25/06/2020

O Homens Fortes

Qual o fascinio pelos "homens fortes" (leia-se "ditadores"). Terá a história alguma influência na sua ascênsão? - pergunta LS

Apresento apenas aqui uma opinião pessoal.

Este deverá ser um dos assuntos mais debatidos ao longo dos tempos. São várias as sugestões, desde que as pessoas gostam que decidam por elas, até ao fascinio das suas personalidades, ou ao terror que causam nas populações.
O que levou ao poder Estaline, Hitler, Mao, ou mesmo mais recentemente, a Trump, ou à manutenção no poder de Kim Jong-un?

Usarei a História, não tanto por acreditar que ela seja a causa, ou que tenha influência direta, no máximo terá exemplos anteriores que serão usados, ou servirá como inspiração.
Hitler inspirou-se em Mussolini, Mussolini inspirou-se  nos imperadores romanos, por exemplo.
Penso que a causa deve ser analisada pela própria História, sim. Esta mostra-nos que a maior parte das lideranças não foram democráticas, por isso o surgimento da democracia (com todas as suas limitações) em Atenas, foi algo de excecional. Mesmo a Republica Romana veio a desaparecer para dar lugar à Ditadura.

Como são vistos estes homens? Na sua maioria como excecionais, ou mesmo, se não divindades (como acontecia na antiguidade), pelo menos com poder divino. São vistos como algo que se encontra além dos homens e mulheres normais (pensemos, nos tempos atuais, no ocidente, o que tem mais poder? O dinheiro, e o que tem Donald Trump? Dinheiro, também ele é visto pelos capitalistas - ainda que subconcientemente - como alguém que está para além dos seres humanos normais). Mais flagrante é o caso de Kim Jong-un (considerado semi-divino e causador de terror).

14/06/2020

Egoísmo e altruísmo

Eu e LS temos este costume, desafiarmo-nos sobre determinados temas, que o outro terá de desenvolver, tipo a brincadeira que fazia com a minha irmã quando eramos pequenas e olhando  o céu víamos determinadas formas nas nuvens que ali se encontrassem.




LS: "Ultimamente, de vez em quando o tema egoísmo passa-me pela cabeça. Todos dizem que estamos numa época de muito egoísmo, mas penso que, na sua essência, a natureza humana é a mesma agora ou há 2 mil anos atrás. Mas o modo como se manifesta toma partido do que está disponível (tecnologia, por exemplo). Divaguei um pouco agora. Voltando ao egoísmo, tenho muitas vezes a sensação que mesmo o altruísmo, muita vez, é um ato de egoísmo (parece contradição não é...). Porque muita vez é feito para que a pessoa que o faz se sinta bem. O desafio é: é possível fazer uma apologia do egoísmo?"
A primeira coisa que direi é: LS divaga sempre, nunca te prendas.

Mas vamos ao desafio que considero interessante e com muito para desenvolver, a uma característica que poderíamos dizer que é humana, mas quem tem animais de estimação, ou mesmo veja o BBC Vida Selvagem, discordará, e dirá que é inerente à própria Vida. Assim como o altruísmo.

