03/12/2015

Ácis e Galateia

Cila era uma bela virgem da Sicília, favorita das ninfas marinhas. Tinha muitos pretendentes, mas repudiava-os a todos e ia para a gruta de Galateia dizer-lhe como era perseguida. Um dia a deusa, enquanto Cila arranjava o cabelo, ouviu a história e replicou: "Mas, rapariga, os teus perseguidores são da raça não 
descortês dos homens, que se tu quiseres podes repelir; mas eu, filha de Nereu, e protegida por um grupo de irmãs, não encontro como escapar à paixão do Ciclope senão nas profundezas do mar." Lágrimas interromperam-lhe a fala e a donzela condoída secou-as com os dedos delicados e acalmou a deusa. "Conta-me, querida", disse ela, "a causa da tua dor". Galateia contou então: "Ácis era filho de Fauno e de uma Náiade. O pai e a mãe amavam-no intensamente mas o amor deles não era igual ao meu. O belo jovem só se apegava a mim, e tinha apenas dezasseis anos, uma penugem começando só então a escurecer-lhe a face. Tanto quanto eu procurava o convívio com ele, tanto assim o Ciclope procurava o meu, e se me perguntares qual dos dois era maior, o meu amor por Ácis ou o meu ódio por Polifemo, não te saberei dizer, eram em igual medida. Ó Vénus, quão grande é o teu poder! Este feroz gigante, o terror dos bosques, a que nenhum infeliz estrangeiro escapou incólume, que desafiou o próprio Júpiter, aprendeu a sentir o que era o amor e, atingido com uma paixão por mim, esqueceu os seus rebanhos e as suas cavernas ricamente fornecidas. Pela primeira vez começou a tomar cuidado com a sua aparência, tentando tornar-se agradável; alisou aqueles rudes caracóis dele com um pente e ceifou a barba com uma foice, olhou os desagradáveis traços na água e tentou compor a sua figura. O gosto por carnificinas, a ferocidade e a sede de sangue não mais prevaleceram e os navios que se abeiravam da sua ilha partiam em segurança. Caminhava de cima para baixo ao longo da costa, imprimindo um enorme trilho com o pesado andar e, quando cansado, ficava tranquilo na sua caverna.
"Existe um penhasco que se projeta no mar que o banha de cada lado. Aí subiu o enorme Ciclope e sentou-se enquanto os rebanhos se espalhavam à volta. Poisando o cajado que teria servido como mastro para a vela de um navio e pegando num instrumento composto de numerosos tubos, fez as colinas e as águas ecoarem a música da sua canção. Mantive-me escondida debaixo de uma rocha ao lado do meu amado Ácis, ouvindo a melodia distante. Estava repleta de extravagantes elogios da minha beleza, misturados com apaixonadas queixas quanto à minha frieza e crueldade.
"Ao acabar, levantou-se e como um touro enraivecido que não pode estar quieto, vagueou pelos bosques. Ácis e eu não pensávamos mais nele, até que subitamente ele chegou a um lugar que lhe deu uma vista de nós sentados. 'Vi-vos', exclamou ele, 'e farei deste o último dos vossos encontros amorosos'. A voz era um rujido como só um Ciclope irado pode fazer. O Etna tremeu com o som. Eu, subjugada pelo terror, mergulhei na água. O Ácis virou-se e fugiu gritando: 'Salva-me Galateia, salvem-me meus pais!' O Ciclope perseguiu-o e arrancando uma rocha da encosta de uma montanha atirou-a sobre ele. Embora só um canto o atingisse, arrasou-o completamente.Tudo o que o destino deixou em meu poder fiz por Ácis. Conferi-lhe as honras de seu avô, o deus-rio. O sangue vermelho jorrou de debaixo da rocha mas gradualmente empalideceu e tornou-se como a corrente de um rio tornado turvo pelas chuvas, clarificando-se com o tempo. Na rocha fendeu-se uma abertura e a água, ao jorrar pela brecha, proferiu um agradável murmúrio."

Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...