14/05/2014

Personalidade

«Abandonaremos o princípio de identidade e da unidade do carácter... Não somos nós mesmos. A personalidade não existe.» Ionesco, em Vítimas do Dever, de Hemingway

John L. Brown diz «Na nossa sociedade, o escritor (e não só o escritor, mas o artista em geral) deixa de acreditar na identidade da pessoa humana». - Em Vida e Obra de Hemingway, Biografia

Na verdade não verá o artista que a personalidade (dada como fixa) é uma ilusão criada pelo exterior e pelos outros? Que não há dentro de cada ser a própria nascente? Mas que esta é moldada e moldável e criada seja pela fantasia do indivíduo seja pela da própria sociedade?
Certos filmes mostram as sociedades divididas em grupos muito específicos, nas quais a identidade própria é eliminada em prol da sociedade. Claro que nestes filmes há sempre o herói (e/ou heroína) que entra em conflito e luta pela liberdade da personalidade individual. Mas será mesmo assim? Será que estes filmes, e livros, que mostram estas lutas pelo individual, não mostram antes um desejo do individuo de se  integrar num grupo, ainda que para isso perca a identidade? Isto é, não haverá no individuo da nossa sociedade exactamente o desejo oposto? A opção contrária, seria a de que não existe personalidade individual - o que iria de encontro à sentença de Ionesco.
Hoje em dia defende-se muito a individualidade, a diferença, o direito à personalidade, no entanto esta precisa de se encaixar num determinado grupo, ainda que seja um marginal... Não é esta uma contrariedade dessa própria luta?


E é o indivíduo o mesmo que personalidade? Confunde-se muitos estes dois aspectos, que relacionados e interdependentes, são muito distintos entre si. O individuo é a unidade singular que pode ou não pertencer a uma colectividade, a uma tribo, a um grupo, etc. Logo, o individuo é contrário ao instinto humano, que procura a sua inserção entre os outros. A personalidade, por sua vez, é o que caracteriza o individuo. Mas se o individuo se entrega à colectividade, então é esta que constrói a "personalidade" daquele individuo. Passa a ser algo partilhado, algo ditado... Mas será assim tão simples? Pelo menos a nível macro, quando se olha para um todo, quando se olha para a sociedade... mas o individuo tem de facto a sua personalidade, a sua diferença, por mais que a tente esbater entre os outros, por mais que tente ser os outros (e de facto muitas vezes ser os outros). E para isso contribui não só a sociedade, o exterior, mas a própria genética. Que embora as características sejam já todas existentes nuns e noutros, misturadas de uma forma ou de outra, tornam único cada ser (não só humano).

O que existe então? O desejo à não personalidade! Esta oposição do Homem de se querer mesclar com os outros, de ser os outros e ao mesmo tempo de ser único.

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