O dicionário da Porto Editora diz-nos sobre o egoísmo "amor exclusivo da sua pessoa ou dos seus interesses" já do altruísmo diz: "1. sentimento de interesse e dedicação por outrem; 2. doutrina moral segundo a qual o bem consiste no interesse pelos nossos semelhantes; filantropia; 3. FILOSOFIA doutrina que considera a dedicação aos outros como norma suprema de moralidade; 4. abnegação"
Sendo assim como se podem conciliar o egoísmo com o altruísmo? Kant dizia que para uma ação ter um verdadeiro valor moral, esta ação não deveria ter qualquer fim, sendo executada apenas pelo desejo de a executar, que uma vontade efetivamente boa, não é a sua aptidão para atingir este ou aquele fim que se tenha proposto, mas somente o querer; quer isto dizer que é em si mesma que ela é boa".
Lendo Kant, que está de acordo com a filosofia budista (não estou a dizer que Kant tenha sequer lido sobre o budismo, mas que se encontram) em que deve haver desapego, para que uma ação seja boa, não pode haver altruísmo sequer, porque senão vamos à questão que tanta curiosidade causa a LS - o altruísmo é egoísmo. Para tal temos de pensar em seres vivos que vivem em comunhão e que evoluem. De onde vieram essas características? Da evolução dos seres vivos. O altruísmo e o egoísmo são formas de sobrevivência. Se formos a ver o nosso organismo é constituído por inúmeras células que por si só não sobreviveriam mas que para aumentarem a sua própria sobrevivência, juntaram-se e trabalham juntas. Assim também o acontece a uma escala maior, nos organismos multicelulares, nas sociedades. De forma inconsciente os seres sentem a necessidade de ajudar o próximo, pois sem se aperceberem disso, estão a ajudar a sobrevivência da sociedade, do todo, e a sua. O acto do altruísmo é um acto de egoísmo em que se nega o bem do individuo em nome do bem do(s) outro(s), para que no final possa ajudar-se.
O egoísmo, por sua vez, toma a forma de ações individuais, a célula procura o seu próprio bem e sobreviver à custa das outras, criando uma situação que em casos extremos, pode matar o organismo todo. Podemos comparar a células cancerígenas. Nos macro-organismos, esse egoísmo pode tomar formas mais leves, como pequenos atos que o ser ache que o vai beneficiar mas sem grande dano ao seu redor, ou ter uma influencia maior, como é o caso de muitos ditadores.
Tanto o egoísmo como o altruísmo estão escritos no nosso código genético, e vão alternando-se, com o único objetivo da sobrevivência. Durante algum tempo a espécie poderá desenvolver com uma predominância egoísta, mas a medio longo prazo, essa predominância mostrar-se-à prejudicial ao desenvolvimento do todo, e dessa forma o grupo altruísta ganhará espaço.

O mesmo se passa com as sociedades humanas, mas tal como referiste LS, muito do egoísmo que se fala hoje em dia, apesar, de como demonstrado acima, ser inerente, ao próprio ser humano, pode-se manifestar e sobreviver com maior vigor nas sociedades ocidentais do que por exemplo em pequenos grupos e tribos, em que o individuo sozinho teria dificuldade em sobreviver e expandir-se. Que diferença existe então nas sociedades atuais? Defendo a tua ideia, LS, a tecnologia. E também penso que há um fator muito importante a referir, que é o facto de vivermos em sociedades de consumo. A própria sociedade, as suas empresas, necessitam que haja uma vontade egoísta, isto é, de o individuo sentir a necessitar de olhar mais para si, de viver de forma mais autónoma, pois essa é a base de sobrevivência das empresas (mas parecendo um circulo, este egoísmo e individualismo tão necessário à sobrevivência das empresas, acaba por mostrar-se uma necessidade para a sobrevivência de todos, pois é o que faz com que os empregos se mantenham, haja mais recursos para educação, cultura, etc).
Por outro lado vê-se cada vez mais a uma reação ao egoísmo corporativo e aos seus danos, a defesa do ambiente era o tema central antes do surgimento do COVID19, depois foi a saúde, atualmente o racismo. Note-se que nunca houve tantas Organizações Humanitárias, nunca houve tanta preocupação com o outro - toma uma escala global.
O egoísmo e o altruísmo irão sempre existir. Demasiado altruísmo levaria ao dano do organismo, pois não haveria um cuidado com a sua própria sobrevivência, demasiado egoísmo, seria o oposto, o individuo sobreviveria, em prol do todo. São necessários e complementam-se, embora eu acredite que o altruísmo seja a força maior e aquela que tem mostrado um maior desenvolvimento.

