04/08/2014

O Menino Negro


Nas décadas de 1780 e 1790 a luta pela abolição do comércio de escravos (conseguido em 1807)  e da escravatura era uma luta que se fazia em toda a Inglaterra. Feita através de discursos, petições, cartas, manifestos... mas também através da literatura.

Um dos poemas muito conhecidos é "O Menino Negro" de William Blake, de 1789

«Eu nasci muito longe, lá pró Sul,
Eu sou negro, sim, mas minha alma é branca;
Branco como um anjo é o menino inglês, 
Mas eu, como o escuro, de negra tez.

Minha mãe, antes do sol abrasar,  
À sombra duma árvore se sentou
Aconchegou-me ao colo e, ao beijar-me
Apontando p'ra leste assim falou:


Olha o sol nascer, ali Deus mora
E dá luz e calor a toda a gente,
Aos bichos, aos homens, a toda a flora;
Faz o dia alegre e a manhã quente.

Somos postos aqui por breve nada
P'ra sentir do amor os fortes raios,
Estes corpos negros, a cara queimada
São como nuvem, ou sombra no mato;

Quando as almas se afazem ao braseiro,
Desfaz-se a nuvem; ouve-se então a voz:
Saí da sombra, meus lindos cordeiros
A minha casa de oiro é para vós.

Assim disse a minha mãe, com beijinhos,
E assim digo eu ao menino branco:
Quando brincarmos como cordeirinhos;
Livre, eu da nuvem negra, ele da branca,

Serei o sonho que o há-de guardar:
Ele há-de chegar-se ao Pai nosso enfim;
De pé, seu cabelo claro haverá de tocar
E ser como ele, que há-de gostar de mim.»



Fonte: História da Escravatura de James Walvin

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