11/11/2015

História do Pensamento Evolutivo

A evolução é um processo lento - foram precisos milhões de anos para que tantas espécies se desenvolvessem, e o Homem levou muito tempo para compreendê-la. O primeiro homem a desvendar a evolução foi Charles Darwin.

No entanto as raízes da teoria da evolução estendem-se até muito antes de Darwin. Já no século VI a.C. muitos pensadores gregos rejeitaram as explicações mitológicas vigentes na altura, do mundo, indo procurar explicações na observação da Natureza, e a origem e a evolução da vida era um dos temas mais importantes.

Empédocles (495-435 a.C.) foi um filósofo grego que idealizou uma primeira teoria da evolução. Segundo este filósofo a lama tinha dado origem à vida e as plantas ter-se-iam transformado em animais. As primeiras criaturas seriam monstruosas e deformadas, com braços ligados à cabeça, asas de aves que batiam autonomamente, pescoços de girafas que suportavam bicos de pelicanos... mas as combinações sucediam-se e, com o passar dos tempos, só os melhores animais sobreviveriam e acabaram por povoar a Terra.
Aristóteles (384-322 a.C.) defendia que os filósofos deveriam observar atentamente a Natureza e utilizar essa observação para a explicar - neste aspecto foi o precursor dos cientistas actuais. Mas considerava os seres humanos como a obra-prima da Natureza e os animais existiam para seu beneficio.
Mas para além destes, as ideias evolutivas de origem comum e de transmutação de espécies também foram examinadas pelo filósofo grego Anaximandro de Mileto (610-547 a.C), o filósofo poeta romano Lucrécio (99-55 a.C), o biólogo árabe Al-Jahiz (776-868 d.C), o filósofo persa Ibn Miskawayh (932-1030 d.C.) e o filósofo oriental Zhuang Zi (369-286 a.C).
Todas as culturas antigas tinham mitos explicativos para a origem da Terra, vida e sua evolução. Com o tempo alguns mitos perderam a sua importância e começaram a ser encarados como fábulas e não factos.
Assim como acontecia na Antiguidade, também todas as religiões da actualidade tentam dar uma explicação para a origem da vida e do Homem. No Ocidente, a mais importante é o Livro do Génesis, segundo o qual Deus criou  toda a Criação em poucos dias. Criou Adão e Eva e concedeu-lhes o Jardim do Paraíso. Humanos, animais e plantas viviam aí em perfeita harmonia. O mito apresenta-nos uma visão ideal da Natureza: ordenada, pacífica e bela.

