26/07/2019

Desejo


«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhoras, começou a despontar uma aguda inquietação sob a alegria que o hábito breve havia já enfraquecido. Abrigado nas intempéries da vida, na atmosfera propícia da doçura ambiente, calma forçada e livre meditação, começou obscuramente a germinar nele o desejo da morte. Ele estava longe de sequer desconfiar disso: sentiu somente um vago temor perante a ideia de recomeçar a viver, a suportar contrariedades de que se tinha desabituado, e de perder os carinhos, com que o tinham rodeado. Confusamente, sentiu também que seria mau perder-se no prazer ou na ação, agora que travara conhecimento consigo próprio, com aquele estranho fraterno, que ao mesmo tempo que ele via os barcos lavrar o mar, com ele convivera, horas e horas, longínquo e próximo, dentro de si. Como se agora sentisse despertar um novo amor natal ainda desconhecido, como o que desperta num jovem que tivesse sido enganado sobre o local da sua pátria primeira, experimentava a nostalgia da morte, quando, anteriormente, o que sentia era que o levavam para um exílio eterno.»

Os prazeres e os dias, de Marcel Proust, Editorial Estampa

Imagem: Folhas de Outono, de Vince Pietrov

09/07/2019

A Ascenção de Herodes, O grande

Herodes, o Grande, foi o rei judeu que maior marca deixou no seu reino. 
Quando hoje os visitantes chegam à Terra Santa, ainda vêem mais sinais do seu reinado do que de qualquer outro que o precedeu ou sucedeu. Apesar de em Jerusalém só serem visíveis as fundações do seu templo, basta uma pequena deslocação até ao Monte das Oliveiras para se ver, à distância, a peculiar colina em forma de cone onde se erguia o palácio de verão do rei e o local onde Herodes terá sido, presumivelmente, sepultado: Herodium. Tanto Massada, no mar Morto, como Cesareia, na costa mediterrânica, oferecem igualmente outras oportunidades para ver as construções de Herodes, como Tulul abu el-Alayiq, perto de Jericó, ou Machaerus, na margem ocidental do mar Morto, ou ainda Samaria, no coração das montanhas do Norte. Poder-se-ia pensar que tantas construções só poderiam ter sido levadas  a cabo por um soberano que usufruísse de paz e prosperidade; no entanto, o reinado de Herodes iniciou-se de forma turbulenta e no meio de intrigas dos últimos sacerdotes-reis asmoneus e das lutas entre os vários pretendentes à preferencia de Roma. Mesmo depois de ter subido ao trono, as intrigas no seio da sua própria família levaram-no a ordenar as execuções brutais de alguns dos seus parentes mais próximos.

Subida ao poder
Herodes era natural da Idumeia, a região sul de Judá que tinha sido ocupada pelos Edomitas e que Hircano (reinado 63 - 40 a.C.) tinha convertido ao judaísmo. Herodes foi considerado como um judeu por todos excepto pelos Judeus da Judeia e, embora esta rejeição o tenha magoado e ele tenha tentado demonstrar sensibilidade às práticas judaicas, também é verdade que contribuiu em grande parte para a formação de um judaísmo helenizado e aberto a influências exteriores.

Discurso populista


 "[...] a retórica populista dos movimentos fascistas cria organismos especializados em novas formas e métodos de propaganda, virados quer para a eficácia da mobilização das massas, quer para o reforço do seu controlo político e ideológico. Em Portugal, António Ferro explicava-o lapidamente num célebre artigo do Diário de Notícias, em 1932, um ano antes de ser nomeado chefe do Secretariado de Propaganda Nacional por Salazar. Dizia ele que as ditaduras modernas precisavam da festa, da música, da saudação romana, dos cânticos, das palavras de ordem, dos estandartes, enfim, da «ginástica indispensável aos sentimentos e às ideias condutoras». Porque era necessário ligar o ditador à «multidão», para colmatar a supressão do parlamento e das liberdades. Porque havia que não deixar apagar «a fogueira das ideias em marcha». Porque os povos gostam de ter a sensação de que participam num grande desígnio, «gostam de ser levados». Eram, pois, necessárias as «festas do ideal», a aparência de comunicação entre governantes e governados, ou seja, por outras palavras, a encenação do poder. A propaganda populista surgia assim não só como forma de maximizar a inculcação ideológica e a mobilização popular, mas como processo de controlo social e político da multidão em torno do «chefe», do movimento e, depois, do regime. É ao serviço desses propósitos que adquirem importância central o cartaz, o cinema e a rádio, a triologia instrumental do populismo dos anos 1930.
Mas a outra face da encenação do poder ensaiado pelo discurso populista é a intimidação e a indução do medo. [...]



de "O Espectro dos Populismos", Tinta da China Edições

22/05/2018

Liberdade no Mundo 2018 - Um ano em crise

A liberdade de um, é a liberdade de todos, e esta deve ser sempre defendida seja a nível local, seja a nível global.
Os dados que a Freedom House mostram para o ano corrente são alarmantes e deviam fazer com que cada um de nós refletisse  sobre o seu papel, ou ausência dele, dentro do mesmo. A ausência de interesse, muitas vezes assistida pelas massas torna-se indesculpável perante todo os sinais gritantes que se têm vindo a assistir nos últimos anos.


2017 com todas as suas consequências tornou-se um ano anti-democrático, onde se assistiu a uma diminuição da democracia a nível mundial, a maior de há décadas. Onde se incluiu uma precariedade nas eleições livres, nos direitos da minorias, na liberdade da imprensa e na manutenção da lei.

