03/12/2015

Brunilde, a Valquíria

«Ao som das lanças e das espadas que se entrechocavam sucederam-se os lamentos dos moribundos. No campo de batalha, os guerreiros agonizam. De rostos voltados para o céu, os corpos uns sobre os outros, eles perscrutam as nuvens. Aguardam. Em breve, elas chegarão.
A principio é um silvo sobre o topo das árvores, seguido de um ribombar surdo e longínquo no ventre do céu. Um tropel de cascos avoluma-se. Depois, já se consegue vê-las, pontos negros no horizonte, águias funestas, virgens de elmo na cabeça. Algumas montam cavalos semelhantes a nuvens, cujas crinas sacudidas espalham sobre a terra um orvalho fértil. Outras chegam montadas em hordas de lobos, cujos ventres cinzentos roçam a erva amassada. Mantos de penas de cisne cobrem as suas armaduras metálicas. Cabelos flutuam atrás delas, abrindo na terra sulcos sangrentos.
No campo de batalha, os que ainda têm algumas forças apoiam-se nos cotovelos e rastejam em desespero para tentar alcançar um abrigo. Para lhes escapar.

Mas elas chegam depressa e começam a trabalhar. Deitam-se ao trabalho, amontoando os mortos e acabando com muitos feridos à espadeirada. Não ceifam ao acaso: reservam-se os mais fortes, os mais valentes. Arrancam e degolam, rasgam e trespassam. Depois, levam para o alto, para Valhalla, os escolhidos. Felizes os guerreiros eleitos, pois serão acarinhados pelas virgens de Odin, que verterão hidromel sobre os seus lábios gelados e alimentá-los-ao com carne e especiarias. E dançarão para eles, as belas Valquírias.
Mas hoje não se ouvem gritos vitoriosos no campo de batalha. As Valquírias calam-se e desdenham os homens. Porque uma delas, Brunilde, infringiu a lei. Sobre o seu cavalo, não transporta o corpo pesado de um guerreiro, mas o de uma mulher inconsciente cujo ventre abriga uma vida. "Irmãs, ajudem-me! Ajudem-me, por piedade para com esta pobre mulher!", implora, mas as suas irmãs afastam-se. Brunilde insiste: "Ela chama-se Sieglinde, é nossa meia-irmã, fruto dos amores entre Odin e uma mortal. Mas o nosso pai condenou-a a uma morte certa por ter troçado das leis do casamento e da família, enganando o marido com o seu irmão gémeo, Siegmund. Cometeu incesto e adultério. Mas o seu amor por Sigmund era sincero... Vejam! Sigmund acaba de sucumbir, mas podemos salvá-los ainda, a ela e ao filho de ambos. Ajudem-me, suplico-vos!"
Mas as suas irmãs abanam as cabeças encimadas pelos elmos.
Brunilde salta então da sua montada e coloca as rédeas sob a mão de Sieglinde, que entreabriu os seus olhos claros. "Parte no meu cavalo. Dirige-te para leste, para onde as brumas nunca se dissipam, por cima das grutas dos Nibelungos. Ali, o dragão Fafnir é o guardião do local e Odin não tem todos os seus poderes. Escaparás à sua ira."
Sob a outra mão de Sieglinde, Brunilde coloca um pano atado à volta dos restos de uma espada e acrescenta: "Um dia, o teu filho forjará de novo esta espada e triunfará. Por isso, chamar-lhe-ão Siegfried, 'o feliz vencedor', Agora parte, depressa!"
Com a palma da mão, Brunilde bate na garupa do seu cavalo, que parte a galope e desaparece a oriente.
Então, a ocidente, aparece Odin rodeado de relâmpagos, e as árvores vergam-se à sua chegada. Sobre os seus ombros, traz empoleirados dois corvos: Hugin, o Pensamento, e Munin, a Memória. Graças a eles, o deus dos deuses sabe tudo o que se passa nos nove mundos. Nada escapa à sua vigilância. Brunilde tenta esconder-se entre as irmãs. O céu escurece, a terra abre-se, os rios galgam os leitos. A voz do senhor dos céus troveja: "Brunilde, ao salvares esta mulher, desobedeceste-me. A partir de hoje, deixarás de ser uma Valquíria. Expulso-te de Valhalla. Eis o teu castigo: ficarás em cima de um monte e dormirás, indefesa para todo o sempre. E se as tuas irmãs não fugirem da tua presença, a desgraça recairá sobre elas!"
Brunilde toma então a palavra: "Pai, aceito o teu castigo, mas peço-te um favor. Coloca o meu corpo no cimo do mais alto monte e ergue à minha volta um círculo de fogo. Dormirei e nada poderá acordar-me, a não ser talvez, um dia, o homem livre que tenha a coragem de subir essa montanha e enfrentar o fogo. Este poderá então acordar-me e será o senhor ao qual obedecerei."
Odin consente. Pouco a pouco, a sua cólera diminui. Avança e toma Brunilde nos braços. O seu coração aperta-se, pois nunca mais ela estará junto dele. Foi sempre a sua filha preferida, a mais forte, a mais bela, a que sabia aconselha-lo. Mas a lei é a lei.
Brunilde fecha os olhos e adormece. Odin transporta-a até à mais alta montanha, depois deita-a sobre um monte de musgo, contempla-a ternamente uma última vez e, com um gesto seco, fecha o seu elmo de guerreira. Então, invocando Loki, o deus do fogo, bate três vezes com a sua lança no rochedo: as chamas atiçam-se e aumentam. Ele guia-as em volta do cume, marcando o sulco onde devem ficar. Finalmente, profere a seguinte ameaça: "Quem temer a ponta da minha lança não deverá alguma vez aproximar-se deste fogo!"
    Os anos passam, sem prejudicar nem marcar o rosto da adormecida. No sopé da montanha, verificam-se muitos acontecimentos. Nasce uma criança. Cresceu. Uma espada é novamente forjada. Um dragão sucumbe à sua lâmina. E um heróis chamado Siegfried, cuja mãe morrera ao dar-lhe a vida, procura a sua alma gémea...
    É guiado por uma ave cujo canto compreende. Vai caminhar durante muito tempo sem sentir fadiga. Nada o assusta. Nem os homens, nem os anões, nem os gigantes, nem sequer Odin. É livre. Segue a ave, sobe a montanha e vê o círculo de fogo. Avança e penetra nas chamas e não sente a queimadura sobre a pele. Através da cortina de fogo, vê uma silhueta brilhante. Avança e atravessa o círculo, sobe até ao promontório. Delicadamente, levanta a viseira do elmo. Lentamente, afasta o escudo. Então, pela primeira vez, sente o coração a apertar-lhe de medo. Quem é esta mulher, bela entre as mais belas, que dorme um sono tão profundo? Não sabe. Debruça-se, os seus lábios afloram outros lábios e, por cima dele, a ave canta.
    Docemente, Brunilde abre os olhos e sorri-lhe...»

Fabulosos Mitos e Lendas de Todo o Mundo, Reader's Digest, 2010

    

Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...