Também a história da arca de Noé teve um grande peso no pensar. Ainda no século XIX muitos geólogos defendiam que várias inundações gigantescas haviam dado forma às montanhas e vales do planeta. Já em pleno século XXI, apesar de todas as provas em contrário, são muitos os criacionistas que defendem a sua visão da origem do mundo e da vida, através das obras de Paley e Usshen.
James Ussher (1561-1656) foi arcebispo de Armagh, na atual Irlanda do Norte. Depois de ter lido a Bíblia minuciosamente, calculou que Deus teria criado o mundo no dia 23 de Outubro de 4004 a.C. E, embora alguns cientistas duvidassem da verdade literal de certas histórias bíblicas, só muitos séculos depois é que a ciência se libertou das crenças cristãs.
William Paley (1743-1805) foi um teólogo inglês que queria provar a existência de Deus. Observou que os animais e as plantas estavam perfeitamente adaptados ao seu ambiente - os peixes eram hidrodinâmicos e, por isso, exímios nadadores e as aves possuíam asas e penas para poderem voar. Paley afirmou que toda esta admirável obra era a prova dos desígnios de um artificie superior. E que os animais que nos rodeiam só podiam ter sido concebidos por um poderoso criador: Deus.
Durante a Idade Média o ensinamento teológico do mundo era o mais aceite, e imposto, mas à medida que o conhecimento biológico aumentou no século XVIII, começaram a ser propostas ideias evolutivas por alguns filósofos como Pierre Louis Maupertuis em 1745, Erasmus Darwin em 1796 e Georges-Louis Leclerc (conde de Buffon) entre 1749 e 1778. As ideias do biólogo Jean-Baptiste Lamarck acerca da transmutação das espécies teve grande influência. 
No século XVII a ciência era já uma força forte na Europa. Inventos como o telescópio e o microscópio tinham mostrado mundos desconhecidos e demonstrado que a compreensão do mundo natural exigia observação e experimentação. Tornara-se evidente que as autoridades antigas, como a Bíblia e Aristóteles, não tinham todas as respostas; ainda assim, os cientistas da época não tinham quaisquer problemas em acreditar tanto na ciência quanto em Deus.
Mas o conhecimento não vinha só do trabalho de laboratórios. Muitos países enviaram exploradores em expedições organizadas para descobrir novas terras ou metais preciosos, sendo que um dos mais conhecidos  foi o alemão Alexander von Humboldt (1769-1859), que partiu em 1799 para explorar o rio Amazonas. A acompanhá-lo estava o botânico Aimé Bonpland que reuniu 60.000 espécies de plantas. Os seus relatos sobre criaturas exóticas inspiraram outros a ganhar a vida recolhendo plantas e animais desonhecidos em terras longínquas.
As expedições efectuadas à Amazónia, Jamaica, Indonésia e Índia fizeram com que se recolhessem inúmeros espécimes, muitos deles completamente desconhecidos.
Inicialmente não havia um sistema de classificação, tornando-se problemático fazer a comparação entre as espécies. Então, o cientista sueco Carl Lineu (1707-1778) inventou um sistema que ainda é usado actualmente. No livro Systema Naturae, Lineu atribuiu a cada espécie dois nomes latinos, em que o primeiro designava o grupo a que pertencia (o género) e o segundo era especificamente para o organismo em questão. Este "sistema binominal" permitiu estabelecer relações entre as espécies.
Também o estudo dos humanos avançava. Rompendo com a tradição de séculos em que os médicos se baseavam em textos antigos para curas tradicionais, a dissecação tornou-se mais comum, e os estudantes de Medicina começaram a aprender anatomia. Desta forma os cientistas puderam começar a fazer a comparação entre os humanos e as outras espécies e encontrar semelhanças nas suas estruturas.
No início do século XIX, os cientistas começaram a estudar fósseis. Ao mesmo tempo os naturalistas continuavam a recolher novas espécies de animais e plantas para os museus de História Natural e jardins zoológicos. Com este frenesim científico começaram a surgir novas ideias. Os fósseis revelavam que muitos animais já tinham sido extintos e que, de tempos a tempos, tinham surgido outros novos. No entanto, durante muito tempo a Igreja Cristã tinha transmitido duas crenças básicas sobre a vida na Terra: a de que Deus tinha criado de uma só vez todos os seres no mundo e a de que o mundo era muito recente.  Estas duas crenças foram contestadas pelo biólogo francês Lamarck e pelo geólogo inglês Sir Charles Lyell. 
A teoria de Lamarck, de 1809, foi controversa. O cientista explicava as semelhanças entre os diferentes animais sugerindo que a vida tinha-se iniciado a partir de simples vermes e que havia uma tendência natural para a evolução no sentido de organismos cada vez mais complexos. Esta força evolutiva teria dado origem aos mamíferos e até mesmo aos humanos. A ideologia de Lamarck continua a ser o centro das teorias modernas de evolução, no entanto, os cientistas não aceitaram a ideia de que os diversos órgãos mudassem conforme de adaptassem ou não ao ambiente.
À medida que centenas de cientistas amadores iam classificando um número cada vez maior de animais, plantas e fósseis, tornou-se evidente que a evolução era um facto, apesar de não haver ainda qualquer prova concreta da "fonte da origem da vida" de Lamarck. A investigação prosseguiu em busca de uma explicação mais simples da evolução. Sir Charles Lyell (1797-1875) deu um passo em frente nesta matéria ao apresentar provas de que o mundo era mais antigo do que se imaginava.
Na obra Princípios de Geologia (1830), Lyell mostrou que a Terra era muito mais antiga do que se julgava. Lyell defendeu que o mundo ganhava forma essencialmente através dos rios e dos "fogos subterrâneos" que o vão transformando gradualmente.
Foi com estas bases que surgiu Charles Darwin.
Começou por estudar Medicina, mas não conseguia suportar a dissecação dos corpos humanos e o teatro cirúrgico, onde os doentes eram abertos sem anestesia. Por isso, em 1828, mudou de curso e foi para a Universidade de Cambridge estudar Teologia.  Só gostava de uma área – História Natural. Nos seus longos passeios pelo campo recolhia muitos animais, sobretudo escaravelhos. O jovem Darwin sabia que o seu talento residia na Ciência, mas no fundo ainda tinha grande esperança de vir a ser padre. No entanto, para sua alegria, foi salvo por uma carta da Marinha Real Britânica, que o convidava a integrar numa expedição científica à volta do mundo. Darwin aceitou o cargo de naturalista a bordo do HMS Beagle e a sua vida mudou para sempre.
Darwin e o Beagle partiram de Plymouth em 1831. Quando partiu de Inglaterra, Darwin acreditava no relato bíblico do Génesis. Mas à medida que o Beagle percorria o mundo, foi mudando de opinião. Na América do Sul, encontrou fósseis gigantescos de animais extintos e percebeu como é que os animais tinham mudado ao longo dos tempos. As suas colecções também revelavam semelhanças entre animais de continentes separados. Darwin começou a imaginar um mundo em constante evolução.

Passou bastante tempo em terra a explorar a geologia e os animais e as plantas locais. Quando regressou a bordo, os seus aposentos eram demasiado pequenos para guardar todas as suas descobertas. Enviou-as, então, dentro de caixas para alguns cientistas amigos. Darwin também lhes enviou um diário com as suas experiências. Quando chegou a Inglaterra em 1836, Darwin, o naturalista, já era famoso.