Enquanto que 35 países registaram um aumento de liberdade nas suas redes, 70 perderam viram a liberdade política e direitos humanos em declínio. Sendo de sublinhar, que este já é o 12º ano consecutivos em que se registam uma diminuição destas liberdades e direitos.



Também é de registar o papel que os EUA tiveram, ao perderem o seu papel tradicional de exemplo a nível mundial como defensor das liberdades democráticas e direitos humanos. Por outro lado, a influencia anti-democrática da Rússia e China conheceram um aumento. Registou-se, igualmente, uma ameaça grave a nível global, por parte dos Estados corruptos e repressivos.

Esta é uma situação de inversão da democracia, à qual se assistiu a um notório aumento nas duas décadas entre 1987 e 2007, sendo que desde então se têm vindo a verificar os dados de reversão da mesma.



Fonte: Freedom House



11/11/2017

Globalização do homem


«Num planeta em que as tribos humanas, em movimento constante, entram em colisão umas com as outras, a pressão torna-se opressiva. A rede aperta-se, suscitando uma sensação de claustrofobia e até de rejeição. A globalização traduz este momento histórico em que a Terra toma consciência dos seus limites e os homens da sua interdependência. O universo deixa de ser o espaço comum dos seus intercâmbios para se tornar no lugar dos seus tormentos recíprocos. Os povos ficam privados do afastamento necessário a qualquer relação, uma vez que nada mais os separa a não ser algumas horas de avião ou de comboio. Intolerável proximidade da aldeia global, a mesma onde seria necessária restabelecer afastamentos, intervalos, para que cada um tornasse a encontrar o seu lugar. A abertura prometida pela modernidade, a possibilidade maravilhosa de sair do local, da terra natal, do tribal, converte-se num novo confinamento à escala global. Não tanto alargamento dos horizontes como percepção do horizonte como uma nova clausura. Uma vez que há um só mundo, o das explosões demográficas, das catástrofes naturais e das migrações em massa, é mais do que nunca necessária uma inteligência de multidão. As tensões aumentam porque os indivíduos se aproximam, estão lado a lado, são obrigados a compartilhar o quarto. Para restabelecer pontes entre os homens, é preciso começar por restabelecer portas que delimitem os territórios de cada um.»


Em Um Racismo Imaginário, de Pascal Bruckner

19/06/2017

Aquecimento


O aquecimento global é uma realidade que todos deveríamos aceitar de uma vez por todas. Há quem defenda que este aquecimento não se deve à ação do Homem, mas sim a causas naturais. Ninguém diz que não haja causas naturais, simplesmente que há uma contribuição real, e muito significativa, do Homem para este aumento de temperatura média no nosso planeta, e que se vem a sentir de uma forma concreta de ano para ano, de mês para mês.
É dificil para o planeta absorver toda esta actividade que temos apenas para nosso benefício e lazer, toda esta ação não natural do Homem.
Se é verdade que as grandes industrias são grandes contribuidoras, também é verdade que cada um de nós, a uma escala menor, também contribui individualmente para o aquecimento global. E deveriamos começar a pensar (e a agir) o que podemos fazer para não contribuir (tanto) para essa contribuição individual - todos temos o dever (e obrigação) de diminuir a nossa pegada ecológica. 

17/04/2017

Liberdade no Mundo 2017

Tal como se tem verificado nos últimos anos, a democracia e liberdade no mundo tem vindo a diminuir de ano para ano (para não dizer de mês para mês), colocando em causa muitos dos valores básicos dos Direitos do Homem. 
A ascensão do populismo e nacionalismo fizeram com que 2016 se tornasse o 11º ano consecutivo da queda da democracia.

O mapa abaixo (devido à sua simplificação) não mostra a realidade completa, pois houve importantes recuos nos direitos políticos, nas liberdades civis (ou em ambos), em diversos países assinalados como "Livres", incluindo o Brasil, a República Checa, a Dinamarca, a França, a Hungria, a Polónia, a Sérvia, A África do Sul, a Coreia do Sul, a Espanha, a Tunisia e os Estados Unidos.

O Médio Oriente e o Norte de África foram as regiões que mostraram as piores classificações em 2016, seguidas de perto da Euroásia.
 

https://freedomhouse.org/report/freedom-world/freedom-world-2017


Já no mapa abaixo é possível obter uma melhor visualização, no entanto recomenda-se que se dê uma passagem pelo mapa interativo em https://freedomhouse.org/report/freedom-world/freedom-world-2017.


Abaixo estão indicadas as pontuações relativas aos países da União Europeia (por ordem alfabética) para o ano de 2017:
  • Alemanha - 95
  • Áustria - 95
  • Bélgica- 95 
  • Bulgária - 80
  • Chipre - 94
  • Croácia - 87
  • Dinamarca - 97
  • Eslováquia - 89
  • Eslovénia - 92
  • Espanha - 94
  • Estónia - 94
  • Finlândia - 100
  • França - 90
  • Grécia - 84
  • Hungria - 76
  • Irlanda - 96
  • Itália - 89
  • Letónia - 87
  • Lituânia - 91
  • Luxemburgo - 98
  • Malta - 96
  • Países Baixos - 99
  • Polónia - 89
  • Portugal - 97
  • Reino Unido - 95
  • República Checa - 94
  • Roménia - 84
  • Suécia - 100
A pontuação para Portugal manteve-se inalterada nos dois últimos anos, em 97.


Fonte: https://freedomhouse.org/
 

Desejo

«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhora...