03/12/2015

A maldição dos Átritas

«Envergando vestes escuras e com uma lanterna na mão, o vigia da noite percorre as ruas escarpadas de Micenas arengando a quem passa: "Ouçam a trágica história da raça soberana, os Átridas! Em toda a Grécia e além-mar, todos conhecem a maldição divina que pesa sobre o rei Tântalo, filho de Zeus, e as provações que sobre ele e a sua descendência fez recair o seu próprio criador. Quem sabe se amanhã os deuses mostram maior clemência e anulam a sua sentença? Os netos de Tântalo, o rei Atreu e o seu irmão Tiestes, deverão finalmente reconciliar-se!"
Há anos que a desgraça se abateu sobre a região por culpa do arrogante Tântalo, rei da Lídia. Certo dia, quis pôr os deuses à prova e testar a sua omnisciência. Durante um banquete, as divindades atacavam o prato principal quando perceberam , horrorizadas, que os pedaços que boiavam no molho acastanhado de um estufado eram provenientes da cabeça, dos braços, das pernas, do coração e do fígado de um homem! Reconheceram Pélops, filho do rei, cozinhado e disposto sobre grandes travessas de estanho. Não podendo suportar tal profanação, os deuses em assembleia decidiram devolver a vida a Pélops e condenar Tântalo ao suplício da tentação eternamente insatisfeita.
"Infelizmente, Pélops tornou-se por sua vez ator da maldição... E foi à traição que conseguiu obter a mão da bela Hipodâmia para se apoderar do seu reino e escravizá-lo. De tal união só poderiam nascer seres desprezíveis e invejosos: os gémeos Atreu e Tiestes, unidos no mal e obcecados pelo apego ao poder, que assassinaram o irmão mais novo e depois se viraram um contra o outro para ver qual dos dois viria a ser rei...", continua o vigia da noite.
Subitamente, a narração é interrompida por gritos... Os criados precipitam-se para a entrada do palácio: o senhor está a chegar. Envolvido num manto cor de púrpura, Atreu avança de semblante carregado. Convoca a sua guarda e, avançando para o indiscreto vigia, ordena: "Matem este atrevido! A sua conversa aborrece-me...!" Com um golpe de espada, um dos guardas executa a ordem. Satisfeito, Atreu retoma a palavra: "Meus amigos, o oráculo designou-me como soberano de Micenas. Foi Hermes que atiçou o ódio entre mim e o meu irmão. No rebanho do meu pai, que deveríamos partilhar por sua morte, Hermes colocou um cordeiro com velo de ouro. Sendo eu o primogénito, o reino e o velo de ouro deveriam caber-me. No entanto, o velhaco do meu irmão não aceitou! Para atingir os seus fins, seduziu a minha própria esposa e convenceu-a a roubar o velo de ouro quando o animal fosse sacrificado... Tiestes roubou a minha riqueza e quis ser ele o rei! Felizmente Zeus veio em meu auxílio! Para escapar à minha ira, o meu irmão fugiu da cidade, deixando para trás o seu quinhão da herança e os seus filhos a meu cargo. Castiguei Hipodâmia, que me atraiçoou, como é meu legítimo direito de esposo. Mas ficai sabendo que perdoo ao meu irmão. Amanhã, honrarei Tiestes com o maior banquete para que nos reconciliemos!"
No dia seguinte, todo o palácio está iluminado por cem tochas, empunhadas por outros tantos escravos. As colunatas e os peristilos foram atapetados a ouro fino. As mesas, colocadas ao ar livre no terraço real, no topo da escadaria de mármore branco. O povo assiste, emocionado. Espera-se que a maldição de Tântalo tenha ali o seu fim... Os tambores rufam, as trompas ressoam, a alegria parece finalmente ter regressado a Micenas... Montando um corcel negro, Tiestes saúda a multidão, que o aclama como um deus quando ele entra no palácio de Atreu. Surgem escudeiros que ajudam os convidados a desmontar. Do alto da escadaria, Atreu cumprimenta: "A paz esteja contigo, meu irmão! Festejemos o nosso reencontro! Senta-te à minha mão direita..." Instalados a mesa, Tiestes e os seus homens regalam-se com as iguarias raras que lhes são servidas. Uma verdadeira procissão de criados traz ininterruptamente novos pratos. Atreu está exultante: "provem de tudo! Bebam hidromel e vinho resinoso até se saciarem..."
Gratificado por tantas honrarias, Tiestes levanta-se e agradece ao irmão, acrescentando: "Os meus filhos, que criaste aqui, em Micenas, já devem estar crescidos... Como estão eles? Aceitarás, Atreu, mandá-los chamar à mesa?"
"Naturalmente. Aliás, a nossa refeição acaba com a vinda deles!"
Então, várias escravas chegam transportando duas grandes travessas de prata. Subitamente, ouvem-se gritos dos convidados. Lívidos, os seus rostos parecem máscaras, e o horror e o medo atacam à mesa do reencontro.
"O que trazem estas mulheres?" grita Tiestes, pressentindo um drama iminente... à sua frente, sobre a grande mesa, as cabeças dos filhos adornam as duas travessas de prata! "Que fizeste tu dos meus filhos?", brada Tiestes, louco de dor.
"Não adivinhas?"", responde Atreu tranquilamente, "Acabaste de os comer".

Ao ouvir aquilo, os homens de Tiestes saltam de um lado e do outro das grandes mesas, de espada em riste prontos a vingar as crianças sacrificadas. Os guardas de Atreu ripostam e dá-se uma luta de morte, onde rivalizam a violência e a crueldade. Um pouco à parte, uma velha criada vocifera: "Que Zeus castigue Atreu e a sua descendência. Maldito profanador que manchaste para sempre os laços filiais e traíste as leis da hospitalidade!"
Desde então, Tiestes passaria a viver apenas animado pelo desejo de vingança. Foi consultar o oráculo de Delfos, onde, bem no centro do Santuário de Apolo, a pitonisa lhe prometeu que havia de nascer um rapaz que se encarregaria de o vingar, mas que tinha uma condição prévia: Tiestes deveria concebê-lo, de rosto coberto por uma máscara, com a sua própria filha sobreviva, Pelópia...
Atreu, por sua vez também se dirigiu a Delfos, onde o oráculo o aconselhou a chamar o irmão de volta. Na estrada, poré, não é Tiestes que Atreu encontra, mas a bela Pelópia, grávida. Tomando-a por filha de outro princípe, Atreu apaixona-se perdidamente por ela, e desposa-a imediatamente, apesar do seu ventre proeminente. Alguns meses mais tarde, ela dá à luz uma criança: Egisto, o filho de ... Tiestes.
Egisto viria a matar o tio com a espada do seu verdadeiro pai - coisa que Pelópia não sabia então -, e seria essa mesma espada que ela viraria contra si própria ao ter conhecimento da identidade daquele que a tinha violentado! será necessário continuar esta terrível história dos Átridas, família amaldiçoada entre todas? Para isso teríamos de mencionar muitos outros personagens e feitos ilustres e trágicos, desde os filhos de Atreu, os reis Agamémnon e Menelau, até à bela Helena, a Clitemnestra e Ifigénia, e a todas as peripécias da Guerra de Tróia... Em resumo, um catálogo excessivamente longo das mais negras paixões humanas onde o sangue não cessa de clamar pelo sangue...»




Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...