coreia não era um território unificado, encontrando-se dividida em três territórios rivais: o reino de Koguryo no norte, o reino de Paekche no sudoeste e o reino de Silla no sudeste. Estes três reinos reconheceriam o budismo como uma religião oficial, tendo sido o primeiro a fazê-lo Paekche (384), seguindo-o Koguryo (392) e Silla (528). Em 668, o reino de Silla unificou a Coreia sob o seu poder e o budismo conheceu uma era de desenvolvimento. Foi neste período que viveu o monge Wonhyo Daisa (617-686), que tentou promover um budismo no qual fizessem parte todas as seitas. No século VIII, foi difundido na Coreia o budismo da escola chinesa Chan, denominado son (ou seon) em coreano e que se tornou a escola dominante. O budismo continuou a florescer durante a era de Koryo (935-1392), até que a dinastia Li (1932-1910) favoreceu o confucionismo.
A partir da Coreia e da China, o budismo foi introduzido no Japão em meados do século VI. Em 593, o príncipe Shotoku declarou o budismo como religião do Estado, mas até à Idade Média, este foi um movimento apenas ligado à corte e à aristocracia, sem larga adesão popular (os missionários coreanos tinham apresentado à corte japonesa o budismo como elemento de proteção nacional). Durante as eras Nara (710-794) e Héian (794-1185), começaram a implantar-se várias seitas de expressão chinesa no Japão. São deste último período a escola Shingon e Tendai (Tien Tai). Finalmente, durante a era Kamakura (1185-1333) o budismo populariza-se com as escolas Terra Pura, Nichiren e Zen (Chan) nas suas principais vertentes chinesas das escolas Rinzai (Linji) e Soto (Caodong).

Tibete
No Tibete, o budismo propagou-se em dois momentos diferentes. O rei Songstsen Gampo (c.627 - c.650), influenciado pelas suas duas esposas budistas, decidiu mandar chamar ao Tibete monges indianos para difundirem naquela região a religião. Durante o reinado de Trisong Deutsen construiu-se o primeiro mosteiro tibetano e em 747 chegou ao território o iogue indiano Padmasambhava, que organizou o budismo tibetano e fundou a escola hoje conhecida como Nyingma (ou "escola da tradição antiga" em relação às escolas posteriores estabelecidas por outros professores). Contudo, uma reação hostil da relegião nativa, o Bön, levaria ao declínio do budismo nos dois séculos seguintes.
O budismo seria reintroduzdo no Tibete a partir do século XI, com a ajuda do monge indiano Atisa, que chegou ao território em 1042. Com o passar do tempo, formaram-se quatro escolas: Sakyapa, Kagyupa, Nyingmapa e Gelugpa. Em 1578, membros da Gelugpa converteram o mongol Altan Khan à sua doutrina. Alta Khan criou o título de Dalai Lama, que concedeu ao líder da escola Gelugpa. Em 1641, com a ajuda dos mongóis, o quinto Dalai Lama derrotou o último príncipe tibetano e tornou-se o líder temporal do Tibete. Os dalai lama seguintes foram, na prática, os governantes do Tibete até à invasão chinesa. O quinto dalai lama criou o cargo de Panchen-lama, que reside no mosteiro de T-shi-lhum-po e que foi visto como uma encarnação do Amitabha.




Fonte: wikipédia


Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...