26/07/2019

Desejo


«O condenado à morte deixou transparecer uma alegria comovida ao saber do indulto. Mas ao cabo de algum tempo, acentuando-se as melhoras, começou a despontar uma aguda inquietação sob a alegria que o hábito breve havia já enfraquecido. Abrigado nas intempéries da vida, na atmosfera propícia da doçura ambiente, calma forçada e livre meditação, começou obscuramente a germinar nele o desejo da morte. Ele estava longe de sequer desconfiar disso: sentiu somente um vago temor perante a ideia de recomeçar a viver, a suportar contrariedades de que se tinha desabituado, e de perder os carinhos, com que o tinham rodeado. Confusamente, sentiu também que seria mau perder-se no prazer ou na ação, agora que travara conhecimento consigo próprio, com aquele estranho fraterno, que ao mesmo tempo que ele via os barcos lavrar o mar, com ele convivera, horas e horas, longínquo e próximo, dentro de si. Como se agora sentisse despertar um novo amor natal ainda desconhecido, como o que desperta num jovem que tivesse sido enganado sobre o local da sua pátria primeira, experimentava a nostalgia da morte, quando, anteriormente, o que sentia era que o levavam para um exílio eterno.»

Os prazeres e os dias, de Marcel Proust, Editorial Estampa

Imagem: Folhas de Outono, de Vince Pietrov

09/07/2019

A Ascenção de Herodes, O grande

Herodes, o Grande, foi o rei judeu que maior marca deixou no seu reino. 
Quando hoje os visitantes chegam à Terra Santa, ainda vêem mais sinais do seu reinado do que de qualquer outro que o precedeu ou sucedeu. Apesar de em Jerusalém só serem visíveis as fundações do seu templo, basta uma pequena deslocação até ao Monte das Oliveiras para se ver, à distância, a peculiar colina em forma de cone onde se erguia o palácio de verão do rei e o local onde Herodes terá sido, presumivelmente, sepultado: Herodium. Tanto Massada, no mar Morto, como Cesareia, na costa mediterrânica, oferecem igualmente outras oportunidades para ver as construções de Herodes, como Tulul abu el-Alayiq, perto de Jericó, ou Machaerus, na margem ocidental do mar Morto, ou ainda Samaria, no coração das montanhas do Norte. Poder-se-ia pensar que tantas construções só poderiam ter sido levadas  a cabo por um soberano que usufruísse de paz e prosperidade; no entanto, o reinado de Herodes iniciou-se de forma turbulenta e no meio de intrigas dos últimos sacerdotes-reis asmoneus e das lutas entre os vários pretendentes à preferencia de Roma. Mesmo depois de ter subido ao trono, as intrigas no seio da sua própria família levaram-no a ordenar as execuções brutais de alguns dos seus parentes mais próximos.

Subida ao poder
Herodes era natural da Idumeia, a região sul de Judá que tinha sido ocupada pelos Edomitas e que Hircano (reinado 63 - 40 a.C.) tinha convertido ao judaísmo. Herodes foi considerado como um judeu por todos excepto pelos Judeus da Judeia e, embora esta rejeição o tenha magoado e ele tenha tentado demonstrar sensibilidade às práticas judaicas, também é verdade que contribuiu em grande parte para a formação de um judaísmo helenizado e aberto a influências exteriores.

Discurso populista


 "[...] a retórica populista dos movimentos fascistas cria organismos especializados em novas formas e métodos de propaganda, virados quer para a eficácia da mobilização das massas, quer para o reforço do seu controlo político e ideológico. Em Portugal, António Ferro explicava-o lapidamente num célebre artigo do Diário de Notícias, em 1932, um ano antes de ser nomeado chefe do Secretariado de Propaganda Nacional por Salazar. Dizia ele que as ditaduras modernas precisavam da festa, da música, da saudação romana, dos cânticos, das palavras de ordem, dos estandartes, enfim, da «ginástica indispensável aos sentimentos e às ideias condutoras». Porque era necessário ligar o ditador à «multidão», para colmatar a supressão do parlamento e das liberdades. Porque havia que não deixar apagar «a fogueira das ideias em marcha». Porque os povos gostam de ter a sensação de que participam num grande desígnio, «gostam de ser levados». Eram, pois, necessárias as «festas do ideal», a aparência de comunicação entre governantes e governados, ou seja, por outras palavras, a encenação do poder. A propaganda populista surgia assim não só como forma de maximizar a inculcação ideológica e a mobilização popular, mas como processo de controlo social e político da multidão em torno do «chefe», do movimento e, depois, do regime. É ao serviço desses propósitos que adquirem importância central o cartaz, o cinema e a rádio, a triologia instrumental do populismo dos anos 1930.
Mas a outra face da encenação do poder ensaiado pelo discurso populista é a intimidação e a indução do medo. [...]



