02/12/2015

Apolo e Jacinto


A Morte de Jacinto, de Méry-Joseph Blondel
«Apolo estava apaixonadamente enamorado por um jovem chamado Jacinto. Acompanhava-o nos seus desportos, carregava as redes quando ele ia pescar, conduzia os cães ele ia caçar, seguia-o nas suas excursões nas montanhas e, por ele, negligenciava a lira e as flechas. Um dia, em que jogavam ao lançamento do disco, Apolo ergueu-o no ar e, com perícia e força, lançou-o alto e longe. Jacinto viu-o cair e, na excitação do desporto, correu para o ir apanhar, ansioso por tentar a sua mão, quando o disco saltando da terra o atingiu na cabeça. Desmaiou e caiu. O deus, tão pálido como Jacinto, levantou-o e tentou todas as suas artes para estancar a ferida e reter a vida que fugia, mas tudo em vão; o ferimento estava para além do poder da medicina. Como quando se quebra o caule de um lírio no jardim ele pende a cabeça e vira as flores para a terra, assim a cabeça do rapaz moribundo, como se demasiado pesada para o pescoço, caiu sobre os ombros. «Tu morres, Jacinto», disse Febo, «por mim roubado da tua juventude. Teu é o sofrimento, meu é o crime. Pudesse eu morrer por ti! Mas já que assim não pode ser, viverás comigo na memória e na canção. A minha lira celebrar-te-á, o meu canto contará o teu destino, e tu tornarte-ás uma flor inscrita com os meus lamentos.» Enquanto falava, Apolo viu o sangue, que jorrara para o chão que manchava a erva, deixar de ser sangue; uma flor de matiz mais belo que o Tiro cresceu, semelhante ao lírio, não fosse que este é branco argênteo e aquela é púrpura. E isto não foi suficiente para Febo; para lhe conferir maior honra marcou as pétalas com a sua dor, nelas inscrevendo «Ah!Ah!», como vemos hoje em dia. A flor tem o nome de Jacinto e com o regresso da Primavera revive a memória do seu destino.
Dizia-se que Zéfiro (o vento do Oeste), também apaixonado por Jacinto e ciumento por este preferir Apolo, soprou o disco para fora do seu curso de modo a atingir Jacinto.»

A Idade da Fábula, Thomas Bulfinch, Editora Vega, 1ª edição, 1999

Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...