03/12/2015

A morte de Baldur




Baldur, o Bom, tendo sido atormentado com sonhos terríveis  indicando que a sua vida estava em perigo, contou-os à assembleia dos deuses, que resolveram conjurar todas as coisas para dele desviar o perigo ameaçador.
Frigga, mulher de Odin, obteve então do fogo e da água, do ferro e de todos os outros metais, das pedras, árvores, doenças, bestas, pássaros, venenos e coisas rastejantes, um juramento que nenhum deles causaria algum mal a Baldur.
Odin, não satisfeito com tudo isto, e sentindo-se alarmado com o destino do seu filho, determinou-se a consultar a profetisa Angerbode, mulher gigante, mãe de Fenris, Hela e da serpente de Midgard. Ela estava morte e Odin viu-se obrigado a procurá-la nos domínios de Hela.
Mas os outros deuses, sentindo que o que Frigga fizera era mais que suficiente, divertiram-se a usar Baldur como Baldur como alvo, lançando-lhe dardos, outros pedras, enquanto outros o cortavam com espadas e machados de guerra, pois fizessem o que fizessem ninguém lhe podia causar dano. Este tornou-se um passatempo favorito entre eles e era visto como uma honra prestada a Baldur.
Loki, porém, vendo a cena, sentiu-se vexado por Baldur não ser ferido. Assumindo pois a forma de uma mulher, dirigiu-se a Fensalir, a mansão de Frigga. Aquela deusa, ao ver a suposta mulher, perguntou-lhe se ela sabia o que os deuses faziam nos seus encontros. Ela respondeu que eles atiravam dardos e pedras a Baldur, sem serem pazes de o ferir. «Sim». disse Frigga, «nem pedras, nem paus, nem nenhuma coisa pode ferir Baldur, pois eu extorqui um juramento de todos eles.» «O quê?!», exclamou a mulher. «Juraram todas as coisas poupar Baldur?» «Todas as coisas», retorquiu Frigga, «excepto um pequeno arbusto que cresce na parte Este de Valhalla e se chama Visco, e que eu achei demasiado jovem e fraco para dele exigir um juramento.»

Assim que Loki ouviu isto foi-se embora e, reassumindo a sua forma natural, cortou o visco e voltou ao lugar onde os deuses estavam reunidos. Encontrou aí Hodur, à parte, sem participar nos desportos devido à sua cegueira e, indo ter com ele, disse: «Porque não atiras tu também alguma coisa a Baldur?» «Porque sou cego», respondeu Hodur, «não vejo onde está Baldur e além disso não tenho nada para atirar.»
«Anda, vem então», disse Loki, «Faz como os outros, honra Baldur atirando-lhe este raminho e eu mesmo dirigirei o teu braço para o lugar onde ele se encontra.»
Hodur pegou no visco e, sob a direcção de Loki, lançou-o a Baldur que, totalmente atravessado, tombou sem vida.
Seguramente que nunca fora visto, entre deuses ou homens, uma acção mais atroz do que esta.
Quando Baldur caiu, os deuses ficaram mudos de horror, olharam uns para os outros e o seu pensamento foi unânime, que foi o de se lançarem contra quem tinha praticado a acção, mas foram obrigados a adiar a vingança por respeito ao local sagrado onde se encontravam. Deram largas à sua dor com sonoras lamentações. Quando os deuses se recompuseram, Frigga perguntou-lhes quem, de entre eles, desejava ganhar todo o seu amor e boa vontade. «Pois essa», disse ela, «será a recompensa daquele que cavalgar até ao Inferno e oferecer a Hela um resgate se ela deixar Baldur regressar a Asgard.» Ao que Hermod, de cognome o Ligeiro, filho de Odin, se ofereceu para empreender a viagem. O cavalo de Odin, Sleipnir, que tem oito pernas e que consegue ultrapassar o vento, foi então apresentado e nele Hermod montou a galopou na sua missão. Pelo período de nove dias e nove noites cavalgou por profundos vale estreitos e tão escuros que nada conseguia discernir, até que chegou ao rio Gyoll, que atravessou passando por uma ponte de ouro cintilante. A rapariga que guardava a ponte perguntou-lhe o nome e a linhagem, dizendo-lhe que no dia anterior cinco bandos de mortos tinham passado a ponte e não a tinham abanado tanto quanto ele sozinho. «Mas», acrescentou ela, «tu não trazes o matiz da morte; porque cavalgas então a caminho do Inferno?»
«Cavalgo para o Inferno», respondeu Hermod, «à procura de Baldur. Viste-o tu por acaso passar por ete caminho?»
Ela respondeu: «Baldur passou sobre a ponte de Gyoll, e além fica o caminho que ele tomou para a morada da morte.»
Hermod prosseguiu a sua viagem até chegar aos portões gradeados do Inferno. Aí desmontou, cingiu a cela mais firmemente e, voltando a montar esporeou o cavalo, que com um tremendo salto galgou o portão sem lhe tocar. Hermod dirigiu-se em seguida ao palácio, onde encontrou o irmão Baldur a ocupar o assento mais distinto no salão e passou a noite na sua companhia.
Na manhã seguinte implorou a Hela que deixasse Baldur partir com ele, assegurando-lhe que só lamentações seriam ouvidas entre os deuses. Hela respondeu que deveria ser testado se Baldur era tão amado como se dizia. «Se», disse ela, «todas as coisas no mundo, vivas e sem vida, chorarem por ele, regressará ele à vida; mas se alguma coisa falar contra ele ou se recusar a chorar, será mantido no Inferno.»
Hermod cavalgou então de regersso a Asgard e fez um relato de tudo o que ouvira e vira.
Os deuses ao ouvirem-no, enviaram mensageiros por todo o mundo pedindo a todas as coisas que chorassem de modo a libertar Baldur da morte. Todas as coisas acederam de boa vontade a este pedido, tanto homens como outros seres vivos, assim como terras, pedras, árvores e metais, do mesmo modo que vimos todas estas coisas chorar quando são levadas de um local frio para um quente.
Quando os mensageiros regressavam encontraram uma velha bruxa de nome Thaukt, sentada numa caverna, e pediram-lhe para chorar por Baldur para que saísse do Inferno. Mas ela respondeu:

Thaukt chorará
Com secas lágrimas
O fogo da miséria de Baldur
Que Hela guarde o que é dela.

Houve fortes suspeitas de que esta bruxa era o próprio Loki, que nunca cessou de causar dano aos deuses.
Baldur foi assim impedido de voltar a Asgard.



A Idade da Fábula, Thomas Bulfinch, Assírio Bacelar Ediores, 1999



Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...