de "O Espectro dos Populismos", Tinta da China Edições

22/05/2018

Liberdade no Mundo 2018 - Um ano em crise

A liberdade de um, é a liberdade de todos, e esta deve ser sempre defendida seja a nível local, seja a nível global.
Os dados que a Freedom House mostram para o ano corrente são alarmantes e deviam fazer com que cada um de nós refletisse  sobre o seu papel, ou ausência dele, dentro do mesmo. A ausência de interesse, muitas vezes assistida pelas massas torna-se indesculpável perante todo os sinais gritantes que se têm vindo a assistir nos últimos anos.


2017 com todas as suas consequências tornou-se um ano anti-democrático, onde se assistiu a uma diminuição da democracia a nível mundial, a maior de há décadas. Onde se incluiu uma precariedade nas eleições livres, nos direitos da minorias, na liberdade da imprensa e na manutenção da lei.

Enquanto que 35 países registaram um aumento de liberdade nas suas redes, 70 perderam viram a liberdade política e direitos humanos em declínio. Sendo de sublinhar, que este já é o 12º ano consecutivos em que se registam uma diminuição destas liberdades e direitos.



Também é de registar o papel que os EUA tiveram, ao perderem o seu papel tradicional de exemplo a nível mundial como defensor das liberdades democráticas e direitos humanos. Por outro lado, a influencia anti-democrática da Rússia e China conheceram um aumento. Registou-se, igualmente, uma ameaça grave a nível global, por parte dos Estados corruptos e repressivos.

Esta é uma situação de inversão da democracia, à qual se assistiu a um notório aumento nas duas décadas entre 1987 e 2007, sendo que desde então se têm vindo a verificar os dados de reversão da mesma.



Fonte: Freedom House



11/11/2017

Globalização do homem


«Num planeta em que as tribos humanas, em movimento constante, entram em colisão umas com as outras, a pressão torna-se opressiva. A rede aperta-se, suscitando uma sensação de claustrofobia e até de rejeição. A globalização traduz este momento histórico em que a Terra toma consciência dos seus limites e os homens da sua interdependência. O universo deixa de ser o espaço comum dos seus intercâmbios para se tornar no lugar dos seus tormentos recíprocos. Os povos ficam privados do afastamento necessário a qualquer relação, uma vez que nada mais os separa a não ser algumas horas de avião ou de comboio. Intolerável proximidade da aldeia global, a mesma onde seria necessária restabelecer afastamentos, intervalos, para que cada um tornasse a encontrar o seu lugar. A abertura prometida pela modernidade, a possibilidade maravilhosa de sair do local, da terra natal, do tribal, converte-se num novo confinamento à escala global. Não tanto alargamento dos horizontes como percepção do horizonte como uma nova clausura. Uma vez que há um só mundo, o das explosões demográficas, das catástrofes naturais e das migrações em massa, é mais do que nunca necessária uma inteligência de multidão. As tensões aumentam porque os indivíduos se aproximam, estão lado a lado, são obrigados a compartilhar o quarto. Para restabelecer pontes entre os homens, é preciso começar por restabelecer portas que delimitem os territórios de cada um.»


Em Um Racismo Imaginário, de Pascal Bruckner

O Homens Fortes

Qual o fascinio pelos "homens fortes" (leia-se "ditadores"). Terá a história alguma influência na sua ascênsão? - pergun...