07/12/2015

A torre de Babel

«Sob o calor esmagador do sol, Erez sofre. Sofre como todos os dias que Deus cria, como sofria ontem, como sofrerá amanhã... Só a esperança da noite, com a frescura e o repouso demasiado breve que ela há-de trazer, o sustenta...Tem o corpo dorido, os músculos em fogo, o suor perla-lhe a testa e s ombros. Como ele, há milhares que andam para trás e para diante sem parar, obreiros de uma obra da qual não compreendem verdadeiramente a utilidade. Mas também não lhes cabe deterem-se em conjeturas: a sua única tarefa é avançar, carregando ou puxando a sua pesada carga de tijolos, largar a carga, voltar ao ponto de partida e recomeçar...
Sobre a planície de Chinear, há gente vinda de todo o lado. Aqueles ali são filhos de Hadoram, de Abimäel ou de Seba, de Sídon ou de Heth, de Asquenaz ou de Kittim, de tantos outros ainda, mas todos eles linhagem de Noé e de seus filhos. Com eles estão também outros homens originários de terras longínquas. As mulheres ajudam, as crianças descobrem tarefas à medida das suas forças e os velhos têm sempre uma palavra de encorajamento ou um conselho para oferecer. Todos os povos, todas as nações, estão aqui representados. Todos participam numa obra que ninguém sabe dizer quando terminará, uma construção louca, inimaginável e sem dúvida ferida de vaidade: a edificação de uma cidade em cujo centro se elevará uma torre até ao céu!

Erez é por vezes assaltado pela dúvida: porquê? Para quê? A ideia foi dos homens bons - ou dos que aparentam sê-lo - e dos sábios, que conceberam o projeto e implementaram os meios para o executar. Para os primeiros, é uma forma de se aproximarem de Deus; para os segundos, um desafio que há-de revelar o poder dos homens. Mas o que pensa Tsidkiel, aquele velhote que está sentado lá em baixo e que parece não ter idade? Ele quase não ousa dize-lo, mas também ele tem dúvidas. Conhece bem demais os homens para ignorar a sua vaidade, e conhece Deus bem demais para não temer a Sua cólera...
Naturalmente, está maravilhado com tanto afinco, tanta habilidade, tanta perseverança. Mas não será também uma manifestação de vaidade? Um desejo de afirmar um poder quase divino? Tsidkiel olha de novo o estaleiro. à sua volta, as ordens voam, nítidas, precisas, eficazes. O velhote admira o bom andamento do trabalho, a unidade e harmonia que reinam entre todos.
Por trás dos alicerces da torre, enorme pirâmide circular onde se desenham já os primeiros terraços concêntricos e rampas de acesso, o Sol termina o seu percurso. Esgotado, Erez dá por acabado o seu dia de trabalho. Ele e os companheiros trocam algumas palavras sobre a forma como decorreram as tarefas do dia. Não procura sequer saber quem são, de onde vêm: são seus irmãos, fazem o mesmo trabalho, falam a mesma língua. Rapidamente, após uma refeição frugal, todos mergulham num sono profundo. Alguns regressam às suas tendas, outros preferem dormir sob a abóboda celeste. Amanhã, a torre crescerá mais alguns metros.
De madrugada, quando o Sol surge de novo, Erez volta ao seu posto. Junto das pedreiras, ele vai buscar as pedras e os tijolos que irão ornamentar as portas ou as janelas da torre. Mas ao chegar aos primeiros terraços, vê o seu caminho barrado por uma multidão. Para sua grande surpresa, o estaleiro parece parado. O que provocou este ajuntamento? Que se passa? Tal como os outros, Erez larga o seu carregamento, observa, escuta. A confusão é grande, mas ele acaba por avistar os dois protogonistas do incidente: um mestre pedreiro e um operário, que claramente já não conseguem compreender-se! Um quer explicar ao outro como colocar a pedra e, obstinadamente, o segundo persevera fazendo gestos que não convencem o primeiro... A tensão cresce, as pessoas enervam-se. A situação é estranha, já que ambos parecem estar de boa fé... Dir-se-ia que o operário, também ele, no entanto, da descendência de Noé, não fala a mesma língua que falava antes!
Na assistência, muitos concordam e confirmam: "Sim, é isso, da sua boca sai uma língua desconhecida!"
Rapidamente, até às estremas do estaleiro, os que conseguem ainda fazer-se entender transmitem a notícia. Entre os anciãos, a inquietação aumenta, e aumenta todos os dias um pouco mais quando os incidentes deste tipo começam a multiplicar-se... E os mais atentos notam que, quanto mais a torre cresce, mais numerosos são os incidentes...
Em breve, na planície de Chinear é a cacofonia total. Cada vez com maior frequência. Cada vez com maior frequência, com o risco de serem mal-entendidas, as pessoas usam gestos... Os homens bons, ao serem consultados, pronunciam-se: "Só Deus, o Criador, pode ter desejado esta situação!" "Desejado?", retorquem outros. "Seguramente que não! No pior dos casos, permitido... Pois isto não pode ser outra coisa senão obra do Maligno..." Assim, mesmo entre os que detêm o conhecimento, instala-se a discórdia...
No estaleiro, o ritmo do trabalho ressente-se: tudo avança mais lentamente, a argamassa já está seca quando chegam os tijolos, que, de qualquer forma, já não se ajustam tão bem! As paredes não crescem e o céu continua longe... Que vai acontecer à torre? Vêem-se já operários que abandonam o estaleiro para seguir os que falam a mesma língua! Cansados, partem para terras distantes...
Sempre um pouco afastado, sentado numa rocha de onde consegue avistar quase toda a planície, o velho Tsidkiel tem agora a certeza: acabou a harmonia universal e a paz entre os homens. Não falar a mesma língua que os outros é estar separado deles. E apenas Deus pôde querer uma coisa dessas. Foi sem dúvida um castigo divino, enviado pelo Senhor para punir os que, querendo alcançar o céu, tiveram a audácia de acreditar que todos os seus desejos seriam realizáveis! "E, contudo", murmura o velho, " tinha um nome tão belo, esta torre... Chamavam-lhe Babel, Bab-Ili, 'a porta de Deus'..."»



Fabulosos Mitos e Lendas de Todo o Mundo, Selecções Reader's Digest, 2010

Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...