Charles Darwin elaborou a ideia de selecção natural em 1838 e ainda se encontrava a trabalhar nela quando Alfred Russel Wallace lhe enviou uma teoria semelhante, tendo ambas as teorias sido apresentadas na Linnean Society of London em dois artigos separados. No final de 1859, a publicação de A Origem das Espécies por Charles Darwin, explicava a selecção natural em detalhe e apresentava provas que levaram a uma aceitação cada vez mais geral da ocorrência da evolução.
O debate sobre os mecanismos da evolução continuaram, e Darwin não foi capaz de explicar a fonte das variações hereditárias sobre as quais a selecção natural atuaaria. Tal como Lamarck, Darwin pensava que os progenitores passavam à descendência as adaptações adquiridas durante a sua vida, uma teoria subsequentemente nomeada de Lamarckismo. Na década de 1880, as experiências de August Weismann indicaram que as mudanças pelo uso e desuso não eram hereditárias, e o Lamarckismo entrou gradualmente em descrédito. Em 1865 Gregor Mandel descobriu que as características eram herdadas de uma maneira previsível (Ver: A contribuição de Mendel). Quando o trabalho de Mendel foi redescoberto em 1900, a discórdia sobre a taxa de evolução prevista pelos primeiros geneticistas e biometristas levou a uma ruptura entre os modelos de evolução de Mendel e Darwin.
Esta contradição só foi reconciliada nos anos 1930 por biólogos como Ronald Fisher. O resultado final foi a combinação da evolução por selecção natural e hereditariedade mandeliana, a síntese evolutiva moderna. Na década de 1940, a identificação do ADN como material genético por Oswald Avery e colegas, e a subsequente publicação da estrutura do ADN por James Watson e Francis Crick, em 1953, demonstraram o fundamento físico da hereditariedade. Desde então, a genética e biologia molecular tornaram-se partes integrais da biologia evolutiva e revolucionaram o campo da filogenia.
Na sua história inicial, a biologia evolutiva atraiu primariamente cientistas vindos de campos tradicionais de disciplinas orientadas para a taxonomia, cujo treino em organismos particulares os levava a estudar questões gerais em evolução. Assim que a biologia evolutiva se expandiu como disciplina académica, particularmente depois do desenvolvimento da síntese evolutiva moderna, começou a atrair cientistas de um leque mais alargado das ciências biológicas. Actualmente, o estudo da biologia evolutiva envolve cientistas de campos tã diversos como bioquímica, ecologia, genética e fisiologia, e os conceitos evolutivos são usados em disciplinas ainda mais distantes como psicologia, medicina, filosofia e ciência dos computadores.

Perspectivas sociais e culturais 
Mesmo antes da publicação d'A Origem das Espécies, a ideia de que a vida evolui era fonte de debate. A evolução ainda é um conceito contencioso em algumas secções da sociedade fora da comunidade científica. O debate tem-se centrado nas implicações filosóficas, sociais e religiosas da evolução, não na ciência em si. 
Apesar de muitas religiões terem reconciliado as suas crenças com a evolução através de vários conceitos de evolução teísta, existem muitos criacionistas que a evolução é contraditória com as histórias da criação encontradas nas respectivas religiões. Tal como Darwin reconheceu desde cedo, o aspecto mais controverso do pensamento evolutivo é a sua implicação para a origem dos seres humanos. Em alguns países, notavelmente os Estados Unidos, as tensões entre os ensinamentos científicos e religiosos têm alimentado a controvérsia da criação vs. evolução, um conflito religioso que foca na política do criacionismo e no ensino da evolução nas escolas públicas. Apesar de outros campos da ciência como a cosmologia e ciências da Terra também entrarem em conflito com a interpretação literal de muitos textos religiosos, muitos crentes focam a sua oposição à biologia evolutiva.

A evolução foram usadas para a defesa de posições filosóficas eugénicas e sociais a partir do século XIX, apesar dos filósofos e cientistas contemporâneos considerarem que estas ideias não são nem mandatadas pela teoria evolutiva nem sustentadas por quaisquer dados.
Exemplo destas teorias são as ideias eugénicas de Francis Galton que foram desenvolvidas com o argumento de que o pool genético humano podia ser melhorado através de políticas de cruzamentos selectivos, incluindo incentivos para aqueles considerados como "bom stock" para se reproduzirem, e esterilização compulsória, testes pré-natais, controlo da natalidade e inclusive o homicídio dos considerados "maus stock". Outro exemplo de uma extensão da teoria evolutiva que é reconhecida actualmente como indevida é o "Darwinismo social", um termo dado à teoria Malthusiana dos Whig, desenvolvida por Herbert Spencer em ideias de "sobrevivência do mais apto" no comércio e nas sociedades humanas em geral, e por outros que reclamavam que a desigualdade social, o racismo e imperialismo eram justificados.




Fontes

O Grande Livro da Evolução, Stephen Webster, Edições ASA, 1ª edição, Julho 2004
https://pt.wikipedia.org/wiki/Introdu%C3%A7%C3%A3o_%C3%A0_evolu%C3%A7%C3%A3o

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«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...