03/12/2015

Atlântida


«Naquele tempo de sabedoria, em que mortais e imortais viviam lado a lado, o grande Zeus e todos os deuses reunidos decidiram partilhar entre si os territórios do planeta para ali criarem mundos à sua imagem, erguerem templos e enaltecerem o seu culto com grandiosas realizações. 
A Poseidon, o poderoso senhor dos oceanos titânicos, calhou a Atlântida. Era uma ilha tão gigantesca como a Ásia, o continente do meio, cujo nome se confundia com o das ondas infinitas que o rodeavam. Os marinheiros desse tempo acediam àquele imenso território pelas colunas de Hércules, muito para lá do estreito de Gibraltar, passando do mar interior para o exterior...
Nessa terra soalheira e fértil, o deus dos Mares decidiu criar os filhos que tivera com Clito, uma simples mortal. Estes filhos gerariam os seus filhos, que povoariam a ilha da felicidade para todo o sempre. Clito era filha de Evanor, um homem honesto e justo, e da doce Leucipe, sua esposa, e cresceram naquelas paragens ainda selvagens, tornando-se mais bonita a cada dia que passava. Esta bela jovem e o deus dos Mares haviam tido um filho magnifico, o grande Atlas, fundador do reino, e outros nove rapazes. As gerações de reis e rainhas que se lhes seguiram fizeram da Atlântida um maravilhoso império, onde a opulência e a harmonia andavam a par. A ilha era constituída pos vastas planícies verdejantes e uma alta montanha, Atalante, no topo da qual o olhar dos curiosos se perdia nas profundezas oceânicas. Os filhos de Poseidon e os seus descendentes dividiram o território em dez partes iguais. 

