03/12/2015

A fundação de Cartago

A princesa Elissa não tinha qualquer dificuldade em fazer-se respeitar pela tribulação, tal era a autoridade natural que dela emanava. Os seus traços, finos e aristocráticos, os olhos escuros e apaixonados e o porte altivo revelavam uma mulher orgulhosa a quem a infelicidade e o exílio voluntário pareciam ter tornado ainda mais determinada. Ela não fazia parte das que fgem por despeito ou cobardia. Tudo nela denotava a coragem, a nobreza e a certeza de quem tem um dever a cumprir. O mar estava calmo, os ventos, favoráveis, e todos viam nisso auspiciosos presságios para esquecer o drama que se havia desenrolado no Palácio de Tiro...
Alguns meses antes, depois da morte do rei Belo, a cidade fenícia estava enlutada. Segundo as leis tradicionais, o filho do soberano, o jovem Pigmalião, irmão da princesa subira ao trono. Mas para horror e surpresa geral, tinha assassinado quase imediatamente o seu cunhado, Siqueu. Só a cobiça podia explicar o seu gesto: o esposo de Elissa, grande sacerdote de Melqart, o deus-príncipe da cidade, era imensamente rico. «É um sinal, tenho de afastar-me de Tiro. De ora em diante, a minha vida está noutro lado...» Nessa mesma noite, no maior segredo, rodeada de algumas companheiras, da sua irmã, Ana, de vários soldados e de homens que se tinham mantido fiéis ao seu defunto marido, Elissa, a bordo de um grande navio, via a costa fenícia a afastar-se até se confundir com o horizonte.

O navio fez a primeira escala em Chipre. Ali, embarcaram outros passageiros, entre os quais o grande sacerdote de Astarte, a deusa protetora dos Fenícios, e 80 virgens sagradas para a servirem. Depois, o navio fez-se ao largo e continuou a viagem, rumo a sudoeste. Após muitos dias de mar, a embarcação chegou às costas de África. Por fim, África... O local parecia acolhedor, não havia falta de água, a vegetação parecia prever um solo fértil. Como a expedição não tinha qualquer objetivo belicoso, foi enviada uma delegação à procura de eventuais habitantes da zona. Habituados aos palácios e aos templos de pedra e de mármore, os emissários ficaram admirados porque, ao fim de muitas horas de marcha, apenas haviam encontrado alguns homens reunidos debaixo de amplas tendas erguidas à sombra de grandes palmeiras. Esses homens disseram-lhes que se encontravam no Reino de Syfax, chave de uma das tribos berberes que deambulavam pela região.
Hábeis negociadores, os Berberes não tardaram a aperceber-se das vantagens que poderiam obter daquele encontro. É certo que eles eram navegadores do deserto que trilhavam sem descanso as rotas terrestres, enquanto os Fenícios sulcavam os oceanos; mas todos tinham em comum um sólido sentido de comércio. Os recém-chegados queriam fundar ali uma colónia: a discussão seria, sem dúvida, árdua e prolongada...
As negociações, interrompidas durante as horas de maior calor, foram retomadas quando o Sol começou a declinar. Debaixo das tendas, as conversações não terminavam. Por vezes, longos momentos de silêncio tornavam palpável a tensão entre os negociadores. Certa tarde, um velho berbere, cuja idade deixava adivinhar a sua sabedoria, aproximou-se de Syfax e murmurou-lhe umas palavras ao ouvido. Um conselho, certamente... Mas o chefe manteve-se silencioso. Era um velho método berbere: deixar pairar a dúvida e amadurecer as coisas... Só no dia seguinte fez uma nova proposta: «Já vos dissemos que sóis bem vindos à nossa terra de África, vós que vindes da nobre cidade de Tiro, construída sob o céu do Oriente...» Uma vez mais, estes longos preliminares punham à prova a paciência dos Fenícios. «Aceitamos que se instalem no litoral... Mas os nossos sábios decidiram o seguinte: o vosso território será aquele que a pele de um boi oferecido em sacrifício conseguir cobrir no chão...»
Ao ouvirem estas palavras os Fenícios deixaram escapar uma exclamação de fúria: apenas Elissa parecia calma... até com um ligeiro sorriso a iluminar-lhe o rosto...
O sacrifício deveria realizar-se no dia seguinte de madrugada. Para os Bereberes, pastores nómadas, sacrificar um boi era um ato grave que exigia uma invulgar solenidade. Depois de morto, o animal foi eviscerado e começaram a cozinhá-lo num fogo de lenha especialmente preparado. Um pouco afastados, alguns escravos acabavam de desmembrar o animal, tendo o cuidado de não estragar a pele, que, naturalmente, devia ficar intacta. Intrigados, os Fenícios interrogavam-se sobre a justeza deste ritual: para quê entrar no jogo dos Berberes, que, manifestamente, troçavam deles com esta história da pele de boi! Como imaginar que seria possível instalar uma colónia, uma cidade e o seu porto num espaço tão exíguo? Não, decididamente não compreendia a paciência nem a submissão da princesa. Para eles não havia dúvida: era preciso continuar a viagem  e demandar outras paragens...
Terminado o repasto, a pele foi limpa, esticada ao máximo e levada até ao litoral. Ali, com uma benevolência que, apesar de tudo, fazia prever algum truque, os Bereberes deixaram a princesa escolher o local onde a pele iria ser estendida.
Uns passos mais adiante, foi escolhido um vasto espaço arenoso. A pele foi colocada no chão; no centro daquele pequeno perímetro, cabiam no máximo cinco ou seis homens. Nesse momento, Elissa dirigiu-se a um escravo que estava perto: «Homem, dá-me a tua faca!» Depois de se certificar que a lâmina estava bem afiada, aproximou-se da pele, ajoelhou-se e começou a cortá-la em tiras longas e muito finas. Entre os presentes, havia muito quem se mostrasse perplexo...
Com meticuloso cuidado, Elissa não parava de dividir e cortar... O silêncio era total, o tempo parecia suspenso, e ouvia-se apenas o som da lâmina que deslizava sobre a pele coberta de pêlo. Por fim, a princesa acabou por se erguer: à sua frente, erguia-se uma pilha de longas tiras de couro muito finas. Ela chamou então os escravos e ordenou-lhes que colocassem as tiras umas a seguir às outras, com a extremidade de uma a tocar a de outra. Imediatamente, todos compreenderam: os Berberes, que se tinham deixado enganar; os Fenícios, que tinham ganho um grande território para se instalar! Com efeito, a longa tira de pele assim disposta sobre o solo desenhava um perímetro suficientemente vasto para conter uma cidadela!
Foi assim, graças ao estratagema e à inteligência da bela Elissa, que foi possível edificar Byrsa (o Boi), coração da futura Cartago. Séculos mais tarde, os Romanos deram à princesa o nome pelo qual passou a ser conhecida: Dido, Dido de Tiro, fundadora da cidade que tanto lhes custou subjugar...



Fabulosos Mitos e Lendas de Todo o Mundo, Selecções Reader's Digest, 2010

Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...