Nascentes de águas frias e nascentes de águas quentes tornavam a pele mais suave e a vida mais doce. Metais nobres, como o ouro, o chumbo, o bronze, o estanho e, sobretudo, o oricalco, desconhecido em qualquer outro lado, estavam na base de jóias luxuosas e decorações sumptuosas para os dez palácios magníficos de uma beleza resplandecente, à imagem do próprio deus que havia povoado esta parte da Terra.
Era o lugar da magnificência e das virtudes, da abundância e da serenidade. As divindades sentiam-se à vontade por todo o lado, nas florestas luxuriantes e nas colinas ondulantes, que se harmonizavam com o traçado do litoral, orlado de rochas brilhantes. Homens e animais partilhavam os grandes espaços de uma terra de equilíbrio que lhes fornecia as ervas, os cereais e os materiais para erigir as bases de uma civilização respeitadora dos outros. Nas dez capitais dos dez reinos gémeos, erguiam-se palácios e construíam-se portos para controlar e proporcionar abrigo nas costas agrestes.
O culto de Poseidon, instituído por Atlas, seus irmãos e descendentes - e por todo o povo atlante, ligado à glória do deus fundador - marcava o ritmo da vida quotidiana. No grande templo da cidade-mãe, realizava-se anualmente o sacrifício de um touro bravo. Capturado e depois degolado, o animal espumante de fúria simbolizava o vigor do deus dos Mares. No centro da grande urbe circular, fundada pelo filho mais velho de Clito e de Poseidon, era patente o poder das divindades na organização da cidade, construída sobre uma majestosa elevação rodeada de canais navegáveis. Assim, o mar penetrava até ao interior da cidade, que acolhia de bom grado a presença salgada do senhor dos oceanos.
Os nomes dos irmãos de Atlas resumiam bem a natureza da próspera Atlântida, desejada e protegida pelos deuses. Eumelos evocava os ricos rebanhos de ovelhas, e Amfares sublinhava a justeza de um governo bem dirigido. Evaimon ("nascido de boa raça") lembrava a sua origem divina, e Autóctonos afirmava a opção de enraizar este povo e os seus reis nesta terra, berço do seu nascimento. Se Diaprepes era sinónimo de magnificência, e Mestor, de conselheiro, Azaes, com a sua pele escura, evocava as diferenças e a diversidade. Mas os nomes dos dois últimos irmãos de Atlas antecipavam o futuro dos Atlantes: Elasipos dominava já os cavalos, e Mneseas convidava à cobiça, até mesmo à cupidez...
Naquele tempo, os Atlantes eram ainda seres nobres e virtuosos, pouco dados à ganância, apesar da extensão das suas possessões. Bem tratados pela vida, aceitavam igualmente as restrições que ela lhes apresentava e evitavam a inveja e a cobiça. Ligados à sabedoria e à verdade nas suas relações e nos seus pensamentos, cultivavam os amenos princípios de uma humanidade nascida do pacto feito entre as divindades fundadoras. Qualquer que fosse o seu nível, o atlante, de natureza sóbria, era senhor de grande autodomínio e nunca se furtava aos seus deveres. A propriedade de bens materiais não maculava ainda nem a sua moral nem as suas virtudes.
Tudo poderia ter continuado nesta harmonia e serenidade, mas eis que um dia, durante as cerimónias ao deus fundador, três sacerdotes tomaram a palavra.
"Falamos e nome de todos os guardiães dos templos do nosso vasto império. Na verdade, temos sido presa de sonhos cada vez mais sombrios", começou o primeiro.
"Desde há algum tempo, ó povo atlante, tens feito passar o amor pela riqueza à frente do amor pelo teu semelhante. E riqueza sem virtude não é mais do que a ruína da alma! Ela conduz à avareza, à crueldade. Depois a brutalidade e a indecência tornam-se numa segunda natureza", acrescentou o segundo.
"Toma cuidado, ó povo atlante! Conserva a razão e respeita as tuas origens divinas!", concluiu o terceiro.
Infelizmente, a funesta predição concretizou-se. De tanto conviverem com mortais de baixo moral, os descendentes de Poseidon foram-se deixando corromper pouco a pouco. Quanto maior a sua prosperidade, mais se tornavam invejosos, lascivos, vulgares. A sua natureza original foi sendo substituída pelos mais vis sentimentos. Os que ainda davam importância às virtudes  e à herança divina tentaram que os seus conterrâneos se acautelassem, mas em vão. Os corações e as almas desfeavam-se. A vida pacífica do povo oceânico tornava-se uma competição tornava-se uma competição de orgulhos, de inveja e sede de dominação. Desapareciam a candura e a generosidade reconhecida aos Atlantes. Os velhos sacerdotes que haviam tentado refrear estes malignos entusiasmos foram mortos, vítimas da incompreensão e da dúvida.
Invejosos, indecorosos, conquistadores e vaidosos, os Atlantes passaram a ser temidos em todo o Mundo. Tornaram-se guerreiros sanguinários que apenas pensavam em possuir e conquistar. Com o decorrer dos tempos, todas as terras ao seu alcance sofreram os seus ataques. De armas em riste, os Atlantes apoderaram-se de África e de uma grande parte da Europa. Só o povo dos Helenos, na altura comandados por Atenas, resistiram aos terríveis invasores. Ávidos de conquistas e de destruição, Atlantes e Atenienses acabaram por se assemelhar, esquecidos dos valores fundadores das suas raças. Os deuses tinham deixado de ser os seus exemplos para lhes servirem de álibi para matar ainda mais, despojar e destruir todo o tipo de relações humanas. Os gládios substituíam os oráculos, as preces davam lugar aos gritos de guerra dos combatentes embriagados pela glória.
Os deuses não podiam tolerar o declínio da sua criação. Nem ousavam imaginar o futuro daqueles que os tinham querido moldar à sua imagem. Então, vendo o mau caminho que haviam tomado os Atenienses e os Atlantes, Zeus reuniu os deuses num lugar somente deles conhecido, no centro do Universo. A voz do senhor do Olimpo trovejou: "Quero expulsar aqueles que perverteram a nossa obra. Quero mostrar que, sem sabedoria, a força e a cupidez têm que desaparecer para sempre dos céus, dos mares e da terra. É conveniente castigar estes orgulhosos para que os outros mortais retomem o caminho das virtudes! Muitos são aqueles que em breve serão destruídos e os seus bens aniquilados..."
Sentado junto dos outros deuses, Poseidon mantinha-se em silêncio. Sabia-se impotente, sabia também que era justo o que Zeus dizia. Sabia o que acontecera ao seu sonho e admitia por fim a necessidade do que seria desencadeado pela cólera de Zeus.
Num dia e numa noite, a Terra ferveu. As águas elevaram-se, os rios transbordaram, as montanhas desmoronaram-se com terrível fragor. Na confusão da última batalha corpo a corpo, Atlantes e Atenienses arrancavam-se os corações, decepavam os membros e deliciavam-se com o sangue das suas vítimas.
Zeus castigaria uns e outros simultaneamente. O planeta inteiro tremeu uma primeira vez, e vastos territórios destroçaram-se como frutos demasiado maduros. Novos estremecimentos da crusta terrestre romperam o equilíbrio entre o líquido e o sólido. Um impressionante maremoto varreu o mar Mediterrâneo, afogando em segundos os exércitos que se destruíam mutuamente. A água engoliu o campo de batalha e dispersou os corpos vindos do país dos Helenos e da Atlântida. Os fogos ardam indiscriminadamente. Por todo o mar Egeu, os vulcões entraram em erupção e as ilhas desapareciam em instantes sob as águas. Os guerreiros gregos sucumbiam sem um gemido; quanto aos soldados e chefes atlantes que, sedentos de poder, haviam querido apoderar-se de Atenas, morriam aos milhares nas ondas furiosas, sem saber que o seu país estava a ser castigado nesse mesmo momento.
Longe, para lá das colunas de Hércules que separam os dois mundos, todo um continente ia desaparecer. As dez majestosas cidades erguidas por Atlas e pelos irmãos já não passavam de um conglomerado de pedras sobrepostas e ruínas fumegantes, onde a morte ceifava sem piedade os últimos sobreviventes. Os três grandes portos da Atlântida e as suas bacias de pesca não passavam de buracos onde as ondas oceânicas irrompiam com força decuplicada. As muralhas que circundavam as belas cidades rasgavam-se como velhos pergaminhos; a montanha afundava-se à vista, desaparecendo num insignificante monte de cinzas. Os grandes canais de Atlantis pareciam marmitas assustadoras cujas águas consumiam a carne dos homens e dos animais.
A Terra tinha enlouquecido, e Poseidon assistia tristemente à destruição da sua obra. Era necessária e ele aceitava-a. Mais, o deus dos Mares soprou sobre as ondas, associando-se à cólera mortífera dos seus pares - Zeus assim decidira, e pouco a pouco a Atlântida cobria-se de água por todos os lados. O traçado do litoral desvanecia-se, as ondas furiosas engoliam os rochedos, cidades e campos engoliam-se a si mesmos. A grande montanha de neves eternas que se erguia sobre a cidade de Atlantis desaparecera, tal como as dez cidades radiosas. Então, com um sopro extraordinário, Poseidon levou até às últimas consequências a vingança das divindades contra os mortais corrompidos. Como uma jangada perdida, como uma casca de noz desamparada, o imenso continente desapareceu inteiro sob a superfície das águas. Seguiu-se um estrondo inimaginável, um fervilhar demoníaco, turbilhões de vagas gigantescas. Depois, lentamente, o oceano Atlântico recuperou a sua serenidade - os deuses do Universo estavam finalmente apaziguados.
De novo sozinho, recordando o seu amor por Clito, que originara a raça dos Atlantes, Poseidon chorou...»


Fabulosos Mitos e Lendas de todo o Mundo, Selecções Reader's Digest, 2010

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